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Ansiosos Anónimos

por oficinadepsicologia, em 14.11.12

Autora: Fabiana Andrade

 

Psicóloga Clínica

 

www.oficinadepsicologia.com

 

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Fabiana Andrade

Já sentiu que a sua cabeça não pára de pensar mesmo quando não lhe apetece pensar em nada?

Já reparou que seus pensamentos andam constantemente pelo passado e pelo futuro? Reparou que esses pensamentos muitas vezes começam com “e se…” e nunca têm resposta, ou têm 1000 respostas?

Sente dificuldades em tomar decisões? Em concentrar-se? Sente a cabeça constantemente cheia ou então uma “névoa”? Sente dificuldades em lembrar-se de coisas?

 

Então, bem-vindo ao clube dos Ansiosos Anónimos!

 

Muitas vezes associamos a ansiedade a sintomas como palpitações, transpiração, tremores, aperto no peito entre outros, mas a ansiedade não é apenas composta por sintomas. Muitas pessoas “aprenderam” a funcionar dentro de uma estrutura ansiosa, que caracteriza-se por uma insegurança básica, dificuldade em estar no presente e falta de poder sobre a sua própria vida.

 

Aqui fica então o relato de uma ansiosa anónima, que está “limpa” de ansiedade há três anos.

 

“ O meu nome é Maria e deixei de ser ansiosa há três anos. Não sabia que era ansiosa, simplesmente sentia dificuldades em concentrar-me, sentia que a minha vida estava estagnada, tinha muitas dificuldades em tomar decisões, principalmente aquelas que implicavam ter de me arriscar. Só conseguia decidir quando tinha certeza absoluta de estar certa ou da situação dar certo, o que era raro, obviamente.

Dei por mim a passar mais tempo na minha cabeça, a fantasiar com a vida que queria ter. Sentia como um ruído constante que não conseguia parar, dentro da minha cabeça, e por vezes era mesmo eu que não queria que ele parasse.

 

Nunca tive ataques de pânico, mas por vezes sentia sintomas de ansiedade como apertos no peito.

 

Sentia bastante medo de algumas coisas, como morrer, não ter um namorado, não casar ou ter filhos e não ser bem-sucedida no trabalho. Quando pensava nisso era horrível e nestes momentos apetecia-me fantasiar. Fantasiava comigo de braço dado ao meu marido, com um filho no colo, numa ótima casa etc.

 

Dei por mim a ter menos rendimento no trabalho, pois cada vez era mais difícil concentrar-me. Não gostava do que fazia, era comercial numa empresa telefónica, e isso não facilitava nada a concentração. No entanto, sabia que era difícil arranjar trabalho na minha área, recursos humanos, e por isso também não arriscava sair do meu trabalho.

 

O ambiente no escritório cada vez estava pior e eu sentia-me cada vez mais sem energia, ao mesmo tempo sem coragem de sair.

O meu pensamento passou a correr como um TGV! E se eu sair o que me acontece? E se eu não conseguir arranjar trabalho? E se o próximo trabalho for pior? Eu não devia estar a queixar-me, com tanta gente desempregada, sou mesmo uma ingrata!

 

Todos os dias era um custo sair da cama, e já nada me apetecia fazer. Sentia-me constantemente cansada e apática, sem forças. E foi aqui que uma amiga indicou-me a psicoterapia.

 

Inicialmente não sabia o que lá ia fazer, mas consegui relatar à terapeuta o que sentia. Comecei a perceber como funciona então a estrutura ansiosa:

- Em primeiro lugar começa sobre uma base de grande insegurança. Nunca confiei em mim, nunca me senti válida ou capaz de transformar a minha vida naquilo que eu queria. No meu caso tive pais super- protetores,  tiveram-me já mais velhos e estavam constantemente com medo de tudo. Interiorizei que era frágil e que precisava dos outros para me protegerem.

A terapeuta explicou-me que nem sempre é assim, por vezes a estrutura familiar é diferente, mas no fim, o que a criança sempre aprende é que de alguma forma não é forte ou capaz.

 

Essa base de insegurança faz com que eu tenha crenças negativas sobre mim, por exemplo, não sou capaz de arranjar um emprego que goste, não sou capaz de fazer com que as coisas tenham resultado, não mereço que um homem bom goste de mim, etc.

