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Relações de consumo imediato?

por oficinadepsicologia, em 31.07.12

Autora: Inês Alexandre

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Inês Alexandre

O despertador toca. Aguardamos 10 minutos antes que o dia comece. Tenho de levantar-me e correr para o trabalho e correr para o almoço e correr de novo para o trabalho e correr para ir buscar os filhos ou ir para o ginásio ou ir arranjar o telemóvel que se estragou ou ir comprar umas calças e também tenho de trocar aquela televisão que é pequena demais e o computador que não é tão rápido quanto eu gostaria.

Vivemos assim, a mil à hora, à procura de algo que nem sabemos o que é. Consumimos produtos que nos entram em casa também a mil à hora e descartamo-los porque já não nos servem, por uma qualquer razão que inventamos também com facilidade. O consumo é imediato e centrado no prazer e na necessidade, tão presente neste tempo em que vivemos, de ter. Até as palavras que utilizamos são denunciadoras: não tenho dinheiro, não tenho tempo, não tenho saúde, não tenho amor, não tenho boas notas. Parecemos viver, de uma forma geral, centrados no consumo: temos de ter aquele carro, aquela casa, aquele boneco, aquela roupa, aquele electrodoméstico, aquela marca. O que temos define-nos, é um espelho do que somos.

 

E para termos, há que… produzir. Corremos para o trabalho para produzir e sermos eficazes (outra palavra cara), realizando um máximo de coisas num mínimo de tempo possível. Para que sejamos considerados e tenhamos dinheiro para poder ter, consumir rápido com o que ganhámos a produzir rápido.

 

Educamo-nos e aos nossos filhos assim, com os verbos ter e fazer, sem que exista grande espaço de reflexão. Lembro-me muitas vezes dos meus tempos de escola e das aulas serem orientadas quase exclusivamente para uma coisa: para podermos fazer testes e ter boas notas e entrar para a faculdade. Para aqui fazermos exames e termos boas notas para virmos a ter um bom trabalho. Para produzirmos muito e termos bastante para podermos dar aos nossos filhos uma boa educação. E o ciclo repete-se.

Os tempos de crise, dolorosos para quase todos, têm-nos trazido algo: a consciência da insustentabilidade deste modelo, não só em termos macros sociais, mas também aos níveis individual e familiar. Afinal, se nos centramos e definimos, enquanto pessoas e enquanto grupo, no capital que produzimos, o que resta de nós sem dinheiro? Quem sou eu sem as coisas que compro? O que faço com o meu tempo, no dia em que não ande a correr para produzir para a seguir consumir? O que faço comigo?

 

Estas são problemáticas cada vez mais presentes em consultório, nomeadamente nas consultas de terapia conjugal ou familiar. Os sistemas conjugal e familiar constituem espaços privilegiados de transformação e têm sofrido mudanças profundas. Numa sociedade virada, de uma forma geral, para o prazer e consumo imediato, a noção de esforço (e, por consequência, a de mudança) não é, muitas vezes, vista com bons olhos. Também na conjugalidade a correria é desenfreada para que possamos” ter”, “agora” e de um modo que nos satisfaça. As relações devem ser fáceis, fluidas, sem grandes dificuldades, devem preencher-nos e se possível não nos colocar em causa, pois isso envolveria o esforço de nos mudarmos.

 

As relações não têm de ser difíceis ou trazer sofrimento, assim como não tem de trazer sofrimento a frustração de não conseguir ter aquele automóvel que tanto desejamos. Uma relação pode ser fácil, se por fácil não entendamos sem conflito, sem dificuldades, sem ajustes, sem mudança, sem esforço. A capacidade de mudar mantendo o que nos é essencial é, no meu entendimento, uma das grandes chaves da felicidade a dois. Como nos diz Erich Fromm, “o amor é uma arte […] se queremos aprender a amar temos de fazer o que faríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, como a música, a pintura, a carpintaria”. Só com esforço poderemos construir-nos, individual e colectivamente.

 

Talvez as soluções passem por conceder-nos outros espaços: espaços para sermos. Aqui, a terapia surge apenas como uma das possibilidades. Temos as escolas, os grupos de amigos, o tempo em casal e em família, os espaços individuais. Espaços de reflexão que nos permitam irmos descobrindo quem somos, individual e colectivamente, para que não fiquemos dependentes do que temos mas de quem somos. Espaços de partilha – no casal, na família, com os amigos, na sociedade – que satisfaçam a nossa necessidade profunda de pertença a algo maior. Espaços de auto-conhecimento, porque são estes que nos permitem compreendermo-nos, amarmo-nos e construir uma relação sólida connosco, condição fundamental para que possamos dar e amar os outros, e com eles construir relações profundas e de verdadeira intimidade.

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publicado às 13:11


2 comentários

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De Dolores a 01.08.2012 às 15:01

Gostei tanto do teu texto Inês, tens tanta razão. Temos de nos lembrar de quando éramos crianças e de como disfuncionalizávamos os objetos e os transformávamos e nos divertíamos como neste momento faz o Arthur.E de como tudo era mais simples. Um grande beijinho para ti
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De Anónimo a 05.08.2012 às 20:57

http://www.ted.com/talks/lang/pt/brene_brown_on_vulnerability.html

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