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Bullying

por oficinadepsicologia, em 17.03.10

Autora: Patrícia Aguiar

Psicóloga Clínica

 

O país está chocado com a morte de Leandro. E não é para menos. Uma das questões que mais intriga as pessoas é a que tenta fazer sentido das razões que levaram o Leandro a cometer um acto tão desesperado. Perguntamo-nos vezes sem conta o que leva um rapaz de 12 anos a conter dentro de si tanto sofrimento? E o que o levou a pensar que não tinha outra saída para o seu sofrimento para além da morte? A resposta à primeira pergunta veio sobre a forma de bullying; a resposta à segunda é bem mais complexa, mas parece apontar para o facto de não estarmos preparados para lidar com esta realidade. 

 

Mas o que aconteceu é bem real e o bullying é tem graves consequências para todos e existe neste país a que nos habituámos a pensar como de “brandos costumes”.

 

O primeiro passo é entender o que é o bullying, como se manifesta e que consequências tem para todas as partes envolvidas. O segundo passo é prevenir o bullying nos diversos contextos em que tende a ocorrer. Por último, é preciso intervir nos casos de bullying adoptando uma perspectiva ecológica; ou seja, não basta ...

 

O que é o bullying e como posso reconhecer

 

Bullying é um termo criado por Dan Olweus para designar uma provocação, intimidação ou agressão repetida e continuada da parte de uma ou mais pessoas, provocando um mal-estar numa ou mais vítimas (Olweus, 1993).

Olweus apercebeu-se desta realidade enquanto fazia uma pesquisa precisamente sobre as causas do suicídio nos adolescentes, tendo chegado a uma descoberta alarmante. Grande parte dos adolescentes que cometeram ou tentaram o suicídio tinham sido alvo de ameaças, agressões, insultos repetidos e outros comportamentos precisamente por parte de pessoas com quem deveriam ter uma convivência pacífica: os colegas de escola. Aliás, a palavra bullying, paradoxalmente, tem na sua etimologia, a designação de amigo ou companheiro.

 

Em todas as definições de bullying, existem alguns aspectos que são consistentes:

 

os comportamentos de bullying são variados, mas incluem alguma forma de intimidação física, psicológica, relacional ou sexual

o bullying pode ser mais visível, mas pode também passar despercebido pelo tipo de comportamentos envolvidos (por exemplo, espalhar rumores sobre alguém)

o bullying caracteriza-se por ser um padrão de comportamento repetido, continuado ao longo do tempo

o bullying está associado muitas vezes a uma percepção de desequilíbrio na relação de poder (é visto como um comportamento de alguém sobre uma pessoa vista como mais desprotegida, mais fraca, mais isolada ou mais vulnerável)

o bullying é um comportamento deliberado.

 

Para compreendermos exactamente do que estamos a falar quando falamos de bullying é preciso compreender que tipo de comportamentos encaixam nesta designação. Existem várias tipologias de bullying, mas podemos dividir os comportamentos de bullying em 3 grandes tipos:

Físico: que inclui comportamentos como bater, empurrar, roubar, estragar e destruir coisas, foçar a vítima a fazer algo que não quer,...

Verbal: neste tipo de bullying os comportamentos assumem a forma de chamar nomes, gozar, insultar,...

Relacional: inclui comportamentos como o recusar falar a alguém, levando ao isolamento social, mas também estratégias mais elaboradas como espalhar mentiras e rumores, através dos contactos, fazer alguém sentir-se rejeitado,...

 

O facto de alguns dos comportamentos de bullying não serem muito visíveis ajuda a que o fenómenos passe muitas vezes despercebido, nomeadamente na escola, quer na sua verdadeira extensão, gravidade e expressão. Esta pressão contínua e repetida aliada a um clima de medo e secretismo, silêncio este forçado pelo agressor e mantido pela vítima e restantes alunos, na tentativa de evitar retaliações.

Estes dois factores conjugados, bem como a falta de experiência dos agentes escolares nestas temáticas podem explicar a inacção de todo o sistema perante as repetidas queixas apresentadas. A um nível mais global, ajuda também a explicar o grande desconhecimento de todos face ao problema.

Estudos recentes com amostras nacionais de alunos de várias escolas mostraram que em 2004, cerca de 22% dos alunos referem terem sido vítimas de bullying e 27% referem serem tanto vítimas como agressores (Carvalhosa e Matos, 2004). Estes estudos mostraram também que os comportamentos mais referenciados são o gozar, chamar nomes, espalhar boatos, dizer mentiras, fazer gestos ordinários e o excluir e deixar de fora de actividades de propósito.

 

Existem vários estudos que tentam traçar um perfil de vítimas e agressores de bullying, no sentido de haver um modelo que permita delinear estratégias de prevenção e de intervenção eficazes. Na verdade, no bullying, temos 3 agentes:

O Agressor: tende a ser impulsivo, com uma grande necessidade de dominância, acreditando que a agressão é a melhor forma de resolver conflitos, o que revela falhas ao nível das competências sociais. Apesar da sua insegurança, aparenta ser para os colegas um indivíduo confiante, seguro de si próprio, forte e extrovertido. Tendencialmente tratam-se de alunos fracos em termos de desempenho académico.

A vítima: são geralmente miúdos ansiosos, inseguros e mais sensíveis, com algum grau de isolamento social e com dificuldade em fazer amigos. Geralmente as vítimas de bullying têm já uma baixa auto-estima, são introvertidos e têem uma percepção de si próprios como sendo fracos e vulneráveis. Um dos factores que mais explica o facto de se passar de uma agressão isolada para se ser uma vítima de bullying é a reacção à primeira agressão: a vítima de bullying frequentemente reage com choro ou retirada do confronto.

O espectador (bystander): Muito poucos estudos têm dedicado a sua atenção a este terceiro agente no fenómeno do bullying, mas sabe-se hoje que todos os que assistem a uma situação de bullying têm um grande poder na situação, podendo determinar se esta piora ou melhora.   Alguns estudos referem que os que presenciam apenas intervêm em 19% das agressões, que frequentemente não não sabem o que dizer ou fazer e que receiam tornar-se também vítimas.

A resposta dos adultos, dos agentes escolares e das pessoas que as vítimas tendem a procurar para pedir ajuda também nem sempre são as melhores e podem determinar que a vítima mantenha o clima de segredo que mantém o bullying escondido. Muitas vezes, os adultos não têm a percepção da gravidade do problema, desvalorizando-o como sendo um ritual de passagem inofensivo pelo qual todas as crianças passam, em maior ou menor grau. Mas será que o bullying tem que fazer parte do cresimento? NÃO. Todas as crianças, adolescentes e jovens têm o direito a sentirem-se seguros na sua vida e a sentirem-se bem consigo próprios. Também há muito a crença de que, a menos que leve a ferimentos físicos, talvez seja melhor deixar a criança resolver por si própria a situação, sem grande intervenção por parte dos adultos. NÃO. Pode ser tarde demais.

As consequências de uma situação de bullying prolongado podem ser devastadoras, como no caso do Leandro e incluem sensação de insegurança e desespero, tristeza, depressão, baixa auto-estima, ansiedade, stress pós-traumático, tudo factores que contribuem para o aumento de risco de suicídio nas camadas mais jovens.

 

Se estiveres a ser vítima de bullying:

pede ajuda a alguém em quem confies

se não te ocorrer ninguém, liga para as linhas de apoio a vítimas de bullying ou de apoio a vítimas

não tentes lidar com o problema sozinho durante muito tempo

não te escondas nem mantenhas o segredo... esta é uma das muitas armas secretas dos agressores!

 

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publicado às 17:39



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