Comecei a escrever um diário com as observações que fazia no meu corpo, na minha emoção e no meu pensamento. Cada vez que observasse o pensamento a criticar-me ou a começar com “e se”, interrompia e respirava.

 

Tomar consciência disso foi muito duro, mas foi a melhor coisa que me aconteceu. Vi que eu mesma boicotava uma série de situações pois não acreditava em mim. Eu enviava um currículo na minha área, mas nem sequer ligava para saber se o haviam recebido pois o meu pensamento dizia algo como “nem vale a pena, senão te ligaram é porque não gostaram do teu cv”. Nunca investi em passar uma imagem motivada, confiante, para as empresas que contactava pois não acreditava que iriam ter interesse em mim.

 

No que toca a relações nem se fala! Só gostava de pessoas que mostravam estar indisponíveis desde o início. Davam todas as indicações disso mas eu investia na mesma. Depois ficava de rastos a pensar, “és mesmo desinteressante, não vale a pena”.

 

Fiz com a terapeuta um exercício chamado de cadeira vazia. Em que eu falava com a voz crítica dentro de mim. Muito estranho mas muito forte! No início senti-me embaraçada, mas sem que eu desse conta, estava numa cadeira a falar com essa voz, que estava noutra cadeira. E foi claríssimo o quanto eu me criticava e deitava abaixo. Nesse exercício fui capaz de tomar clara consciência dessa voz dentro de mim e também de me zangar com ela, de exigir que ela desaparecesse pois só me atrapalhava.

 

A partir desse dia, cada vez que percebia que me estava a criticar ou boicotar, parava e respirava, outra coisa que aprendi nas sessões. Observava o que estava a acontecer no presente. Esse exercício ajudou-me a começar a calar o ruído constante na minha cabeça.

Depois de perceber que funcionava assim, entendi que meu pensamento sempre andava para trás e para a frente, tentando antecipar situações que eu pudesse controlar. Isso tudo pois estava sempre insegura!

 

Percebi que não adiantava nada tentar controlar nada e que a energia que eu gastava era para o lixo. Comecei então a estar cada vez mais no presente, fiz desporto, meditação, relaxamento, li vários livros sobre esse tema e cada vez me sentia mais forte.

Comecei a ouvir o corpo, e não só o pensamento, na hora de tomar decisões. Comecei a reparar quando estava com medo e a não confiar em mim, e quando estava simplesmente a viver o presente e a sentir amor por mim.

 

Tudo começou a ser mais fácil na minha vida e eu passei a sentir-me mais leve e positiva.

 

Iniciei uma procura feroz de emprego na minha área, com o pensamento de base: sou capaz e mereço! Sentia-me mais criativa para preparar apresentações diferentes sobre mim para cada empresa. Como me sentia focada em procurar o que gostasse de fazer, o dia-a-dia no escritório tornou-se mais leve, pois sabia que estava lá temporariamente. Passei a olhar para este trabalho como um instrumento e como uma experiência, da qual eu queria tirar o melhor proveito. Aprendi o que conseguia nesta fase, fiz o melhor que podia para sair dali de cabeça erguida e orgulho de mim, com a sensação de ter tido uma experiência válida na minha vida. Foi isso mesmo que aconteceu, até hoje ainda os visito para um café de vez em quando.

 

Passado um ano do início da minha busca, consegui um trabalho numa empresa conceituada. Comecei como estagiária e agora já estou há um ano como efetiva. Todos os dias quando acordo, olho para o meu momento presente, agradeço por tudo e comprometo-me comigo mesma a fazer o melhor para transformar o meu presente no melhor para mim.

Essa espécie de meditação diária dá-me forças e foco constante. Passei a ter espaço mental, a ter mais concentração e memória, a sentir-me mais produtiva e feliz.

 

Tudo isso dá trabalho mas é um investimento seguro em mim mesma!

 

Ainda estou solteira mas pela primeira vez na minha vida isso não me perturba ou me preocupa. Sinto-me merecedora de amor, e por isso  trato-me com amor todos os dias e todos à minha volta também. Saio, divirto-me e tenho relações afetivas importantes.

