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Autora: Fabiana Andrade

 

Psicóloga Clínica

 

www.oficinadepsicologia.com

 

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Fabiana Andrade

Olá a todos!

 

Espero que tenham lido e gostado dos primeiros episódios dos Contos Terapêuticos.

Para quem não sabe o que são os Contos Terapêuticos, fica aqui a breve explicação desse projeto: são um apanhado de várias temáticas que surgem diariamente nos consultórios da Oficina de Psicologia. Para falar dessas temáticas, criei personagens que representam muitas pessoas com quem trabalhei ao longo dos anos. Dessa forma, espero que o leitor se possa identificar com um ou mais personagens, e assim, beneficiar das estratégias utilizadas por eles.

Boa leitura!

 

Maria – E quando o filho não é meu?

Maria tem 35 anos, e aos 30 tornou-se uma madrasta. Nunca pensou em estar casada com alguém que já tivesse filhos, e por isso mesmo, nunca deu muita importância ao assunto.

 

Já tinha tido amigos e amigas em situações semelhantes. Uns com boas experiências e outros nem por isso, e sempre disse, que se pudesse escolher, gostaria de estar com alguém que não tivesse filhos.

 

Conheceu Paulo e como que numa brincadeira do destino, apaixonou-se. E logo por um homem que tinha um filho de 7 anos!

Maria, que nunca tinha tido um convívio próximo com crianças, não sabia como agir.

 

Enquanto namorou Paulo manteve uma relação relativamente distante com João, seu filho. Faziam programas a três, mas para Maria, o convívio só com Paulo era de facto mais gratificante.

 

Sem perceber, começou a sentir alguma tensão, cada vez que João estava presente e essa tensão era traduzida em rigidez física, sentia-se extremamente cansada depois destes programas. Sentia-se ainda impaciente e irritada. Nunca tratou mal o João nem partilhou esse desconforto com Paulo.

 

Maria e Paulo decidiram casar após um ano de namoro, sem que o assunto “João” fosse abordado.

Após o casamento, o João passou para um regime partilhado entre Paulo e a mãe. Passou a estar 15 dias na casa do pai e de Maria, e 15 dias em casa da mãe.

 

Essa mudança mudou a vida de Maria e de Paulo, e é nesse momento que decide procurar ajuda.

 

Maria faz as seguintes observações:

- Sinto-me constantemente tensa e cansada nos 15 dias que temos o João

- Gosto muito do miúdo e sinto-me culpada por não querer a sua presença

- Sinto que minha casa é invadida e o meu espaço perturbado

- Não posso falar nada disso ao Paulo pois ele ficaria extremamente zangado e magoado

- Não sei qual deverá ser o meu papel na vida do João. Por vezes parece que devo intervir, noutras, a minha intervenção é mal recebida pelo Paulo que me diz “eu é que sou o pai dele”, deixando-me extremamente magoada

 

Nestas observações, estão resumidas muitas das queixas que ouço no consultório, por parte de padrastos e madrastas.

Parece existir uma sensação de viver num “limbo”. Um cliente meu dizia outro dia, “não sou pai nem mãe, mas também não sou um desconhecido, por vezes sinto-me necessário e noutras sou descartado”.

 

Também é frequente surgir a sensação de culpa, por estarmos a falar de algo “sagrado”, uma criança, o filho da pessoa que amo.

Essa culpa não permite uma comunicação fluída e honesta com o parceiro, gerando medos e tensões que se refletem de seguida na relação do casal e na relação com as próprias crianças.

 

Existem casos extremos em que os conflitos atingem proporções tão graves, que a relação chega a terminar por incapacidade dos dois adultos falarem livre e honestamente sobre o assunto, encontrando um terreno comum.

 

Outro tema referido por madrastas e padrastos, é a sensação de invasão de espaço e de “estou a levar com uma situação que não é minha, e não escolhi”.

É importante lembrar que a escolha de estar com alguém, não é uma escolha apenas daquilo que gostamos nesta pessoa. A relação é a aceitação de um todo, que é o outro. E essa escolha deve ser consciente e pacífica. Quanto mais eu for responsável pela minha escolha, mais me tranquilizo com os prós e contras da mesma.

 

De todas as histórias que fui recolhendo, inspirando-me na Maria, acabei por criar algumas dicas gerais para transformar madrastas em “boasdrastas” (sem esquecermos dos padrastos!).

 

Depois de utilizar todas essas dicas, Maria tem hoje uma relação extremamente gratificante com o João, sendo uma adulta de referência na vida do rapaz. Encontrou também em Paulo o parceiro ideal para essa experiência, ajudando-o a ser melhor pai, e ele, ajudando-a a ser uma “otimadrasta”, como João a chama.

 

Hoje já têm um filho em conjunto, e sentem-se bastante realizados com essa família moderna.

 

DICAS:

- defina com o/a parceiro/a quais são as expectativas e limites do papel de madrasta/padrasto

- conheça a criança com uma atitude aberta e curiosa. Está perante uma pessoa única que também está a viver uma situação potencialmente perturbadora. Faça perguntas e procure conhecer como é a sua experiência

- estabeleça um diálogo constante consigo mesmo, observando os seus pensamentos, o seu corpo e as suas emoções, dentro da sua experiência enquanto madrasta/padrasto

- livre-se de culpa e passe a aceitar as suas zonas de conforto e de desconforto. É preciso encontrar um local onde as suas necessidades, as da criança e as do seu/sua parceiro/a, sejam respeitadas

- fale abertamente com o seu companheiro sobre o assunto, utilizando linguagem clara, focando nos seus próprios sentimentos e numa solução comum

- converse abertamente e frequentemente com o/a parceiro/a numa lógica de partilha de informação sobre os diferentes papéis, o ser pai ou mãe e o ser madrasta ou padrasto. Cada um pode ter muito para dizer sobre o seu próprio papel, e essa conversa permite que cada um se possa colocar mais facilmente na pele do outro

 

A experiência de ser padrasto ou madrasta, somos nós que criamos. Ela pode ser a pior situação da sua vida, com potencial para acabar com a sua relação, como pode ser a experiência mais gratificante e enriquecedora de sempre.

 

Se precisar de nós, estamos aqui para o ajudar a viver a situação de forma plena e feliz!

 

 

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publicado às 17:46


1 comentário

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De Barbara a 05.05.2016 às 15:48

É difícil ser madrasta. Ainda mais de um ser que finge que não existo. Que frequenta a minha casa e passa por mim como se passasse por um vulto. Meu parceiro não enxerga isso e diz que estou exagerando quando caio em tristeza profunda por ser ignorada pelos dois quando estão juntos. Quando tento conversar com ela, não olha nos meus olhos nem na minha cara. Ela acha que é a princesa e eu sou a bruxa. Mas ela não é uma princesa e muito menos eu uma bruxa. Trabalho, estudo, corro atrás de uma vida digna e surto cada vez que penso na existência dela, sei que ela também deve sentir alguma repulsa em relação a mim, é recíproco.. Não sei o que fazer. Penso em desistir. Penso em sair da vida deles, por que eu cheguei depois. Eu é que estou sobrando... Onde foi que eu falhei pra chegar nessa miséria? Quanta tristeza eu sinto quanta...

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