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Saudades dos Outros e Saudades de Nós

por oficinadepsicologia, em 28.11.12

Autor: Francisco Gonçalves Ferreira

 

Psicólogo Clínico

 

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Francisco Gonçalves Ferreira

                                      “todos os dias acordo e não consigo deixar de pensar nele...está em todo lado, até mesmo quando não me consigo lembrar dele... porque ele era assim, fugaz...”

 

A nossa história concedeu-nos o privilégio de podermos sentir, dentro de uma gama variada de sentimentos, um tão profundo, interno e também tão desconcertante como o da saudade. Somos dotados dessa ferramenta da alma, por vezes tão vaga e indeterminável, outras vezes tão detalhada e explícita, que tem, porém, sempre a consequência, desejável ou não, de nos aproximar das pessoas ausentes. Quando nos aproximamos dos outros sentimo-nos mais acompanhados e esse sentimento ajuda-nos a confirmar que o nosso mundo interior, o nosso espaço vital, é habitável. Somos habitáveis e a saudade permite-nos valorizar-nos por isso.

 

Para além dessa valência, a saudade também nos rectifica a memória e situa-nos no meio dela, devolvendo-nos coordenadas da nossa identidade. Treinar a saudade e experimentá-la várias vezes ao longo da nossa vida, ou condensá-la num período mais ou menos definido de tempo, permite-nos treinar a nossa memória episódica e emocional e essa constelação concede-nos uma espécie de qualificação ao grau de “pessoas que pensam ou sentem a própria história”. Lembrarmo-nos com saudade é por isso um elemento de sedimentação da personalidade.

 

Mas e quando a saudade nos faz mal? Quando sentimos que deixamos de ser nós próprios porque as imagens dos ausentes nos roubam a capacidade de viver o presente e o dia-a-dia, deixámos de ser inteiros? Perdemos o sentido da realidade? Estamos a ficar malucos?

 

A sensação de alienação ou bloqueio porque estamos incessantemente a pensar numa pessoa que não está presente ou à qual, como naquela música do Sérgio Godinho, temos o “acesso bloqueado”, não é forçosamente sinal de doença nem de perturbação mental. É, sobretudo, uma insegurança e uma necessidade de proteção. É uma vontade de nos sentirmos inteiros, embora pareça que só possamos senti-lo na presença do outro.

 

Muitas vezes este sentimento já existe quando o outro “ainda” é bem real. Nas nossas relações sentimos que com ele, ou com ela, podemos ser quem “verdadeiramente somos”, mas custamos a senti-lo quando estamos sozinhos. Sentimo-nos completos na intimidade com o outro mas vazios na intimidade com nós próprios.

 

Seria bom se encontrássemos, de quando em vez, melhores caminhos para nos bastarmos e ponto final. Ou pelo menos, ponto e vírgula.

Relacionarmo-nos afectivamente com alguém, sentirmo-nos seguros o suficiente para nos darmos a conhecer, apaixonamo-nos, dizermos “aquele é meu amigo”, não acontece porque o outro seja, como costumamos dizer, a nossa outra “metade”, mas antes porque reconhecemos no outro alguém capaz de negociar connosco a nossa “totalidade”. Nós não somos metades. Somos uns. Mas precisamos dos outros para ter a certeza.

 

Na saudade incessante de alguém ausente, está a saudade do que éramos com ele, ou com ela, da verificação da nossa permanência no outro. É uma espécie de certeza da continuidade do nosso ser. Na saudade revisitamos os outros, mas mais importante ainda, aproximamo-nos de nós!

 

 

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publicado às 16:13

Que Música Escolheria para Ouvir Durante o Acto Sexual?

por oficinadepsicologia, em 27.11.12

Autora: Joana Florindo

 

Psicóloga Clínica

 

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Joana Florindo

(texto é acompanhado com esta referência: http://www.youtube.com/watch?v=w30RGhFCAkk)

 

Há músicas que nos inspiram, há músicas que nos ajudam a relaxar, há músicas que nos agitam e fazem vibrar… Enfim, podemos dizer que há música e músicas para todos os gostos, momentos e estados emocionais. Consegue encontrar a sua preferida para acompanhar o acto sexual?

