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A zanga dos mais aptos

por oficinadepsicologia, em 05.10.12

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

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Francisco de Soure

A evolução abençoou-nos, Homem, com uma capacidade fantástica. Algo que assegurou a continuidade da nossa espécie, que nos permitiu sobreviver. Não falo do polegar oponível, da linguagem, nem tão pouco da capacidade de simbolizar pensamentos complexos. Falo de algo muitíssimo mais elementar, que partilhamos com tantos outros mamíferos: a capacidade de sentir e expressar emoções. Cada uma delas tem uma função específica, que permite assegurar a satisfação das nossas necessidades e assegurar o funcionamento dos grupos que nos permitiram sobreviver. A alegria permite-nos fortalecer laços, o afecto assegura que somos cuidados e permanecemos unidos. Por razões que não discutirei aqui, no entanto, parece que algumas destas emoções passaram a ser consideradas por nós como negativas. Talvez por não serem tão agradáveis de experienciar, emoções como o medo, a tristeza ou a zanga foram rotuladas desta forma e são algo que tendemos a evitar. Na verdade, serão tão ou mais importantes que as que chamamos positivas.

 

Para efeitos deste texto, e como resposta a vários pedidos, focar-me-ei na zanga. Esta parece ser a que mais reprovamos no contacto uns com os outros. Se vemos alguém zangar-se, quase todos tendemos a prontamente intervir no sentido de aquietar a situação. Diria mesmo mais: é muitíssimo frequente ver confundidas a zanga com o ódio e a violência. Como consequência muitos de nós somos ensinados a reprimir a expressão da emoção. A acreditar que seremos punidos se nos zangarmos, que perderemos o afecto dos outros, que seremos vistos como tendo uma personalidade difícil, ou mau feitio. É lamentável que assim seja. A zanga é uma emoção muitíssimo útil! É a zanga que nos permite estabelecer limites. Imaginemos os nossos antepassados, homens das cavernas, reunidos em torno de uma fogueira. Imaginemos que um elemento deste grupo tenta apoderar-se do quinhão de carne pertencente ao seu antepassado directo que ali se encontra. No meio selvagem, na ausência de uma estrutura social que o protegesse, a carne que tinha conseguido assegurar poderia representar a diferença entre a vida e a morte: a energia e proteínas que dela obtivesse poderia ser o que determinaria a sua capacidade de escapar a um predador ou elemento de um grupo rival, a sua capacidade de resistir ao frio ou a um ferimento. Na verdade, o momento em que desse por si a ser privado da sua carne poderia determinar a sua morte muito em breve. Apanhado desprevenido, a ausência de reacção permitiria que o ladrão o dominasse fisicamente, ou escapasse rapidamente. A situação exigiria a contracção de músculos e disponibilidade energética imediatas que lhe permitissem dominar o seu adversário. Que emoção lhe parece produzir este efeito no nosso corpo? Qual a emoção que geralmente associamos à contracção forte da musculatura e à predisposição para a luta física?

 

Pois é, caro leitor, é a zanga. Sem zanga, tornar-se-ia francamente mais provável que este seu antepassado se visse privado da sua carne e, quem sabe, da sua vida. Estranho imaginar que entre as centenas de milhares de acontecimentos mais ou menos determinados pelo acaso que resultaram no seu nascimento, muitos deles terão tido a resolução necessária à sua existência graças à adequada expressão de zanga no momento certo, não é? Tomemos este como um exemplo extremado pela simplicidade do meio no qual o observamos. Na verdade, a nossa sociedade revestiu-se de camadas sucessivas de complexidade e sofisticação. Esta sofisticação, felizmente, resultou num estado de coisas no qual serão raras as situações no nosso contexto social (embora não seja o caso em muitos países, infelizmente) nas quais nos vejamos a servir-nos da expressão física da zanga para assegurar a nossa sobrevivência. Mas as manifestações adequadamente mais sofisticadas de zanga continuam a ser absolutamente necessárias para determinar a nossa sobrevivência em planos diferentes: social, económico, profissional, familiar. Perguntar-se-á, e bem, a que manifestações mais adequadas me refiro. Imagine-se no contexto do seu emprego. Um colega dirige-se a si e diz-lhe que, por uma qualquer razão que imediatamente descarta como desculpa esfarrapada, vai ter que sair mais cedo. A implicação desta saída precoce é que, de forma a cumprir um prazo num projecto comum, terá que ficar até mais tarde no trabalho.

 

Naturalmente, com todas as implicações que daqui decorrem: vai chegar mais cansado a casa, ter menos tempo de lazer e repouso, ter problemas com a sua família, e ficar naturalmente frustrado e menos disponível para trabalhar e manter boas relações com os outros colegas no dia seguinte. Imagine as consequências da repetição ao longo dos anos de situações destas. Consegue imaginar o impacto que pode ter na sua saúde (física e mental)? Consegue imaginar que efeito pode ter nas suas relações? O resultado na sua carreira profissional? Posto assim, parece-me evidente tratar-se de facto de uma questão de sobrevivência! Muitos mais exemplos podemos conceber: o familiar que regularmente abusa da sua boa vontade e recursos para os seus próprios objectivos, sem qualquer reciprocidade; o indivíduo que se atravessa à sua frente na fila das Finanças, forçando-o a perder tempo e paciência; o “amigo” que se aproveita dos seus contactos para passar à sua frente numa oportunidade profissional.

 

Contextos muito diferentes, com graus de complexidade muito diferentes do que deparava o seu antepassado, mas com um processo semelhante: a transgressão dos limites pessoais do indivíduo, com claro prejuízo para si. Nenhuma destas situações seria bem resolvida com agressão física, isso parece ser evidente! De facto, se decidisse esmurrar qualquer uma destas pessoas as consequências para si poderiam ser bem mais negativas do que as provenientes da inacção, com o resultado óbvio de que tudo o que perderia se continuaria a perder, com agravantes sociais e, quem sabe, legais. A sofisticação das situações, bem como os limites que a sociedade em si impõe, requerem mais engenho e auto-controlo na expressão da zanga. Um não redondo aplicado no momento certo não é senão a aplicação controlada e calculada de zanga. Uma calma chamada de atenção, suficientemente clara e cortante para que o outro perceba que errou sem sentir ter margem para ripostar de forma agressiva, coloca o outro no seu lugar de uma forma que nos assegura que não existe abuso, nem represália. Deixar clara a nossa insatisfação sem agredir o outro é uma forma sublime de expressar zanga, e uma ferramenta inexcedível para a sobrevivência do Homem moderno. Na verdade, é aquilo a que comumente se chama assertividade, uma palavra bem badalada nos tempos que correm.

 

É, também, uma disciplina. A nossa capacidade para conter a zanga é um recipiente com lotação limitada. De cada vez que “dobramos a língua”, zangamo-nos de qualquer forma, sofremos as consequências, e ainda nos zangamos connosco. Não nos esquecemos da afronta. Acumulamos zangas caladas, depositamos ressentimento. Até ao dia em que a panela de pressão não aguenta mais, e rebentamos de forma desadequada. Nessa altura, explodimos a zanga, queimando tudo à nossa volta. Potencialmente, ferindo relações importantes, prejudicando a nossa imagem, e deixando-nos ainda mais convictos da inconveniência e inutilidade da nossa zanga. Por isso, usemos a zanga como qualquer ferramenta que requer disciplina: de forma consistente, imediata, e regular. Se não a deixarmos acumular, seguramente ser-nos á útil!

 

Será que nos consegue deixar um testemunho de situações em que utilizou, ou viu utilizar, esta ferramenta com sucesso?     

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publicado às 10:56



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