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Quando a lógica dos cuidados se inverte

por oficinadepsicologia, em 13.09.11

Autora: Filipa Jardim Silva

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

 

Filipa Jardim Silva

Imagine-se uma criança com um repertório de problemas de saúde realmente dramático mas que apesar disso, apresenta sintomas muito vagos ou que não se agravam sem razão aparente. Imagine agora a mãe desta criança, muito preocupada e atenciosa, que passa dia e noite no hospital, a pressionar constantemente os médicos para sujeitar o seu filho aos exames mais rigorosos, a todos os procedimentos cirúrgicos necessários e a pressioná-los a prescreverem medicamentos, revelando já um grande conhecimento da terminologia médica. Permanentemente insatisfeita pelos diagnósticos inconclusivos, esta mãe leva o seu filho a diferentes profissionais e unidades de saúde, registando-se frequentes hospitalizações.

 

Nada lhe desperta a atenção? Esta mãe pode sofrer de síndrome de Munchausen por procuração, uma doença mental rara mas grave, reconhecida há séculos mas que permanece um mistério, difícil de diagnosticar e de tratar. Esta síndrome ocorre quando um cuidador, geralmente a mãe (85 a 95%), provoca deliberadamente problemas de saúde na criança ou convence os outros de que o seu filho está muito doente, fingindo ou induzindo sintomas, constituindo uma forma de abuso infantil. Os médicos acabam por pedir análises, realizar exames, receitar medicamentos e até hospitalizar a criança. Este comportamento do progenitor prolonga-se no tempo, envolvendo a fabricação dos sintomas (inventando-os ou causando-os) e a manipulação do tratamento (para adiar a “cura”).

Assim, a criança maltratada está permanentemente doente e só melhora quanto está separada do abusador. Neste processo, o responsável pela criança, o abusador, acaba por receber atenção dos profissionais de saúde que contactam com a criança e a sua preocupação e atenção permanentes desviam suspeitas, fazendo com que algumas inconsistências sejam desvalorizadas. Os sintomas mais comuns nestas crianças são dor abdominal, vómito, diarreia, perda de peso, cólicas, apnéia do sono, infecções, febre, hemorragias, envenenamento e letargia.

 

São muitas e profundas as consequências deste tipo de abuso infantil. A criança passa por um processo muito invasivo e fonte de sofrimento por entre a realização de exames, toma de medicamentos, hospitalizações e no extremo, realização de cirurgias, tudo desnecessário. Quando a criança adquire idade para perceber o que se passa, os danos psicológicos são acentuados. Pode sentir que é amada apenas quando está doente, o que a levará a tornar-se “cúmplice” do progenitor no processo de fabricação de doenças, podendo inclusivamente ferir-se a si própria para continuar a receber atenção. Rapidamente se instala um ciclo perigoso, em que as crianças vítimas podem tornar-se adultos abusadores ou desenvolver a síndrome de Munchausen sem procuração, fingindo sintomas ou exacerbando condições já existentes em si mesmos.

Não se conhece a causa desta síndrome, o que se sabe é que estes abusadores têm necessidades emocionais tão profundas que arriscam a própria vida ou a vida dos seus filhos para serem consideradas doentes e tratadas como tal, recebendo assim um acréscimo de atenção por parte de profissionais de saúde, amigos e familiares.

 

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publicado às 18:21



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