 

De acordo com os resultados de um recente estudo britânico intitulado “Science Behind the Song”, desenvolvido pelo serviço de música online Spotify, qualquer uma das músicas da banda sonora do filme de 1987 “Dirty Dancing”, configura a lista das preferidas para se ouvir durante a relação sexual, sendo consideradas sexualmente estimulantes quer por homens quer por mulheres.

 

Na segunda posição surge a música “Sexual Healing” de Marvin Gaye, e na terceira “Bolero” de Ravel.

 

De acordo com o psicólogo que conduziu o estudo, Daniel Müllensiefen, o facto da banda sonora de “Dirty Dancing” ocupar o primeiro lugar da lista, pode dever-se à associação que as pessoas fazem entre as músicas e o clima de romance vivido no filme, e que estas músicas podem servir não apenas como veículo de comunicação de intenções românticas, como para influenciar estados de humor durante o encontro amoroso.

 

 O estudo revelou ainda que para cerca de 40% das pessoas inquiridas, num total de 2000 pessoas, com idades compreendidas entre os 18 e os 91 anos, a música de fundo pode ser mais estimulante do que o toque do companheiro. Surpreendidos com este resultado? Para Daniel Müllensiefen não há grande motivo para surpresa, pois segundo ele, a investigação neurocientífica evidencia que a música pode activar os mesmos centros cerebrais de prazer, que a comida, as drogas ou o sexo.

 

No que respeita às melhores músicas para a sedução e antecipação do encontro sexual, o estudo revelou que todas partilham as mesmas qualidades, vozes mais roucas mas com frequente utilização de agudos, sendo a música “Sexual Healing” de Marvin Gaye a grande vencedora desta categoria.

 

E para si, quais seriam as músicas vencedoras?

 

Fonte: http://video360.world-television.com/Spotify/MNRView.aspx?SiteId=zRMxw9CssiA%3d&locale=en-GB&storyid=ZLfwCUcBl6k%3d

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publicado às 11:30

O Inverno e a Depressão

por oficinadepsicologia, em 25.11.12

Autora: Ana Beirão

 

Psicóloga Clínica

 

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Ana Beirão

O Outono chegou com as suas características próprias, chuva, dias cinzentos e curtos. O frio bate à porta, entra e apoquenta-nos com as mudanças que temos de fazer em nós e lá por casa. É altura de mudar a hora, de mudar as peças de vestuário, abrir o baú, começar a aquecer a casa.

 

A mudança chega, instala-se e como é que nós ficamos? Para alguns de nós surgem sintomas depressivos como a fadiga, dificuldade de concentração, aumento da necessidade de dormir ou dificuldade em dormir, isolamento da família e dos amigos, aumento de peso, falta de esperança, diminuição acentuada de interesse nas actividades que habitualmente dão prazer.

 

Estes são alguns dos sintomas que relacionamos com a depressão mas que, neste caso, devem-se à época do ano, à depressão sazonal. Nesta altura, o tempo frio e a ausência de luz natural, faz com que fiquemos mais vulneráveis a flutuações normais do humor.

 

Assim recomendamos que durante esta altura:

- Tenha em conta o que come, uma dieta pobre pode contribuir para as mudanças de humor e para a falta de energia, por isso não exagere em produtos “fast food”.

  • - Faça algum exercício fora de casa, pois ajuda a melhorar o humor e contribui para noites bem dormidas, além de receber alguma luz natural.
  • - Deite-se a horas regulares.
  • - Como temos menos luz natural nesta altura do ano, pense em ter mais luzes ligadas pela casa, a quantidade de luz ajuda a diminuir alguns dos sintomas.
  • - Não se isole em casa, invista o seu tempo com família e amigos, visto que o isolamento pode levar a um aumento do estado depressivo.

Faça uma nova actividade, mais criativa, aprenda algo novo. Comece uma colecção de folhas de árvores por onde passa nos seus passeios, por exemplo.

 

Estes são apenas alguns exemplos que lhe podem ajudar durante esta época, mas se perceber que a sua depressão vai tomando outras proporções com as quais não consegue lidar, contacte um profissional e peça uma ajuda mais especializada.

 

Deixo-vos aqui um provérbio chinês, que pode ajudar a clarificar a necessidade de uma monitorização quando afectados pela depressão “Não tenha receio de caminhar devagar, tenha apenas receio de ficar parado”.

