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Dependências... as mais novas que se vão vivendo por aí

por oficinadepsicologia, em 14.10.11

Autora: Iolanda Maria

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

 

 

Iolanda

 

No mundo ocidental desde a mais tenra idade, se  "propaga"  que o ideal é não ser necessário depender de ninguém. Nesse sentido, ser dependente e depender dos outros não é bom, e o ideal é não se deixar influenciar, pensar por si próprio, agir sozinho e tentar nunca pedir apoio ou ajuda; Em termos práticos, diz-se, não é de adulto expressar as próprias necessidades, e promove-se sobretudo a mais valia, de mostrar as capacidades e valências, fechando com desconfiança a porta, ao que surja de diferente e problemáticos nos outros. O credo do dia a dia, é pensar primeiro em si e só depois nos outros, promovendo-se o ser-se e sentir-se único.

 

Porque esta unicidade a seu tempo, se torna numa máxima fantasmagórica envolvida pelas trevas do isolamento (e porque é necessário “promover a natalidade”…), também se fala em “comedidos” envolvimentos com o(s) outro(s); Mas…, para que não se caia na tão “odiada dependência”, todos os conselhos vão no sentido, de que…, para defesa da complexidade e das desilusões da vida, a ligação a experiências fortes como o enamoramento, deverão ocorrer com a máxima moderação e a menor paixão possível.

 

No entanto, como referem alguns autores, esta situação resulta num paradoxo, uma vez que pela homologação do todo e ao todo - resultante da imitação e copia publicitada pela dinâmica consumista -, se promove a a dependência a cada minuto que passa. No mundo atual, para se ter direito a um olhar, é necessária assemelhar-se a algo ou alguém, impondo-se que os símbolos da linguagem de homologação à tribo, sejam visíveis à distância; Esta circunstância leva a que se criem novas linhas de quase toxicodependência a ícones, hábitos e modas, mantendo-se como pano de fundo conflituante, as ideia do poder da individualidade e da não dependência.

 

Por seu turno, a dependência, é algo extremamente complexo, e integra vários aspetos da esfera individual do sujeito, influenciando-o de modo determinante em vários contextos, uma vez que em termos comportamentais, tanto se poderá refletir na procura de uma substância, como na repetição de um comportamento. Estas atitudes acabam por se repercutir psicologicamente, numa “perigosa” e inevitável absorção do sujeito pelo objeto da sua dependência, descurando com consequências nefastas outros elementos do seu funcionamento diário e originando um sofrimento geral, no que se reporta nomeadamente, ao seu contexto da pertença.

 

Recordemos a propósito que não é o tipo de substância ou de atividade que origina a dependência, mas sobretudo a interação entre o sujeito, o objeto e contexto em que se inserem; não são as causas que originam o comportamento, mas é o êxito do comportamento que criando um significado especial para o praticante, impulsionará a sua repetição. Em termos práticos, a raiz da atuação corresponde à experiência subjetiva, à forma como o objeto da dependência – seja  esta substância  ou  comportamento -  altera a condição do indivíduo, nomeadamente quando em contacto com o mesmo, este se sente diferente e entende positiva e mais operante essa re-estruturação do eu. É como se apenas naquele espaço, se tivesse encontrado a resposta basilar para as suas necessidades e desejos essenciais, inalcançável de outro modo. Neste sentido, a dependência resulta de uma circularidade de necessidades e significados, que limitam as escolhas, à opção vivida pelo indivíduo.

 

 

De uma forma genérica, as dependências comportamentais podem ser dividias em: Dependências Sociais ou Legais (drogas legais: - tabaco, fármacos, álcool etc. - , e atividades socialmente aceites: comprar, jogar, usar internet, comer, ver televisão, uso telemóvel, etc.) e Dependências Anti-Sociais ou Ilegais (drogas ilegais: opiáceos, cocaína e atividades ilegais: roubar, incendiar, etc.)

