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Vencer ou gerir a crise?

por oficinadepsicologia, em 04.11.11

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Fabiana Andrade

Todos os dias ouço a palavra Crise e sempre com uma conotação negativa. Surge constantemente na comunicação social, ou no contexto das sessões com os clientes, ou através de e-mails, em conversas com os amigos, na rua, no café, no supermercado, enfim, em todo lado!

 

Reparei também, que apesar de todas as pessoas comentarem que não aguentam mais falar e ouvir sobre crise, continuam a repetir o que sentem em relação a ela: “estou com medo do futuro”, “as coisas vão mudar para pior e não sei como vou fazer”, “agora é que vai ser, vou ter que cortar em várias coisas”, “estou muito inseguro”, “não sei como vou manter a casa”, “não sei como vou pagar o carro” etc, etc etc.

 

Há algo recorrente em todas as conversas que ouço: o sentimento de insegurança perante situações futuras que ainda não estão a acontecer, a associação entre bem- estar e bens materiais e, naturalmente, a resistência à mudança. E todas essas visões ou atitudes impedem essas mesmas pessoas de gerir a crise e saírem dela mais fortes.

 

Porque faço a distinção entre vencer e gerir a crise? Lemos ou ouvimos diariamente o termo “vencer” a crise, e neste termo está implícita uma noção de conflito, de guerra contra um inimigo que devemos vencer, gerando desde já uma atitude negativa de tensão. A questão é que olhar para a crise dessa forma redutora, no limite, não nos ajuda a entendê-la, a geri-la e a transformá-la em algo que pode nos ser favorável.

 

 

A origem da palavra Crise provém do grego Krisis, que quer dizer: separação. O termo deriva do verbo Krinein, que significa separar, escolher, reparar. Hoje em dia, é um conceito utilizado em campos como a Sociologia, Política, Economia, Medicina ou a Psicologia e difere tendo em conta o contexto em que é abordada. Existe no entanto algo em comum em todos estes contextos, quando falamos em crise: estamos perante uma situação de ruptura, ou seja, algo que já não pode continuar a existir e terá por isso de mudar. É uma fase de perda ou de substituições rápidas, onde a sensação anterior de equilíbrio deixa de existir ou de ser possível.

 

A evolução da situação de crise pode ser boa ou má, consoante a sua gestão. Por se tratar de uma situação normalmente intensa, e que rompe com o equilíbrio previamente estabelecido, pode gerar instabilidade e mesmo vulnerabilidade, no entanto, quanto mais resiliente for o indivíduo, maior capacidade terá de evoluir com a situação e não sucumbir a ela.

 

O desenvolvimento de uma situação de crise tem então, três saídas possíveis: a negativa, a estável e a positiva.

 

Negativa – quando falta resiliência ao indivíduo, isto é, a capacidade de ser flexível e adaptar-se às mudanças. Esta situação ocorre quando o sujeito sente que a situação ultrapassa os seus recursos e dá a ela, uma resposta de stress. Desta forma torna-se incapaz de ser criativo, aberto, de ver o que pode retirar de positivo da situação. Toda esta má gestão leva o indivíduo a piores resultados em diversas áreas da sua vida, o que por sua vez reforça a visão negativa de si e da situação e por consequência um aumento do stress. Assim, começa um ciclo negativo e descendente, que pode levar o sujeito a situações de ansiedade e depressão graves, ao consumo de álcool e/ou drogas e mesmo a doenças graves.

 

Estas pessoas são aquelas que se sentem bloqueadas com a situação. Se a crise é uma crise na relação, não conseguem resolvê-la e renovar a relação, acabando mesmo por perdê-la por vezes. Se a crise é no trabalho, sentem-se cada vez mais desgastados, colocando toda a responsabilidade da situação fora de si, o que leva a situações por vezes de depressão, ansiedade e até mesmo despedimento. Se a crise é geral no país, como é o caso hoje em dia de Portugal, a pessoa sente-se cada vez mais insegura com as notícias, antecipa cenários catastróficos frequentemente, mas não se sente capaz de criar soluções criativas para superar dificuldades.

Este tipo de funcionamento negativo, não só leva a perturbações reais na vida das pessoas, como a perturbações emocionais e físicas por vezes bastante graves.

 

Estável – Essa posição permite ao indivíduo passar pelo período de crise com alguma resiliência, no entanto, quando a crise termina, o indivíduo volta a estar como estava antes da crise começar, sem ter feito grande aprendizagem ou evolução qualitativa. Essas pessoas são aquelas que encontram recursos positivos para não se perturbarem demasiado com o momento de crise, no entanto, não procuram activamente mudanças. Preferem “voltar” para um ponto onde se sentiam confortáveis sem arriscar uma mudança mesmo que para uma situação melhor.

 

Positiva – A visão positiva do mundo e de si mesmo, é uma visão aberta e de aceitação de todos os paradoxos, opostos, ritmos e ciclos. Nesta visão, está presente a noção de movimento, de que tudo muda, tudo se movimenta ciclicamente. Esta noção, permite a sensação de tranquilidade perante as mudanças, perante situações negativas ou difíceis, pois existe uma lógica construtiva por trás de tudo. Estas pessoas não temem as mudanças, e sim, transformam-nas em algo a seu favor. Não se apoiam em nada externo para a sua própria segurança e desta forma, conseguem lidar mais tranquilamente com as situações em que existe perda ou alteração destas estruturas. São pessoas que assumem responsabilidade pela própria felicidade e não esperam que o nada nem ninguém assuma esse papel por si. Com esta atitude, estas pessoas cuidam melhor de si mesmas, têm em geral uma saúde mais forte, mais energia, abertura e criatividade para lidar com situações adversas, gerando soluções positivas.

 

A crise não tem na sua essência, a qualidade de ser boa ou má, ela é sim intensa, mas a experiência que teremos dela depende de nós. É o momento ideal para separarmos o que temos de bom daquilo que já não nos serve, de redefinir prioridades, gerar novidades e conhecermo-nos melhor para passarmos para um estágio mais positivo logo de seguida.

 

O acompanhamento psicoterapêutico é um bem precioso em momentos como este, pois dá uma grande ajuda na viagem do auto-conhecimento, na mudança do olhar sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Se está a sentir que a crise o está a enfraquecer em vez de fortalecer, não hesite em procurar ajuda!

 

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publicado às 09:03



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