 

 

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publicado às 12:42

Haverá Emoções Positivas e Negativas?

por oficinadepsicologia, em 24.11.12

Autor: António Norton

 

Psicólogo Clínico

 

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António Norton

 

É comum ouvirmos falar sobre emoções positivas e negativas.

Quantas vezes cada um de nós já ouviu expressões como “o importante é estar feliz e tristezas não pagam dívidas”?

 

Certamente já terá ouvido e lido sobre teorias que dividem as emoções entre positivas e negativas. Dentro desta linha de raciocínio, são consideradas emoções positivas: a alegria, a felicidade, a euforia, entre outras. O polo negativo é atribuído a emoções como a tristeza, a raiva, o ódio, o rancor, o desespero, o medo, a cólera, a ira, o nojo, entre outras.

 

O meu desafio agora é o de pensarmos um pouco sobre esta dicotomia, ou melhor dito, esta abstração que fazemos, ao atribuir categorias de bem e de mal a estados emocionais. No fundo, dizer que uma emoção é boa e logo, positiva, ou má, e logo, negativa.

Vamos partir de algumas ideias centrais, tendo como base o ser humano.

 

Qualquer emoção serve um fim adaptativo.

Uma emoção funciona como uma mensagem que informa sobre como nos sentimos face a uma situação externa, factual e real ou interna, íntima, privada e interior.

 

Vou procurar clarificar estas ideias com um exemplo:

O João ficou triste quando se foi despedir da sua namorada, que partiu para outro país à procura de emprego.

Perante uma situação factual, existe uma mensagem que é comunicada ao João, de modo que ele percebe que a partida de Maria o faz ficar triste.

Uma situação interna poderá ser, ainda voltando ao exemplo do João: O João está em casa, sozinho. Lembra-se da partida de Maria e fica triste. A lembrança de Maria - acontecimento interno - fá-lo ficar triste.

 

Portanto, qualquer emoção tem, essencialmente, um carácter informativo, seja perante uma situação interna ou externa.

 

Voltemos a esta ideia das emoções negativas:

É portanto comum considerarmos a zanga, a tristeza, o ódio, a cólera, como emoções negativas. Mas será que verdadeiramente é assim?

O que aconteceria se, por vezes, não sentíssemos tristeza, zanga, ódio ou cólera?

 

Qualquer destas emoções, ditas negativas, informa sobre como nos sentimos.

É fundamental que fique claro que as emoções existem para ajudar-nos, proteger-nos e fazer superar os desafios da vida. Não há “maus da fita”.

Existem situações e deverão sempre existir que fazem com que estejamos tristes ou zangados, ou mesmo com raiva.

 

Voltemos ao exemplo do João: se o João fica triste porque a Maria se foi embora, então essa tristeza poderá significar que o João tem afecto por Maria e que ela é importante na sua vida. 

 

Se o João descobre que Maria o anda a enganar, então, dará lugar à zanga. A zanga, tal como qualquer outra emoção, existe para ser considerada. Ficar zangado indica que o João se sente traído, magoado, vulgarizado, humilhado e enganado.

 

Se o João descobre que a Maria goza com o seu afecto e o ridiculariza, é natural que a odeie.

 

Se o João é raptado e torturado, é natural que sinta cólera, o que o poderá levar a encontrar a agressividade necessária para matar o criminoso em legítima defesa.

 

Penso que todos estamos de acordo relativamente à utilidade do aparecimento destas várias emoções nos exemplos apresentados.

 

Agora vamos imaginar que o João considera a tristeza, a zanga, a cólera, o ódio como emoções negativas e logo alvos do seu evitamento, e vamos imaginar alguns cenários possíveis:

Passado pouco tempo da partida de Maria, o João recebe a notícia que a sua irmã Teresa morreu. João não acede à tristeza e sem perceber como, começa a ficar súbita e “estranhamente” ansioso, zangado com a vida, perde a concentração e abusa no consumo de drogas de forma a tapar o “vazio que teimosamente se instalou”.

 

O João descobre que Maria o traiu, mas decide não se zangar. Como consequência, Maria poderá continuar a traí-lo e a humilhá-lo. Se o João não sentir legitimamente esta zanga também não poderá tomar decisões sobre se quer ou não continuar com a Maria.

