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Haverá Emoções Positivas e Negativas?

por oficinadepsicologia, em 24.11.12

Autor: António Norton

 

Psicólogo Clínico

 

www.oficinadepsicologia.com

 

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António Norton

 

É comum ouvirmos falar sobre emoções positivas e negativas.

Quantas vezes cada um de nós já ouviu expressões como “o importante é estar feliz e tristezas não pagam dívidas”?

 

Certamente já terá ouvido e lido sobre teorias que dividem as emoções entre positivas e negativas. Dentro desta linha de raciocínio, são consideradas emoções positivas: a alegria, a felicidade, a euforia, entre outras. O polo negativo é atribuído a emoções como a tristeza, a raiva, o ódio, o rancor, o desespero, o medo, a cólera, a ira, o nojo, entre outras.

 

O meu desafio agora é o de pensarmos um pouco sobre esta dicotomia, ou melhor dito, esta abstração que fazemos, ao atribuir categorias de bem e de mal a estados emocionais. No fundo, dizer que uma emoção é boa e logo, positiva, ou má, e logo, negativa.

Vamos partir de algumas ideias centrais, tendo como base o ser humano.

 

Qualquer emoção serve um fim adaptativo.

Uma emoção funciona como uma mensagem que informa sobre como nos sentimos face a uma situação externa, factual e real ou interna, íntima, privada e interior.

 

Vou procurar clarificar estas ideias com um exemplo:

O João ficou triste quando se foi despedir da sua namorada, que partiu para outro país à procura de emprego.

Perante uma situação factual, existe uma mensagem que é comunicada ao João, de modo que ele percebe que a partida de Maria o faz ficar triste.

Uma situação interna poderá ser, ainda voltando ao exemplo do João: O João está em casa, sozinho. Lembra-se da partida de Maria e fica triste. A lembrança de Maria - acontecimento interno - fá-lo ficar triste.

 

Portanto, qualquer emoção tem, essencialmente, um carácter informativo, seja perante uma situação interna ou externa.

 

Voltemos a esta ideia das emoções negativas:

É portanto comum considerarmos a zanga, a tristeza, o ódio, a cólera, como emoções negativas. Mas será que verdadeiramente é assim?

O que aconteceria se, por vezes, não sentíssemos tristeza, zanga, ódio ou cólera?

 

Qualquer destas emoções, ditas negativas, informa sobre como nos sentimos.

É fundamental que fique claro que as emoções existem para ajudar-nos, proteger-nos e fazer superar os desafios da vida. Não há “maus da fita”.

Existem situações e deverão sempre existir que fazem com que estejamos tristes ou zangados, ou mesmo com raiva.

 

Voltemos ao exemplo do João: se o João fica triste porque a Maria se foi embora, então essa tristeza poderá significar que o João tem afecto por Maria e que ela é importante na sua vida. 

 

Se o João descobre que Maria o anda a enganar, então, dará lugar à zanga. A zanga, tal como qualquer outra emoção, existe para ser considerada. Ficar zangado indica que o João se sente traído, magoado, vulgarizado, humilhado e enganado.

 

Se o João descobre que a Maria goza com o seu afecto e o ridiculariza, é natural que a odeie.

 

Se o João é raptado e torturado, é natural que sinta cólera, o que o poderá levar a encontrar a agressividade necessária para matar o criminoso em legítima defesa.

 

Penso que todos estamos de acordo relativamente à utilidade do aparecimento destas várias emoções nos exemplos apresentados.

 

Agora vamos imaginar que o João considera a tristeza, a zanga, a cólera, o ódio como emoções negativas e logo alvos do seu evitamento, e vamos imaginar alguns cenários possíveis:

Passado pouco tempo da partida de Maria, o João recebe a notícia que a sua irmã Teresa morreu. João não acede à tristeza e sem perceber como, começa a ficar súbita e “estranhamente” ansioso, zangado com a vida, perde a concentração e abusa no consumo de drogas de forma a tapar o “vazio que teimosamente se instalou”.

 

O João descobre que Maria o traiu, mas decide não se zangar. Como consequência, Maria poderá continuar a traí-lo e a humilhá-lo. Se o João não sentir legitimamente esta zanga também não poderá tomar decisões sobre se quer ou não continuar com a Maria.

 

Finalmente, vamos imaginar que o João não acede ao ódio e à cólera perante uma situação limite em que foi vítima de rapto e de agressividade física. Se o João não aceder a tais emoções poderá morrer nas mãos de um criminoso.

 

As emoções ditas negativas existem por algum motivo. Não são o “lado negro do ser humano”.

 

O mais importante é escutarmos sempre as nossas emoções e se o fizermos poderemos ter outro equilíbrio emocional.

 

Mas será que existem situações em que as emoções poderão ser consideradas negativas?

Existem situações em que poderão ocorrer estados de desregulação emocional. Estes estados ocorrem quando uma emoção não muda, apesar da variabilidade de contextos internos ou externos. A permanência destas emoções poderá conduzir a mal estar físico e psicológico, conferindo uma valência negativa às emoções.

 

Eis alguns exemplos: a tristeza recorrente e contínua, ou a zanga que parece não terminar, mesmo se o alvo da zanga possa já ter falecido. Aí sim, as emoções tornam-se negativas.

 

 

Concluindo,

o que confere uma valência negativa a uma emoção não é a emoção em si mesma, mas sim a sua estaticidade temporal, a sua continuidade e invariância, apesar da variabilidade de contextos quer internos, quer externos.

 

Se o João ficar sempre zangado mesmo após ter terminado a sua relação com a Maria, então essa zanga, pela sua durabilidade e ausência física própria de um contexto de manifestação, é negativa e prejudicial.

Já não é suposto estar zangado e se essa atitude assim se mantém, tal é sinal de desregulação emocional.

 

Se se sente continuamente invadido por uma emoção, deverá então procurar a ajuda profissional de um psicólogo clínico.

Pense nisso!

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publicado às 14:22



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