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Olhar o luto

por oficinadepsicologia, em 16.08.12

Autora: Ana Beirão

Psicóloga Clínica

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Ana Beirão

Há quem diga que a única certeza na vida é a morte, vista como o fim de um percurso natural. É sem dúvida uma certeza apesar de ser uma verdade que a maior parte de nós custa a aceitar, principalmente quando a pessoa que se perde é muito importante. Desde sempre que o Homem tem tentado lidar com  a ideia da morte, na mitologia grega, por exemplo, a alma do defunto era levada, em segurança pelo barqueiro Caronte, através dos pântanos do Aqueronte para a margem do Rio dos Mortos. Como parte do ritual funerário, os familiares da pessoa falecida, colocavam na sua língua uma moeda de forma a pagar o transporte para o outro lado do rio. Havia a necessidade de sentir que o falecido era protegido e que poderia depois descansar.

 

Tratava-se a pessoa que falecera com o cuidado necessário, mas e os que ficaram? Como é que se tratam aqueles que ainda vivem e que sofrem com uma perda. A maneira como enfrentamos a morte e o luto é influenciada pela sociedade em que vivemos, pela religião e cultura, assim como pelas nossas percepções pessoais. Todos vivemos separações e perdas mas o luto é um processo pessoal de cada um, tendo em conta a importância da pessoa que se perde, a maneira como olhamos e lidamos com essa perda e o modo como nos adaptamos a essa ausência. O luto é visto como um conjunto de reacções diante de uma perda significativa que provocará alterações na vida da pessoa, como na actividade do quotidiano, na segurança, no contacto, na percepção do futuro, no relacionamento com os outros. O processo de luto prolonga-se no tempo, é individual, mesmo quando se trata de uma perda em contexto familiar, e implica reajustar a vida. Pode desenvolver-se de uma maneira normal ou patológica (por exemplo, quando o luto é negado durante muito tempo). Se o processo for normal, este toma o seu próprio ritmo, evoluindo naturalmente, com uma duração aproximada de seis meses a um ano. As reacções passam pela falta de vontade para viver o dia-a-dia, grande desinteresse pelo mundo exterior, sentimento de incapacidade de voltar a amar de novo, dificuldade em desenvolver toda e qualquer actividade que não esteja associada à memória de quem se perdeu. Os sentimentos são diversos e podem passar pela tristeza profunda, angústia, descrença, raiva, sentimento de culpa, depressão, ansiedade, recriminação, fadiga mental, confusão, a sensação que a pessoa que se perdeu continua presente, entre outros.

 

O luto passa por um ciclo que se divide em três fases complexas, que nem sempre são evidentes: a Fase da Crise, a Fase da Desorganização e a Fase da Organização.

Na primeira fase a pessoa tenta processar o choque da notícia, que vai depender da morte ter sido esperada ou súbita. As expressões emocionais podem ser intensas e por vezes inclui-se uma negação emocional, rejeitando o que é dito. Os sentimentos passam por insegurança, desejo de vingança, raiva, culpa. Na segunda fase, é se invadido por um sentimento de vazio e desorientação, como que se a vida perdesse o sentido. Aqui manifesta-se o desespero, a inquietação, as insónias, as preocupações e a saudade do outro.  Na terceira fase, começa-se a processar a aceitação da perda definitiva e o equilíbrio físico e psicológico começa a surgir. O recordar já não é doloroso, a pessoa perdida é incluída na nossa memória e história de vida e a perda ultrapassada.

 

O luto pode ser muito doloroso e apresenta uma série de mudanças psicológicas e psicossociais, alterando os comportamentos e padrões normais de funcionamento. Se sentir que este é um processo difícil de superar sozinho ou a situação que enfrenta é mais complexa do aqui relatada, então peça um aconselhamento especializado e partilhe a sua dor e preocupações. Poderá sair deste processo com uma maior confiança em si e uma maior aptidão para lidar com novas situações de luto.

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publicado às 15:07



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