 

Finalmente, vamos imaginar que o João não acede ao ódio e à cólera perante uma situação limite em que foi vítima de rapto e de agressividade física. Se o João não aceder a tais emoções poderá morrer nas mãos de um criminoso.

 

As emoções ditas negativas existem por algum motivo. Não são o “lado negro do ser humano”.

 

O mais importante é escutarmos sempre as nossas emoções e se o fizermos poderemos ter outro equilíbrio emocional.

 

Mas será que existem situações em que as emoções poderão ser consideradas negativas?

Existem situações em que poderão ocorrer estados de desregulação emocional. Estes estados ocorrem quando uma emoção não muda, apesar da variabilidade de contextos internos ou externos. A permanência destas emoções poderá conduzir a mal estar físico e psicológico, conferindo uma valência negativa às emoções.

 

Eis alguns exemplos: a tristeza recorrente e contínua, ou a zanga que parece não terminar, mesmo se o alvo da zanga possa já ter falecido. Aí sim, as emoções tornam-se negativas.

 

 

Concluindo,

o que confere uma valência negativa a uma emoção não é a emoção em si mesma, mas sim a sua estaticidade temporal, a sua continuidade e invariância, apesar da variabilidade de contextos quer internos, quer externos.

 

Se o João ficar sempre zangado mesmo após ter terminado a sua relação com a Maria, então essa zanga, pela sua durabilidade e ausência física própria de um contexto de manifestação, é negativa e prejudicial.

Já não é suposto estar zangado e se essa atitude assim se mantém, tal é sinal de desregulação emocional.

 

Se se sente continuamente invadido por uma emoção, deverá então procurar a ajuda profissional de um psicólogo clínico.

Pense nisso!

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publicado às 14:22

A Infidelidade e o Mito da Monogamia

por oficinadepsicologia, em 22.11.12

Autora: Catarina Mexia

 

Psicóloga Clínica

 

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Catarina Mexia

A infidelidade tem ramificações importantes no estudo do comportamento humano. Do ponto de vista estritamente reprodutivo, a poligamia seria o ideal — mais exatamente a "poliginia", ou seja, um homem para várias mulheres. Trata-se apenas de vantagens biológicas, na medida em que este tipo de comportamento aumenta a variabilidade genética, diminuindo a ocorrência de doenças geneticamente transmissíveis e tornando a humanidade mais adaptável a mudanças no ambiente.

 

Mas o Homem já evoluiu muito para além da mera biologia e hoje o comportamento é analisado como um todo, nomeadamente quando nos centramos na fidelidade nas relações amorosas. A ideia comum e vulgarmente aceite de que a monogamia é uma regra natural do casamento, ou de uma relação considerada não ocasional, é uma certeza que todos temos quando, durante a infância, adolescência e primeiros anos da vida adulta, imaginamos uma relação duradoura com alguém de quem gostamos. Aceitamos como uma certeza que o nosso casamento será monógamo. No entanto, a realidade é outra. Até há 20 anos quase todos os divórcios tinham como causa a infidelidade. Contudo, hoje em dia, a infidelidade não significa necessariamente o fim da relação.

 

Os motivos que levam a ter casos extraconjugais são mais complexos do que geralmente imaginamos. Quando existe uma satisfação plena dos cônjuges a nível sexual, as necessidades de cada um são valorizadas e atendidas, a monotonia consegue ser evitada, a cumplicidade, o respeito e o diálogo são uma constante. Muito provavelmente, este será um casal tendencialmente monógamo, pois existem diferentes formas de conceber a infidelidade consoante o género e as características de personalidade de cada um. É menos comum do que se imagina encontrar homens a viver casos extraconjugais que começaram simplesmente por não conseguir resistir a uma "tentação", arrastando esse caso por anos ou décadas e formando verdadeiras famílias paralelas.

 

Com as mulheres as coisas passam-se de forma diferente. Geralmente precisam de um motivo forte para terem relações extraconjugais e a vingança de uma traição, o alcoolismo incurável ou a solidão no casamento aparecem no topo das razões que as levam a sucumbir mais facilmente ao amor romântico, imaginando que essa relação paralela irá suprir todas as carências do seu casamento. Quase sempre se apaixonam.

