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Gravidez interrompida

por oficinadepsicologia, em 23.09.11

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

 

António Norton

Gostaria de propor reflectir sobre que consequências psicológicas decorrem da situação em que uma mulher, que sofreu um aborto espontâneo, ao voltar a engravidar resolve esconder o seu estado biológico.

 

Resolvi escolher esta questão, uma vez que é um tema comum dentro do universo psicológico de uma mulher que sofreu um aborto e voltou a engravidar.

 

Uma gravidez interrompida involuntariamente traz uma herança psicológica pesada. O corpo deixa de ser cem por cento confiável, passa a ser uma “casa” que gera insegurança, desconforto e desconfiança. Uma mulher que sofreu um aborto espontâneo sente que o corpo a traiu, sente quase como uma incapacidade de identificação com o seu corpo. É frequente surgirem pensamentos como: “ Como foi possível o meu corpo fazer-me algo assim?” “Eu estava tão feliz, como foi possível?”.

 

A incredulidade e a desilusão são motores psicológicos que geram na futura gravidez insegurança e desconforto: “Eu não confio no meu corpo”. É comum surgir a hipervigilância com todos os sinais que o corpo apresenta e a gravidez deixa de ser vivida de forma harmoniosa para passar a ser habitada por estados de tensão e ansiedade.

É comum surgirem pensamentos como “E se corre mal?” “E se o meu corpo volta a rejeitar o meu bébé?”.

A dúvida passa a habitar e não abandona a grávida, mantendo-se até ao nascimento.

As ecografias positivas que garantem a saúde do feto dão alguma segurança, mas a dúvida continua sempre a corroer interiormente e a ter o seu efeito na criação de tensão.

 

 

Após o trauma de um aborto é natural a grávida passar a ter outro nível de cuidado na exposição social da sua condição. Há sempre o medo de gerar expectativas, de trazer sorrisos, lágrimas de alegria, abraços, felicitações que podem cair no vazio.

 

É um dilema dificil de gerir, este dilema entre contar e partilhar este estado, ou permanecer na omissão que é confortável, porque não vai gerar expectativas, mas desconfortável porque não vai permitir usufruir e viver em pleno este estado maravilhoso.

 

Estar grávida é uma experiência maravilhosa, única, mágica, mas que naturalmente pode ser encarada e vivida de uma forma extremamente ansiosa.

 

Quando a grávida, vítima de um interrupção de gravidez involuntária prévia, nega o seu estado, quando omite, quando esconde, quando não partilha a sua condição, quando controla a sua alegria, a sua expansão emocional, está inevitavelmente a criar estados de tensão. É como se pusesse ainda mais tensão na tensão que, naturalmente existe, dado o medo de voltar a perder o seu bébé.

É uma tensão sobre a tensão.

Está clinicamente provado que estados de elevada tensão contribuem fortemente para o desencadear de um aborto espontâneo. É pois fundamental minimizar está tensão.

 

Quanto mais resguarda e mais se defende mais cria micro-tensões dentro de si. Se prefere não ir ter com amigos, ou não ir trabalhar, por medo que descubram o seu estado e criem expectativas está a criar tensões dentro de si, não vivendo livremente este momento tão especial da sua vida.

 

Imaginemos que uma pessoa viveu um desgosto de amor profundo que deixou marcas a ponto de esta pessoa ao encontrar alguém com quem se poderia apaixonar e entregar acaba por conter, reservar e esconder todo o seu amor, não se entregando. Esta pessoa vai desperdiçar a possibilidade de viver em pleno o milagre da descoberta de um novo amor, porque tem medo de voltar a sofrer.

 

De certa forma, de igual modo, uma mulher grávida que viveu uma experiência de aborto natural, ao esconder a sua gravidez de todos, acaba por não viver em pleno o seu estado.

 

Portanto, até que ponto não será contraproducente esta atitude, facilmente compreensível perante uma interrupção espontânea da gravidez, de contenção e tentativa de omissão do seu estado?

 

Pode estar a contribuir para criar ainda mais tensão, com a agravante de não viver em pleno um estado único e maravilhoso. Dê uma vista de olhos ao blogue Casa do EMDR, porque sendo de uma situação traumática que estamos a falar, encontrará aqui muita informação que pode ajudar a tomar decisões quanto à opção por uma intervenção que muito rapidamente proporciona um reequilíbrio natural do organismo.

 

 

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publicado às 09:46



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