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Os ídolos e os jovens

por oficinadepsicologia, em 18.03.10

Autora: Inês Mota

Psicóloga Clínica

 

Os jovens de hoje, atravessam como os demais jovens das passadas gerações, uma fase turbulenta e densa, povoada por grandes mudanças, conquistas e desafios - a adolescência! Esta é uma fase importante no processo de consolidação da identidade pessoal, psicossocial e sexual.

 

Cada um de nós constrói o seu “Eu- identitário” através das interacções relacionais com outros significativos, podendo estas ser reais ou até mesmo fantasiadas, num subtil jogo de identificações.

 

Se na infância os modelos de identificação são geralmente os pais, na adolescência e com o movimento que a acompanha, o “sair para fora”, surge a identificação e partilha mais intimista com os grupos de pares, sejam eles os colegas da escola, do desporto, do bairro, do café, e os (des)conhecidos dos hi5s e facebooks. Estes grupos são espelhos estruturantes onde os adolescentes se reconhecem reflectidos, ao nível das ideologias, interesses musicais, gostos ou até mesmo receios.

 

Este processo de identificação surge relacionado com o processo de diferenciação, sendo que esta mudança de orientação dos afectos é necessária para que os jovens possam ascender à realização, construção de ideias e afectos próprios, ultrapassando assim as identificações infantis, e descobrindo e escolhendo modelos mais de acordo com quem pretendem ser no futuro. Os Ídolos preenchem este espaço de busca e de procura.

 

A par das revoluções sociológicas o próprio conceito de Ídolo tem sofrido transformações, tendo passado da esfera divina para a esfera humana. De facto, é já um lugar-comum, desde a revolução tecnológica, que personalidades acabem por se tornar Ídolos, através da divulgação e actuação dos meios de comunicação e posterior aclamação popular, tornando-se em “objectos de adoração” que acabam por povoar o imaginário das massas.

 

Estas personalidades representam uma série de características valorizadas pelos adolescentes e pela nossa cultura ocidental: às vezes a rebeldia ou a aparente independência; às vezes a beleza ou a fama, o sucesso e o dinheiro.

Assim o “culto dos Ídolos” exerce importantes efeitos culturais e sociabilizadores, através da oferta de modelos e papéis, comportamentos e atitudes, disponíveis para as variadas sub- culturas juvenis. 

 

Através da vivência conjunta e partilhada com os pares, assistimos a fervorosos “actos de idolatria”, autênticos rituais que denotam uma extrema dedicação e devoção desde a “celebração” em novos espaços de adoração, como os espaços virtuais, blogs, sites de divulgação, passando pela aquisição de CDs, DVDs, revistas dos Ídolos, obtenção impreterível de bilhetes de entrada para espectáculos, até à aquisição de roupas e acessórios. Todas estas passagens ritualizadas de adoração permitem ao fã ter o seu ídolo cada vez mais ao seu lado, cada vez mais perto de si, confraternizando com os seus traços identitários para que possa eventualmente “vesti-lo”.

 

Assim enquadrado, ter ídolos e adorá-los é algo absolutamente normativo à adolescência. Poderá tornar-se preocupante, se esse interesse passar a ser o foco central da vida do adolescente, passando de admiração a obsessão, num dos dois movimentos, uma obsessão em ser como o ídolo, ou uma obsessão em ser fã desse ídolo, visto qualquer destes dois movimentos não permitir a autonomização e diferenciação identitária.

 

“A ilusão pode ser gerada por qualquer imagem, mas torna-se mais e mais sensível à medida que cresce a ambição de representação da imagem: quanto mais a imagem se esforça em tornar presente o ausente, mais ela tenta representar o irrepresentável, tornar visível o invisível, mais ela gera a ilusão de não ser imagem.” Francis Wollf, 2005

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publicado às 10:22



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