 

O senso comum mostra-nos facilmente como homens e mulheres são diferentes no campo da monogamia, independentemente da época a que nos reportamos. Os homens classificam com maior frequência as suas relações extraconjugais como pouco importantes, na medida em que o sexo prevalece e não se estabelece uma relação de proximidade e afecto.

 

Por sua vez, as mulheres referem que as suas infidelidades não são um problema, porque envolvem um estado de paixão e, como tal, não se trata de atos de hostilidade com o sentido de prejudicar o parceiro.

 

É muito claro que diferentes pessoas atribuem diferentes valores à fidelidade e infidelidade. Estas ideias não são verdades absolutas e daí não poderem ser a única forma de olhar para o fenómeno. Ser infiel no passado não determina um comportamento semelhante para sempre, com qualquer parceiro ou tipo de envolvimento. Mas há outros mitos.

 

Mito um: todas as pessoas são infiéis.

 

Trata-se de um comportamento natural e previsível. Dados estatísticos sobre a frequência da infidelidade, no entanto, mostram que cerca de metade das pessoas se envolvem em relações de infidelidade.

 

Tradicionalmente, este era um comportamento mais característico dos homens, mas atualmente-te as mulheres estão em situação de igualdade. A geração de mulheres mais novas tende a ser mais infiel do que as gerações anteriores. Muitas razões podem ser apontadas para esta mudança de comportamento, mas a ascensão económica e social, com a consequente autonomia financeira e pessoal, permite-lhes fazer escolhas que não as prendem ao medo de perder o casamento.

No entanto, a fidelidade conjugal continua a ser a norma, na medida em que a maior parte dos parceiros é fiel.

 

Mito dois: a infidelidade faz bem ao casal.

 

Não totalmente. Um affair pode fazer reviver um casamento monótono — aliás, este é um relato comum de muitos casais que me procuram após terem conhecimento de uma relação extraconjugal. Esta ideia parece assentar na convicção de que um casamento é forçosamente uma situação monótona, indutora de desinteresse e frágil. Se uma situação de crise, como uma relação extraconjugal, pode ajudar o casal a rever a sua relação, resolvendo problemas antigos e enquistados, a infidelidade pode ser a crise mais perigosa, pois atinge os parceiros naquilo que é mais difícil, mas não impossível, que é reconquistar a relação de confiança.

 

Mito três: quem é infiel não ama o parceiro.

 

As razões para o aparecimento de uma terceira pessoa na relação são variadas. A maioria relaciona-se diretamente com a satisfação de autoestima do que com as consequências diretas do estilo de relação no casamento. Não é invulgar a descrição de uma relação estável e gratificante no casamento (mesmo a nível sexual) e, ainda assim, o elemento infiel afirmar que, por natureza, precisava de outra pessoa para equilibrar a sua maneira de ser.

 

Mito quatro: o novo companheiro é mais sexy.

 

Sim e não! Depende do que o parceiro infiel procura na relação extraconjugal e do estilo de pessoa que é. Este mito decorre de uma realidade que existe e que é influenciada pelos valores transmitidos, por exemplo, pela publicidade, pelas novelas, etc. Mas também é verdade que o homem procura desde sempre a eterna juventude e, não podendo consegui-la para si, fá-lo através do contacto com quem a tem.

 

Por outro lado, a possibilidade de conseguir através do parceiro da relação de infidelidade algo que levaria muito anos a conquistar por si próprio (poder, prestigio social, segurança económica), faz com que a pessoa eleita seja mais velha. No que respeita ao sexo, muitas vezes o parceiro infiel reconhece que a relação sexual é globalmente mais gratificante em casa. A razão está muitas vezes relacionada com algo que só se consegue estabelecer numa relação de longo prazo.

 

Mito cinco: a culpa da infidelidade é do outro.

 

A crença verbalizada de que foi o marido ou a mulher que empurraram o companheiro para a situação de infidelidade é geralmente aceite pelos dois. Se a situação parece duplamente absurda, pois ninguém obriga o outro a fazer aquilo que não quer, a verdade é que nela reside a ideia de que o casamento "terminou" no dia em que decidiram casar. Ou seja, a partir do momento em que dão o nó, ambos os elementos do casal não acham necessária criatividade nem conquista entre os dois. Vêm na sua relação um processo que tem como objetivo a manutenção de uma situação descrita pela palavra "casamento".

 

Mito seis: esconder a verdade evita a crise.

