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As cores da depressão

por oficinadepsicologia, em 02.03.10

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

 

Durante o ano em que estive a exercer em Inglaterra, deparei-me com um homem que personificava o fenómeno da depressão. O Robert era um homem na casa dos 50 anos. Fiquei surpreendido quando entrou no consultório. Era um homem de baixa estatura, mas cuja postura contraída e hesitante fazia parecer ainda mais pequeno. A sua expressão facial denunciava uma enorme tristeza. Estava casado há mais de 30 anos com uma mulher que lhe tinha um enorme amor, e era notório o amor que sentia por ela. Ainda assim, já há 2 anos que se encontrava de baixa médica por aquilo a que chamava um esgotamento nervoso. Tendo um cargo de grande responsabilidade e pressão, a dada altura Robert deu por si incapaz de desempenhar as funções que lhe eram atribuídas. Convidaram-no a tirar algum tempo para recuperar. Foi o princípio de um pesadelo que durou dois anos.

Quando nos conhecemos, Robert era uma eremita na sua própria casa. Não se relacionava com ninguém a não ser a sua mulher. Tinha-se afastado de todos os amigos, especialmente um casal amigo de quem era muito próximo. Em tempos tinha sido um grande interessado em bricolage, mas na altura não tinha passatempos. Rotulava qualquer “hobby” como uma perda de tempo, ainda para mais quando tinha a certeza que o que quer que fizesse estaria aquém das suas ambições. “Afinal”, dizia-me, “para quê estar a falhar mais uma vez’”. Era notória a forma como Robert exigia de si mesmo: era frequente ouvi-lo dizer que, se não fosse feito na perfeição, nada valia a pena fazer. Quando lhe perguntava quais eram as suas qualidades, era absolutamente incapaz de me apontar uma característica sua de que gostasse. Ainda para mais, recentemente sofria de uma dificuldade na audição que o fazia sentir-se completamente alienado dos outros ao seu redor, especialmente no ambiente atarefado e barulhento do seu local de trabalho. À primeira vista, Robert era apenas um homem com uma auto-estima em cacos. As nossas conversas foram-nos conduzindo por um caminho que iluminou muitas outras pistas para aquilo que o afligia. Robert contou-me que tinha tido um pai que toda a vida o tinha caracterizado como um “desperdício de espaço”. Sempre lhe tinha transmitido a sua profunda desilusão por ter um filho pouco inteligente, inútil, incapaz, em todos os aspectos um falhanço. Durante muitos anos Robert tinha vivido com este fardo, e tinha-se convencido que aquilo que o seu pai fazia de si era a mais pura das verdades. 

Face às circunstâncias de desgaste e pressão constantes no trabalho, Robert cedeu. Ao dar por si exausto, incapaz de produzir, e com o isolamento que a falta de audição lhe causava, foi como se todas as palavras do seu pai se confirmassem uma vez mais. O falhanço que sentia quando foi convidado a tirar um período de baixa médica precipitou-o para um estado depressivo que se prolongou até nos conhecermos. Foi nessa altura que Robert se votou à reclusão e à inacção. Durante dois anos da sua vida, deixou de viver. Tudo aquilo que tinha alcançado, como o seu casamento feliz com a sua esposa, o facto de ter conseguido ser a primeira pessoa da sua família a ser o proprietário da própria casa, a forma como tinha conseguido subir a pulso na carreira, passou ao esquecimento. Apenas a ideia de que era o desperdício de espaço que o seu pai vaticinava o dominava. Robert tinha deixado de acreditar que seria capaz de fazer fosse o que fosse. E, sendo que para si o único resultado aceitável para qualquer tarefa seria o absoluto sucesso, nenhuma iniciativa valia a pena. Fosse dar-se com pessoas amigas, fosse fazer pequenas obras em casa. A tristeza e o desânimo eram as únicas cores na “palette” emocional da sua vida.

À medida que nos encontrámos, focámo-nos em conversar sobre os seus sucessos. Falámos sobre a belíssima história de amor que tinha trazido a sua esposa para a sua vida, e a forma como o rapaz franzino da altura tinha conseguido conquistar a “brasa” que todos cobiçavam. Falámos sobre o rapaz que começou como um simples ajudante e que, contra todas as previsões do seu pai, ascendeu na carreira até atingir a posição de chefia no serviço em que trabalhava. Falámos na forma como tinha, de facto, superado tudo aquilo que dizia de si. Com o tempo, o discurso de Robert foi mudando. Aqui e ali, presenteava-nos com o esboço de um sorriso. De sessão para sessão, notava-se o aparecimento de uma centelha de esperança. A pouco e pouco, Robert enfrentou e lidou com a sua tristeza. Começou a permitir-se considerar a possibilidade de se perdoar a si mesmo pelas coisas que via como falhanços da sua parte. Foi-se afeiçoando, lentamente, à ideia de que poderia de facto valer mais que aquilo que pensava de si, e que a forma como se avaliava poderia admitir tonalidades de cinzento em detrimento do preto-no-branco da dualidade sucesso-falhanço. E, um dia, Robert trouxe para o consultório uma surpresa. No fim-de-semana anterior tinha ido a uma festa de anos de um amigo. Tinha ficado absolutamente surpreendido com o gosto que lhe tinha proporcionado estar com amigos, voltar a conversar. Não esperava conseguir estar num ambiente social apesar da dificuldade auditiva. E, na verdade, tinha-se divertido imenso. Este foi o primeiro passo na sua recuperação. Ao longo das sessões seguintes, Robert ia trazendo relatos de novas experiências em que se tinha dado licença de arriscar fazer coisas apesar do risco de não ter o resultado que ambicionava. E, ao fazê-lo, voltou a entrar em contacto com o prazer e satisfação que retirava de estar activo. De facto, Robert serviu-se de uma das mais poderosas armas para combater a depressão: a acção. Ao negar a inércia, ao pôr a sua vida uma vez mais em movimento, Robert teve a possibilidade de constatar exactamente o quão erradas estavam as suas crenças de inutilidade. Ao fim de algum tempo, Robert contou-me que lhe tinha sido oferecida a possibilidade de regressar ao seu antigo emprego, com uma reintegração progressiva nas suas funções.

Quando concluímos o nosso trabalho, Robert era um homem novo. Aos 60 anos, tinha relançado a sua carreira. Quando o via, era recebido com um sorriso que antes era impensável vê-lo exibir. A sua esposa irradiava uma felicidade que tinha sido esbatida ao longo de anos de sofrimento, e era notório que o casamento, uma vez mais, tinha não apenas amor, mas também paixão. Com a sua força, e coragem, Robert tinha travado uma batalha sem tréguas contra a depressão. E foi uma enorme alegria ter a possibilidade de testemunhar a sua vitória.         

 

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publicado às 09:54



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