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A dor da perda: lidar com pessoas em luto

por oficinadepsicologia, em 18.09.12

Autor: André Viegas

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

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André Viegas

A intervenção no luto tem ganho territórios teóricos e práticos inquestionáveis nos últimos anos, contribuindo inegavelmente para a prestação de socorros psicológicos continuados àqueles cujas perdas parecem acarretar consequências superiores às que seriam de esperar num luto dito normativo.

Muitos que lidam de perto com pessoas que passam por perdas dolorosas, várias vezes referem sentir dificuldades de posicionamento perante tamanho sofrimento. De fato, é impossível enunciar receitas anti-dor porque, realmente, não existem. Dói quando caímos no chão, dói quando nos queimamos sem querer, dói quando torcemos um pé ou entalamos um dedo. E como um ou um dedo passam por uma espécie de "luto físico", até voltarem ao estado de equilíbrio fisiológico anterior, também a ferida da perda de alguém necessita de tempo, de espaço para ser amenizada. Convém, por isso, que estejamos atentos às mensagens de patologização do sofrimento porque, de facto, vivemos num tecido social anti-dor que nem sempre nos dá esse tempo e espaço natural para reorganizar todo um puzzle interno de memórias e sentimentos relativos à pessoa perdida. Quanto maior for o espaço ocupado pelo outro no nosso ser, maior será a dor da despovoação física deste mesmo outro. Para aqueles que são próximos de pessoas que passaram por algum tipo de perda, existem formas simples de ajudar.

 

Exemplos:

1. No início, a pessoa que vivencia a perda pode precisar de ajuda nas decisões mais simples. Pode apreciar a ajuda prática (ajuda em burocracias, preparação de refeições...).

2. Ser sensível às diferenças culturais e religiosas e procurar informação sobre costumes, rituais e práticas de modo a apoiar a pessoa (legitimar o que a pessoa está a sentir).

3. Dar a conhecer à pessoa que se está preparado para aceitar aquilo que a pessoa quiser partilhar connosco: as suas lágrimas, memórias, a sua raiva. Não brincar com a pessoa. Um ouvinte apoiante é o que elas precisam.

4. Ajudar a pessoa a perceber as formas de coping (de lidar) com a perda de modo a que elas possam entender aquilo que se passa com elas.

Fases de coping no luto


Fase 1: Encarar a perda como algo real

As pessoas tendem a oscilar entre a negação e a aceitação. A aceitação pode ser mais difícil em situações como o divórcio em que existe a possibilidade da pessoa regressar. É um período frequentemente descrito como "irreal" e em que a pessoa que vivencia a perda se sente desligada de tudo e esmagada pelo sofrimento.

 

Fase 2: Vivenciar a dor do desconsolo/sofrimento

Esta tarefa está associada com um tempo de sentimentos extremos misturados. Para a maioria das pessoas, os sentimentos regressam rapidamente após a perda e podem sentir dor física intensa, frequentemente descrita como estando no cerne do estômago ou à volta do coração. Isto é frequentemente acompanhado por uma saudade intensa e procura da pessoa. Visitar locais associados a essa pessoa, chamar o seu nome e chorar fazem parte da saudade. A pessoa pode também sentir que está a “enlouquecer” com a intensidade da emoção. Com a aceitação da perda pode vir a raiva - pela pessoa que morreu, raiva consigo próprio, podendo ainda sentir-se tensa e irritável, ou vivenciar sentimentos de ansiedade e culpa.


Fase 3: Ajustar-se à vida sem a pessoa

Antes da pessoa que vivencia a perda ser capaz de começar a adaptar-se, entra num período alternado com a segunda fase, em que tudo parece vazio e supérfluo. Tem falta de interesse por tudo e por vezes deseja morrer. Eventualmente, a pessoa começa a descobrir novos modos de coping, novos padrões e objectivos de vida. Isto é visível em comportamentos que mostram que estão preparadas para prosseguir em frente, como tirar férias, redecorar o apartamento, alterar a aparência física, ter um novo passatempo.


Fase 4: Aceitar a perda

Quando a pessoa aceita a perda, está mais disponível para fazer novas relações, aceitar novos desafios. O passado e os entes queridos são ainda lembrados e estimados pela pessoa mas estes sentimentos já não a impedem de apreciar a vida quando os sente.

 

Relativamente ao acompanhamento psicológico, em alguns casos ele pode justificar-se, sobretudo quando uma fase de luto está comprometida. O objetivo geral é pois identificar e facilitar o superar de obstáculos que impedem o completar das fases normais de luto. Especificamente, e paralelamente às várias fases de adaptação psicológica envolvidas num processo de luto, os objectivos passam por aumentar a realidade da perda, quando esta é negada, ajudar a pessoa a lidar com afetos latentes e expressos, ajudar a pessoa a superar vários impedimentos ao reajustamento após a perda e promover gradualmente novos investimentos.

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publicado às 09:57


5 comentários

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De Guadalupe a 18.09.2012 às 10:54

Eu perdi a minha mae e o meu pai no espaço de um ano...
Ja se passaram 4 anos e posso dizer que ainda dói muito esta ferida que nao cicatriza...
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De natalia a 14.12.2012 às 00:38

Perdi minha mae tem 3 meses e com ela meu mundo
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De natalia a 14.12.2012 às 00:39

Perdi minha mae tem 3 meses e com ela meu mundo
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De Cris - Porto Alegre a 14.06.2014 às 00:58

A dor é tão intensa que se torna física sim. É no centro do .peito, tirando inclusive o fôlego. E isso, todos os dias. A cada lembrança da pessoa amada é como um choque que se sente por todo o corpo, muitas destas lembranças inesperadas quando abrimos uma gaveta, um livro ou um caderno que nos faça lembrar de algum momento. É como uma gangorra, tem altos e baixos, dias onde o sofrimento parece insuportável.
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De Marcio a 13.05.2016 às 13:15

É exatamente assim que tenho me sentido. Perdi meu filho de 21, quase 22, há 5 meses, quase terminando a faculdade de Direito na UFRJ.

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