 

Apesar de genericamente se pensar que são similares, dependência e adição consideram situações distintas; Dependência corresponde à dependência física e química, ao estado em que o organismo “exige” uma determinada substância para funcionar. Adição, diz respeito à condição geral a que a dependência psicológica conduz na busca do objeto, repercutindo-se a sua falta numa existência sem significado. Estes estados podem não coexistir, ocorrendo situações de adição, em que a necessidade imprescindível de realizar um determinado comportamento significativo, se pode dar na ausência de uma dependência propriamente dita. Podem também existir dependências físicas sem adição, não sendo desenvolvidas “fenomenologias patológicas” que levem à autodestruição e isolamento do sujeito; no caso da nicotina por exemplo, apesar do organismo exigir a substância e de se criar uma dependência psicológica, dificilmente se chegará a um comportamento anti-social ou a ações ilegais para se fumar.

 

São 4, as características essenciais da adição, que correspondem à existência de uma necessidade incontrolada e reiterada de realizar uma conduta com efeitos nocivos:

            - O sentimento compulsivo para levar a efeito um determinado ato;

            - A Incapacidade para controlar o ato;

            - O Incomodo e angústia emocional perante a impossibilidade de realizar o ato;

            - A persistência na realização do ato, mesmo perante a certeza dos problemas

              causados por este;

 

Ao longo do século XX, assistiu-se a algumas alterações no universo das condutas aditivas, ocorrendo um desenvolvimento significativo de novas adições, que não implicam substâncias químicas e apresentam como objeto da dependência, atividades e comportamentos tão habituais como falar ao telemóvel, ir às compras ou fazer exercício. Estas novas dependências são facilitadas pela civilização e inovação tecnológica atuais, que perante estados de stress, vazio e aborrecimento,  fornecem “instrumentos” estimulando a predisposição para a gratificação imediata.    

 

 

Devido ao impacto profundamente nefasto de algumas destas práticas quotidianas, quando de regulares passam a patológicas, tornou-se necessário identificar onde se situa a linha separadora entre os dois universos, indicando os especialistas que parâmetros como a intensidade, frequência, quantidade de dinheiro/tempo investido nas mesmas, assim como o grau de interferência nas relações familiares/sociais e laborais, são elementos balizadores, para tal avaliação.

 

São muitas as pessoas com atividades, que se podem converter em dependências sociaisem adições psicológicas, mas são poucas a manifestar que foram compelidos a organizar ou reorganizar a vida devido à tolerância e perda de controle (necessidade de realizar a atividade com maior frequência) , à abstinência (mau estar quando não ocorre) e à forte dependência vivida, quando procuram reduzir ou anular algum destes comportamentos. Nestas como noutras adições, há uma pratica reiterada e persistente e um centrar da vida em torno da atividade, de que se acaba por depender. Assiste-se também à perda gradual de interesse por atividades, outrora gratificantes.

 

Os estudos realizados consideram que têm maiores probabilidades de se tornarem adictos, os indivíduos que apresentem uma personalidade vulnerável e uma coesão familiar débil, que estejam habituados a recompensas imediatas, que se sintam pressionados pelo seu grupo e expostos a elementos stressores (fracasso escolar, frustrações profissionais a afetivas) e que vivam grandes vazios existenciais (falta de objetivos, isolamento social, inatividade, solidão, etc.).

 

O início da conduta aditiva, deve-se à presença de elementos positivos de reforço, que proporcionam prazer ao próprio comportamento. À medida que se estabelece a dependência e se inicia o síndrome de abstinência, o controle do comportamento ocorre através do alivio do mal estar, proporcionado pela repetição da prática. Nesta ocasião em que já existe dependência psicológica, o sujeito manifesta ânsia e reduz o seu interesse por outras atividades agradáveis praticadas, revelando-se incapaz de controlar o impacto da nova atividade na sua dinâmica diária, apesar dos danos por esta causada. Sequencialmente os comportamentos aditivos tornam-se automáticos, sendo ativados emocionalmente, objetivando-se sobretudo a gratificação imediata. Neste estádio o indivíduo não toma em consideração eventuais consequências futuras penosas (como no caso das adições aos jogos de azar, à comida ou às compras, por exe);

 

Mas sobre estas adições em particular, nos dedicaremos em textos futuros.

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publicado às 10:41



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