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Porque entretanto há esta outra vida para levar

por oficinadepsicologia, em 25.06.12

Autora: Inês Franco Alexandre

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Inês Franco Alexandre

Nos processos psicoterapêuticos em que participo, individuais ou de casal, não é raro colocar as seguintes questões:

- Como era quando era criança?

- Quais eram os seus sonhos?

Faço-o com genuína curiosidade, tentando descobrir quem são as pessoas à minha frente: de que gostam, o que as realiza, o que é que as faz sentir-se vivas.

Não é raro, também, ouvir a seguinte resposta:

- Foi há muito tempo, não me lembro.

 

E a vida vai andando andando e nós esquecendo-nos. Colocamos em recônditas memórias o que queremos, o que desejamos, o que amamos – quem somos – relegando-o para segundo plano (amanhã penso nisso), como se amanhã fosse uma segunda vida. Fazemo-lo, todos (em maior ou menor medida). Porque entretanto hoje há essa (outra) vida para levar.

Num mundo em transformação como o de hoje, a insegurança é geral. A geração adulta actual cresceu a acreditar que o mundo era previsível e que a felicidade era garantida para quem tivesse certo número de anos de estudo, casa comprada a crédito e uma família “funcional”. O que não previmos foi que nestes últimos vinte anos o mundo mudasse desta forma. O trabalho não é garantido e afinal a felicidade não se compra a crédito. Salva-se a família “funcional”. Salva-se?

E a vida vai andando andando e nós esquecendo-nos. De que gostamos tanto de conversar, de escrever, de pintar, de ler, de cinema, de trabalhar, de estudar, de ouvir música, de ir à praia – quem somos. Porque entretanto hoje há essa (outra) vida para levar.

- Se nada é certo, para quê sonhar? Eu não arrisco!

 

A falta de sonho individual resultante de uma insegurança básica faz-nos, muitas vezes, colocar todas as expectativas nas relações amorosas, que se mantêm assim profundamente idealizadas. O meu companheiro passa a ser a minha fonte de realização e, como tal, terá de desempenhar na perfeição vários papéis: tem de ser o melhor amigo, o melhor amante, tem de adivinhar os nossos desejos, saber comunicar, ser seguro, ser sensível, ser divertido, ser profundo, ser leve, ser inteligente, etc, etc. O confronto com a realidade que é o outro é por vezes insuportável e pode originar dois tipos extremos de comportamento: a fuga para trás, ou o evitamento da relação, evitando assim também a perda do outro idealizado; a fuga para a frente, ou a luta desenfreada para que o outro mude no sentido que desejamos. A maior parte dos casais que chega à terapia adopta o último comportamento, insistindo, cada um dos elementos, na mudança do outro.

 

Quando insisto na necessidade de cada um se centrar em si mesmo, sou muitas vezes mal entendida

- Não quero ser egoísta!

dizem-me. Não entendendo que, pelo contrário, sermos quem somos em liberdade (respeitando, é claro, os limites do outro) é um duplo acto de amor: connosco, e com o outro, porque libertador também de um peso e de uma expectativa que muitas vezes não nos permite, verdadeiramente, amar o nosso companheiro. Em terapia de casal três processos ocorrem em simultâneo: o processo de mudança na relação, e o processo de mudança de cada um dos indivíduos. E é no momento em que cada um se responsabiliza pelo seu processo que tudo começa a acontecer.

 

E a vida vai andando, andando e nós lembramo-nos. Do que nos preenche, do que gostamos, do que é imprescindível fazermos acontecer para que nos sintamos vivos – quem somos. Porque entretanto hoje há esta (a nossa) vida para levar.

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publicado às 08:52



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