Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Jogar xadrez para uma mente jovem

por oficinadepsicologia, em 22.09.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

Pedro Diniz Rodrigues

Numa era de desempenhos e competências psicológicas, em que doenças de foro neurológico ganham um elevado destaque como algo a evitar, tem vindo a surgir nas ultimas décadas toda uma cultura de práticas associadas ao treino da mente.

 

Estes denominados “mindgames” pretendem manter ou aumentar a juventude do nosso cérebro, podendo também ter a função de reabilitar algumas das competências psicológicas pouco desenvolvidas e em casos de doença neurológica, desacelerar a velocidade de perda dessas competências. 

 

Pela elevada incidência deste tipo de doenças na nossa sociedade, pode-se considerar que a juventude do nosso cérebro não aparenta ser algo privilegiado pelo estilo de vida “moderno”.

 

Estamos normalmente expostos a níveis de stress, que são mais elevados do que gostaríamos. A sua presença terá várias razões que escapam ao nosso controlo, havendo no entanto uma pela qual somos responsáveis e sobre a qual será importante refletir. Tem a ver com a forma como o nosso cérebro está habituado a funcionar.

 

Pensando nalguns exemplos do nosso dia-a-dia, estamos habituados cada vez mais regularmente a nos deslocamos nos nossos carros guiados pelo GPS, que nos poupa o trabalho de pensar o caminho, de recordar ou antecipar cenários possíveis como qual o trajeto mais rápido ou menos congestionado.

 

A necessidade de armazenar e recuperar informação do nosso cérebro, parece estar a ser substituída por uma pesquisa rápida na internet, da qual selecionamos o tópico que nos esclarece mais rapidamente, para que tenhamos de mobilizar a atenção pelo mínimo tempo possível.

 

Com as situações mencionadas, podemos concluir que o conforto acrescido dos nossos tempos, nos ajuda a libertar a mente, dando-nos disponibilidade para atividades que de outra forma não poderiam ser realizadas, pois não as poderíamos fazer em simultâneo.  

 

Como será que aproveitamos esta disponibilidade adicional?

 

Será que realmente rentabilizamos esse tempo?

 

Uma resposta possível para muitos de nós é que “talvez não”. Esta cultura de modernidade que nos traz um inquestionável acréscimo de conforto, tem também o efeito de nos tornar menos ativos mentalmente. Somos muitas vezes conduzidos, para que nos tornemos agentes passivos de quantidades excessivas de estímulos, que tornam o nosso cérebro mais preguiçoso e resistente a tudo a que o obrigue a um tipo de atividade a que não está habituado. Esta forma de interagirmos com a nossa realidade, tende a provocar o envelhecimento precoce do nosso cérebro.

 

Poderá perguntar-se sobre o que terá o jogo de xadrez mencionado no título, a ver com o que leu até agora.

 

Posso-lhe dizer que muito. Desde os primórdios da psicologia, as primeiras gerações de investigadores e criadores dos testes de inteligência, já consideravam a prática regular de xadrez, como um factor com elevado impacto para o desenvolvimento de competências psicológicas.  

 

Ao longo de décadas, têm vindo a ser feitos numerosos estudos comparativos entre jogadores regulares de xadrez e jogadores principiantes, ao nível de competências como a memória (de trabalho e a longo prazo), percepção visual, imaginação, tomada de decisão e resolução de problemas, aquisição de conhecimento e idade cerebral.

 

São várias as evidências que a investigação nos fornece. Por exemplo, dois jogadores experientes podem estar a falar de um jogo que ocorreu há muito tempo atrás, sem a presença física de tabuleiro ou peças, recordando padrões de jogo, posições de peças no tabuleiro, jogadas alternativas, que para um jogador principiante, parecem aleatórias e como tal desprovidas de significado, sendo “menos memorizáveis”, mas que para os jogadores mais experientes terão um elevado significado, permanecendo assim acessíveis na sua memória.

 

Um outro exemplo da utilização mais eficaz do reconhecimento de padrões memorizados e capacidade de os trazer à consciência de forma eficaz, pode ser constatável ao apresentar-mos durante alguns segundos a dois jogadores, um experiente e um principiante, um tabuleiro de xadrez com peças aleatoriamente colocadas. Quando solicitados para reproduzir de memória o que viram, o jogador experiente conseguirá mais rapidamente e com maior precisão, recordar a forma como elas estavam dispostas, revelando uma maior capacidade de aceder aos conteúdos que memorizou.

 

É verdade que atualmente, existe à nossa disposição uma grande variedade de instrumentos ou programas de computador que permitem trabalhar de forma específica, cada uma das competências do nosso cérebro. Outras áreas como a música, programação informática, calculo matemático ou jogos de cartas como o poker, poderão desenvolver competências semelhantes às estimuladas pela prática regular de xadrez. Ou seja, não teremos naturalmente de nos restringir ao jogo de xadrez, para desenvolvermos competências psicológicas.

 

Independentemente dos benefícios associados, quem escolhe o xadrez como uma atividade para ocupar o tempo, beneficiará em fazê-lo pelo prazer de jogar, sendo este um motivo que a investigação confirma como sendo o mais indicado para manter a motivação e preservar o bem-estar que que a atividade confere.

 

Deveremos evitar utilizar o jogo de xadrez como uma ferramenta para um fim. Dessa forma, acabamos por adoptar respostas mais afectivas durante as partidas e tendemos a assumir uma atitude mais competitiva. A motivação (nestes casos mais extrínseca), fica condicionada pelos resultados menos positivos e acabamos por não desfrutar do jogo.

 

Se vamos jogar xadrez não pensamos muito nas competências que possamos estar a desenvolver. Queremos acima de tudo passar um bom bocado. Estamo-nos a implicar na atividade pelo desafio e prazer que nos dá, ou seja, com uma motivação intrínseca. É bom estarmos conscientes dos benefícios, mas quereremos acima de tudo, jogar. Se procura uma atividade construtiva com que possa ocupar a sua mente, considere dedicar algum tempo à prática deste jogo. E já agora, permita-se desfrutar...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:09



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D