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Axandra-se* porquê?

por oficinadepsicologia, em 17.12.11

Autora: Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Madalena Lobo

 

Dizemo-nos de brandos costumes, mas logo outros nos recordam Aljubarrota e assassinatos vários. Reclamamos por não reclamar, mas há quem nos lembre que as contestações recentes de outros povos andam a perder eficácia, logo não será por brandura mas talvez sabedoria. Os estrangeiros acham-nos “so very nice”, mas não nos ensaiamos nada em por na ordem qualquer um de fora que tente ter privilégios territoriais. Contradições à parte, parece seguro pensarmos nos portugueses como um povo algo acomodatício e suave. Infelizmente, do outro lado desta delicadeza simpática, reside a passividade: axandramo-nos* com facilidade, pelo menos a título individual.

 

E, se bem que de um ponto de vista social, a agressividade - sua contraparte pendular – possa ser mais preocupante, quanto mais não seja, porque pode resultar em prejuízo de terceiros, a passividade representa uma janela de oportunidades perdidas. A ela associam-se verbos pouco recomendáveis, do ponto de vista de saúde mental - recear, encolher, calar, penalizar-se – e efeitos em áreas que não se querem a descoberto – auto-estima, auto-confiança, satisfação pessoal, sucesso.

 

Por isso, se a passividade nos faz mal, axandramo-nos* porquê?

  • Restos de um passado feito de pressão para o silêncio – e o passado de um povo é capaz de condicionar mais do que a geração que o viveu…
  • Medo das consequências – “se eu me impuser, vou sofrer retaliações”, pensamos nós
  • Desejabilidade social – ser bonzinho e acatar a ordem estabelecida das coisas, não pedir e dizer sim é socialmente bem visto, logo dá direito a que gostem de nós, nos reforcem e apontem como exemplo de bom escuteiro que sabe jogar o jogo das conveniências sociais.
  • Reverência às fontes de autoridade – vem da infância, seguramente, mas habituámo-nos a não questionar quem nos dá ordens ou faz pedidos; foram vários anos de disciplina incontornável, durante os quais nos condicionámos, também e infelizmente, a não pensar. E, entretanto, crescemos, mas deve ter havido um problema de actualização de software, porque continuamos, frequentemente, a assumir o que nos dizem, sem vislumbres de espírito crítico ;)
  • Parece mal – e, depois, passamos por conflituosos, difíceis, de má vontade, recalcitrantes ou, heresia das heresias, egoístas! E, depois, deixam de nos convidar para os jantares de amigos…
  • Atrai atenções – somos uma espécie tribal, norteada pelo correcto funcionamento das suas partes nos papéis que a cada um são atribuídos; levantar cabelo implica, por isso, um ataque à posição de alguém que poderá reagir de forma penalizadora. Isto não pensamos - apenas reagimos em piloto automático, com a nossa herança genética ao leme.

 

Mas nós temos direitos de bem-estar, já não com selo real, mas com reconhecimento constitucional. Podemos dizer “não”, podemos pedir, podemos lutar pelas nossas necessidades; podemos falar o que nos vai na alma e calar o que não queremos responder, e até interromper quem discursa; podemos sugerir e contrapor, podemos declarar-nos injuriados, magoados e incomodados, podemos afirmar opiniões contrárias sem pedidos de desculpa por ousarmos pensar diferente, podemos levantar ombros e queixo e olhar em frente com firmeza, podemos dizer “eu mereço!” e, até mesmo, “eu estou em primeiro lugar”, sem que um raio divino nos fulmine por isso.

Pois podemos. E sabemos disso. E no entanto… Axandramo-nos*!

 

Isto não é um convite à sublevação individual ou à ostentação agressiva – muito antes pelo contrário… Existe uma forma de afirmação pessoal que permite salvaguardar o respeito pelo próprio e pelo outro – chama-se assertividade e até que é simples. Difícil, difícil, é darmo-nos o direito a usá-la, porque isso implica cultivar toda uma atitude que, para a maioria de nós, nos é alheia e embate de frente com vários “ses” e “mas”, além dos medos ancestrais de exclusão e punição social.

O comportamento assertivo envolve, assim dito de uma forma muito resumida, uma comunicação composta por 3 partes:

  • Uma descrição objectiva da situação sobre a qual nos vamos pronunciar e/ou o reconhecimento da intenção positiva do outro (ou seja, aquilo que ele ganha com a posição que tomou)
  • A tutela da responsabilidade pelo impacto emocional ou de vida que isso tem sobre nós e a sua identificação clara
  • A apresentação de uma solução, preferencialmente, que dê resposta às necessidades e expectativas de ambos.

Vamos lá a dois exemplos:

  1. Você vai ao médico e queixa-se de sintomas físicos diversos, como coração acelerado, suores repentinos, sensação de medo, dores de estômago e insónias. Depois de um primeiro check-up, o seu médico de clínica geral, na ausência de outra explicação, diz-lhe que é ansiedade e receita-lhe um anti-depressivo e um ansiolítico. Por si, não sei, mas a maior parte das pessoas que vemos em consultório tomam os medicamentos prescritos sem mais questões, vergados pelo peso da opinião dessa figura de autoridade que é um médico. Uma atitude assertiva seria algo do género: “Percebo que os sintomas de que me queixo sejam de ansiedade, tanto mais que já vimos que não há nenhum problema médico que possa justificá-los. Mas tomar os medicamentos que me está a dar sem saber muito bem como actuam, nem saber o que está a causar a ansiedade e o que vai acontecer a seguir, deixa-me ainda mais ansioso. Gostava que me explicasse um pouco melhor o seu diagnóstico e que avaliássemos as opções de solução”.
  2. Você está em grande desgaste, vê-se forçado a trabalhar até às tantas, tem dois filhos pequenos, e a empresa onde trabalha anda em despedimentos. Entre os sinais de carência afectiva que os miúdos dão e o seu cansaço, você começa a perceber que, ou consegue resguardar algum tempo para si, ou vai degradar a sua prestação profissional e acabar por ser vítima da sua boa-vontade. Ao abordar o chefe, diz-lhe algo como: “Eu sei que esta altura exige um esforço adicional de todos nós e que é esperado algum nível de sacrifício pessoal. No entanto, quer por limitações familiares, quer mesmo porque sinto que estou a perder produtividade devido ao cansaço e às dificuldades em conjugar o trabalho com tudo o resto, vamos ter de rever alguns aspectos relativamente às horas que aqui passo. Depois de avaliar o que tenho para fazer, o que lhe parece eu encurtar a hora de almoço, começar a sair às 18:00 e levar algum trabalho que posso despachar depois do jantar e, assim, salvaguardar que as minhas tarefas são cumpridos dentro dos prazos?”

 

Não é que seja inteiramente fácil, mas é uma questão de hábito. E, acima de tudo, uma questão de reconhecermos a nossa janela de conforto pessoal e nos lembrarmos que podemos afirmar-nos.

 

*Axandrar: (popular) acalmar forçadamente (in Dicionários Porto Editora)

 

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publicado às 14:52



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