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Loucura, para que te quero

por oficinadepsicologia, em 17.10.11

Autor: Nuno Mendes Duarte

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

 

Nuno Mendes Duarte

Agora que já passámos pelo Dia Mundial da Saúde Mental, agora que já mudámos mentalidades, agora que já derrubámos estigmas, agora que já percebemos o que é a loucura e a normalidade (ou não!), agora que já todos ponderámos, reflectimos e avaliámos na absoluta necessidade de saúde mental… agora…

Falemos de flexibilidade! Sim, flexibilidade mental… ou acha que só os corpos são flexíveis?

 

Dizia Erasmo de Roterdão no seu brilhante Elogio da Loucura:

“Fala a loucura

XII – Mas de pouco valeria apresentar-me como seminário e fonte de vida se não vos demonstrasse também que me deveis todos os prazeres da existência. Que seria a vida, que poderia dizer-se da vida, se lhe faltasse a voluptuosidade? Aplaudis, meus amigos? Já sabia que nenhum de vós é bastante sábio, ou bastante louco, digamos bastante douto, para ter outra opinião. Nem mesmo os estóicos desprezam a volúpia; e se em público a escarnecem, dissimulam para assim afastarem os outros e gozarem sossegadamente. Mas dizei-me por Jove: Não é verdade que a vida seria triste, aborrecida, insípida, molesta, se não tivesse o condimento do prazer, da folia e da loucura? Posso invocar o testemunho idóneo de Sófocles, nunca por demais louvado, que me fez o mais belo elogio:

Quanto maior a sabedoria, menos feliz a vida.”

 

 

É natural que pense, por vezes (esperemos que não muitas), que a sua vida é um tédio. É natural que tenha muito com que se preocupar. É natural que tenha muitas responsabilidades. É natural que sinta que tem muito a perder e que já não é uma criança que pode ceder a todos os caprichos daquilo que lhe apetece. Compreendo o que sente e recorro ao texto de Erasmo para equacionar a possibilidade do tédio da sua ter muito mais a haver com a sua forma de ver o mundo, dado que os seus pensamentos podem ter começado a assumir o controlo. Quando tal acontece é de prever que a curiosidade esmoreça, acreditando que já conhece tudo do seu dia-a-dia e que não há novidade.

 

A boa loucura pode bem pertencer a uma parte de si que o liga ao prazer da descoberta e da curiosidade quando delas precisa. É por isso que a mente de uma criança é mais flexível. Porque ela está disposta a questionar, a aprender, a acreditar, a ser uma boa louca! Esta, naturalmente, só existe quando existe flexibilidade. Existem pessoas que enlouquecem por não serem boas loucas, existem pessoas que perdem o controlo por serem tão controladas, existem pessoas que tudo o que mais desejam é sentirem-se livres de uma prisão de sanidade absolutista! A vida humana não se coaduna com absolutos, as suas necessidades psicológicas não se coadunam com ideias fabricadas de como a vida deveria ser ou de como deveria proceder a cada momento. É provável que a saúde mental só exista na medida em que for capaz de regular a sua vida emocional e, a cada momento, for capaz de satisfazer necessidades psicológicas de forma adequada.

 

Precisamos de estar loucos, por vezes, para estarmos satisfeitos! Porque a loucura alimenta este lado da vida… a flexibilidade mental é aceitar que o mundo não cabe no nosso pensamento nem pode ser arrumado por categorias e muito menos controlado.

Quer caixas? Aqui estão duas: Seja bom louco e seja são… vai precisar das duas para se sentir completo.

 

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publicado às 10:15



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