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Sim, podemos desligá-lo!

por oficinadepsicologia, em 10.08.12

Autora: Catarina Mexia

Psicóloga Clínica e Terapeuta familiar e conjugal

www.oficinadepsicologia.com

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Catarina Mexia

Quando, em 1876, Alexander Graham Bell usou a sua mais recente engenhoca para chamar o assistente do último andar da estalagem em Boston, não sonhava o desenvolvimento ou a importância que tal descoberta viria a ter nos dias de hoje.

 

O telefone tornou-se o companheiro fiel das mulheres, adolescentes e profissionais. Chega a ser utilizado como um terapeuta, um confidente e até uma arma contra o aborrecimento ou a insegurança. Na sua versão mais moderna, o telemóvel fica mais complexo a cada novo lançamento, enquanto as suas funções e a sua influência na vida moderna aumentam a uma velocidade vertiginosa. Se há poucos anos este aparelho era considerado um sinal exterior de riqueza e de status, hoje é quase indispensável na vida pessoal e profissional de cada um de nós, transformando- se em pouco tempo numa necessidade quase básica.

 

Atualmente é uma visão vulgar, normal e aceitável o comportamento de pessoas gesticulando, parecendo que falam sozinhas, quando usam o auricular, enquanto conduzem ou andam na rua. Da mesma forma que também é vulgar encontrar um grupo de amigos reunidos num jantar ou à volta de uma mesa sendo que alguns deles estão entretidos em conversas distintas através dos seus aparelhos, ou fixados nos ecrãs dedilhando mensagens ou navegando no mundo da net. A dependência com os telemóveis é quase patológica, ou como diz o escritor italiano, Umberto Eco, estes tornaram-se numa "extensão das mãos".

 

Ao telemóvel com os pais. Grande parte dos utilizadores dos telemóveis são crianças e adolescentes, apesar de o seu uso nem sempre estar relacionado com a sua principal função, que é a da comunicação, mas sim com a utilização de uma multiplicidade de características acessórias, como os jogos, as câmaras fotográficas e de filmar, as SMS's, etc. No entanto, por vezes nem são os adolescentes ou as crianças que precisam por si só dos telemóveis, mas sim os seus pais: este aparelho consegue cumprir uma necessidade dos pais que é a de terem uma ama à distância, pois permite-lhes estar em contacto com os filhos sempre que precisem.

Esta parece ser uma das mais valias de tal aparelho, na medida em que aumentou a sensação de segurança daqueles que o possuem. O envio de um SOS ou apenas o pedido de prolongar a noite para além do combinado são facilidades únicas que o telemóvel proporciona.

No entanto, a facilidade e a impessoalidade de um contacto telefónico não promove a gestão/negociação de situações que necessitariam de uma conversa calma, face a face, com ambos os pais. Para não falar das famosas quebras de rede que permitem que o telefone não seja desligado, mas que impedem a continuação de uma conversa que não estava a agradar.

 

Dependência. Existe um desencontro entre os psicólogos e os utilizadores na forma de encarar tal instrumento. Se para os primeiros pode ser considerado a febre do século, já para os segundos é apenas uma necessidade muito premente.

 

É frequente sentirmo-nos completamente perdidos, quase isolados do mundo, como se mais nenhum outro meio de comunicação existisse, quando somos surpreendidos por uma bateria que acaba. Para alguns, e porque muitos destes aparelhos nos permitem guardar informações preciosas que vão desde a nossa agenda diária, agenda de contactos, entre outras coisas, o dia entra em stand by. Ficamos como loucos tentando encontrar uma forma de recuperar a nossa vida, recuperando a carga da bateria.

 

Um outro fenómeno associado aos telefones móveis, são as SMS's. Milhões de mensagens são enviadas por ano, especialmente por adolescentes. Se estivermos atentos verificamos que a maioria deles adquire competências extraordinárias na utilização do teclado, que lhe permite escrever sem olhar, independentemente da marca do telefone, a velocidades alucinantes.

 

Nova linguagem. Esta nova tecnologia tem originado a organização de conferencias e debates acesos junto de linguistas, pois criou-se quase que um novo código linguístico próprio deste tipo de comunicação: "Kiduxo, hj keria mm star ctg. Xts sp cmgo.dec kk csa. Axu k gxto mt d ti perxebs. Bjs Sónia" (In"compreender os adolescentes", Helena Fonseca). Tradução: "Queriducho, hoje queria mesmo estar contigo. Estás sempre comigo. Diz-me qualquer coisa. Acho que gosto muito de ti percebes. Beijos Sónia".

 

Entre outras razões, nas quais se inclui um menor custo, a utilização das SMS's permite ultrapassar situações de timidez e dificuldades na expressão adequada de sentimentos, tão características na idade da adolescência. Também os adultos já descobriram essa qualidade das SMS's: quantas relações escondidas são alimentadas pelas mensagens escritas que permitem maior privacidade numa sala cheia de gente, em comparação com uma tradicional conversa telefónica.

 

Novos hábitos. Se por um lado os telemóveis aproximaram pessoas, facilitaram contactos, por outro alteraram e até prejudicaram algumas características únicas dos relacionamentos.

 

A incapacidade de adiar o prazer ou desprazer de comunicar uma notícia, boa ou má, parece ser uma das consequências. A facilidade com que pegamos num telemóvel para comunicar, por exemplo, uma situação desagradável, encurtou e não promove o tempo de reflexão necessário para que, muitas vezes o caminho até a casa ou a um local com um telefone fixo, permitiam e nos ajudava a estruturar uma conversa filtrando aquilo de facto precisava ser dito. Quantas vezes o telemóvel é usado para descarregar a nossa fúria, para alguns minutos depois nos darmos conta que teria sido mais proveitoso "dormir sobre o assunto".

 

Verificamos com frequência que parece haver um alargamento da noção de intimidade. O onde e como falar de certos assuntos, parece ter sido esquecido, pois muitas vezes somos confrontados, em locais dos quais dificilmente nos podemos ausentar, como um transporte público ou uma sala de espera de consultório médico ou serviço público, com pessoas que utilizam esse tempo para falar daquilo que anteriormente só teríamos coragem de o fazer na privacidade da nossa casa, ou mesmo do nosso quarto. Esta violação da intimidade não é só para aqueles que estão envolvidos na conversa, mas também daqueles que têm de a ouvir. Curiosamente a primeira pergunta que surge numa chamada deste tipo, não é um cumprimento, o interesse pela saúde do interlocutor, mas "onde estás? ". Invariavelmente, mesmo que esta não seja uma informação pertinente para o desenrolar da conversa, esta questão vai surgir.

 

Como muitas coisas que são introduzidas a uma velocidade alucinante no nosso dia-a-dia do século XXI, o telemóvel tem aspectos positivos e negativos e outros aos quais é necessário habituarmo-nos. A reflexão individual, para além das regras exteriores que já nos vão sendo impostas ajudar-nos-ão a tirar partido das vantagens, mantendo- nos atentos de forma critica, questionando-nos continuamente como queremos posicionarmo-nos perante tais melhoramentos

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publicado às 09:40



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