 

Olhar para a minha voz critica, conhece-la e eliminá-la, viver no presente, manter uma consciência constante do meu corpo, da minha emoção e do meu pensamento, comprometer-me comigo e responsabilizar-me pela minha vida, foram as lições que aprendi na minha terapia e foram as ferramentas para eliminar a minha ansiedade.

 

Partilho hoje com todos os ansiosos anónimos a minha experiência de sucesso, para que se quiserem, possam tirar daqui a força necessária para o vosso próprio percurso!

Boa sorte a todos,

Maria”

 

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publicado às 15:18


7 comentários

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De ana carla a 25.11.2012 às 15:07

estou passando pelo mesmo problema nao sei mais o que fazer tenho medo de fica so a noite sinto falta de ar tremores a pressao sobe mi ajudem.
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De oficinadepsicologia a 08.01.2013 às 23:12

Cara Ana Carla,

os sintomas que reporta são efectivamente comuns num quadro de ansiedade, em que tendencialmente se sente agitação, nervosismo ou tensão interior, fadiga fácil, dificuldades de concentração ou mente vazia, irritabilidade, tensão muscular, perturbações no sono (dificuldade em adormecer ou permanecer a dormir, ou sono agitado ou insatisfatório).
Mas atenção: a ansiedade é uma problemática que tem cura! Existem, essencialmente, duas formas de actuar que registam boas taxas de sucesso: a farmacológica (que requer acompanhamento psiquiátrico) e a intervenção psicoterapêutica de abordagem cognitivo-comportamental. Procure por isso ajuda. Estaremos completamente disponíveis para iniciar este caminho a seu lado, dando-lhe as ferramentas que necessitar para recuperar a sua qualidade de vida.

Se lhe fizer sentido pode em qualquer momento agendar uma primeira consulta connosco para que o seu caso seja avaliado. Para isso pode enviar-nos um email para contacto@oficinadepsicologia.com ou preencher o formulário no nosso site: http://oficinadepsicologia.com/consultas/57-2.

Um abraço com força
Filipa Jardim da Silva
Oficina de Psicologia
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De tania a 05.10.2013 às 15:30

Também me foi diagnosticado recentemente personalidade ansiosa. Estou a fazer tratamento com medicação e psicoterapia. Quis desistir da médica porque no final da primeira consulta, cheguei a casa e chorei, chorei. Mas dp falei com a psiquiatra que me disse que faz parte do processo. Sinto exatamente o mesmo que é relatado pela anônima.
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De tania a 05.10.2013 às 15:34

Gostaria imenso consultar a oficina de psicologia, mas infelizmente não tenho assim tantas possibilidades economicas. Talvez um dia , gostaria muito e agrada me imenso o vosso site.
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De Aline a 11.02.2014 às 15:37

Sinto exatamente a mesma coisa que a Maria, e o pior que sinto que esta me afetando em muitas áreas na minha vida, como na minha vida social, não consigo dirigir mais, tenho medo de tudo e de todos, tudo que eu começo não termino, tenho alguns ticks nervosos, já não sei o que é auto estima faz tempo, insegura demais, desanimo, falta de interesse, palpitação, angustia e outras milhares de coisas.
Amanhã vou passar com o psiquiatra, meu neurologista me disse que é ansiedade generalizada.
Estou torcendo para encontrar um tratamento adequado para meu problema, pois a cada dia que passa sinto que piora gradativamente.
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De marcio augusto s. pinheiro a 09.03.2014 às 19:44

tenho ansiedade e preocupação exaregada por fatos corriqueiros que se acentuaram muito pois tive uma perdaa familiar há 10 anos de 3 mae, avo e tio em menos de 6 meses, durane este tempo tempo tambem tive ¨2¨baques financeiros e a 5 meses faleceu repentinamente minha esposa, mesmo assim faço as coisas, mas muitas vezes com uma pre-ocupação alem do normal , faço terapia e apoio neurologico c medicamentos gostei muito do site e gostaria quee tivesse no RJ, mas mesmo assim vou lutando.O site me foi muito util, aue vi quantas pessoas tem problemas, e bem maiores., hoje tambem momentaneamente luto tambem contra a solidão.Parabens pelo trabalho que gostaria de participar.
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De Ana Maria da Silva souza a 08.01.2017 às 13:41

Sou ansiosa sofro mt...preciso mt de ajuda me identifiquei com sua história parece com o que estou passando mt obrigada.

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