 

Não é uma forma eficaz de lidar com a situação. No entanto, o momento de partilhar a informação de uma relação extraconjugal não deve decorrer de forma precipitada. Esconder a verdade produz uma enorme sensação de destruição. A incapacidade de partilhar informação pode provocar sentimentos altamente destrutivos relacionados com a culpa e a desconfiança e conduzir a comportamentos ainda mais negativos para lidar com a situação. Quando confrontados com uma relação extraconjugal, a abordagem da situação deve ser marcada pela tentativa de compreensão e não culpabilização do contexto.

 

Assim, antes de confrontar o outro, devemos trabalhar os nossos sentimentos, tentando ganhar força para lidar com o que possa resultar. A ajuda de um profissional, como um terapeuta familiar, pode ser útil para levar a tarefa a "bom porto".

 

Mito sete: a única saída é o divórcio.

 

Não necessariamente. Ultrapassar a situação da infidelidade relaciona-se com o tipo de personalidade de quem está envolvido. Geralmente, um casal em terapia não se divorcia em consequência direta da relação extraconjugal. Se o divórcio acontece, muitas vezes é porque aceitar falar da crise remete o casal para problemas preexistentes que constituem a verdadeira razão para a separação.

 

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publicado às 13:50

Ansiedade e Morte

por oficinadepsicologia, em 21.11.12

Autor: André Viegas

 

Psicólogo Clínico

 

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André Viegas

A morte faz parte da nossa vida, é universal e experienciada por todos, podendo acarretar consequências psicológicas, nomeadamente ansiedade face à morte, que poderão ter repercussões no bem-estar global do indivíduo.

 

Nos dias atuais, a morte não é encarada unicamente como um fenómeno instantâneo. Trata-se de um verdadeiro processo biológico e psicossocial, em que um grande número de atos vitais se extinguem numa sequência tão gradual e saliente que escapa geralmente à simples observação, suscitando na maioria das pessoas intensas emoções (Castedo & Santos, 2008).

 

Sabendo que o medo da morte coexiste com o ser humano desde muito cedo, também a ciência psicológica se tem interessado nas últimas décadas sobre o tema, na medida em que há um influenciar de todas as dimensões humanas. A título de exemplo, pode referir-se que fenómenos como o suicídio, o aborto, a eutanásia/distanásia, o luto, a solidão, determinadas doenças (e.g. HIV/SIDA, cancro, depressão, entre outras), encontram, não poucas vezes, alguma configuração que sublinha um posicionamento perante a morte e o morrer, uma vez que lhes subjaz, de alguma forma, uma experiência de perda.

 

Sendo a ansiedade um estado emocional que provém de um medo que é real ou imaginado, é conveniente o devolver da naturalidade do sentir medo e ansiedade face à morte, tendo em conta que o ser humano tem a capacidade cognitiva de se aperceber da inevitabilidade da mesma e de recear o que poderá vir após a morte.

 

Na maioria dos casos, essa capacidade cognitiva evoca imagens negativas e perturbadoras que evocam sentimentos de medo e ansiedade (Rebelo, 2004 cit in Campelos, 2006), ultrapassando por vezes a barreira do razoável para quem os sente. Defina-se ansiedade face à morte como uma reacção emocional resultante da percepção de sinais de perigos ou ameaça (reais ou imaginárias) à própria existência, que podem desencadear-se perante estímulos ambientais (e.g. doença grave ou ver um cadáver), estímulos situacionais que por associação com os anteriores ficam condicionados e são capazes de provocar uma resposta emocional condicionada; assim como pensamentos ou imagens relacionadas com a própria morte ou a morte alheia (Limonero, 1997).

 

Segundo Wong (1995; 1998; 2000), os motivos que podem despoletar este tipo de ansiedade são: a finalidade da própria morte; a incerteza de não saber o que acontece depois da morte; medo de deixar de existir; medo da dor envolvida no morrer; medo da solidão e medo da não finalização dos projectos de vida traçados. Assim, elevados níveis de ansiedade face à morte podem chegar a incapacitar a pessoa para o desenvolvimento de uma vida normal (Limonero, 1997), de forma semelhante ao que acontece quando uma pessoa sofre de níveis elevados de ansiedade geral (Miguel-Tobal & Casado, 1999).

 

Quando elevados níveis de ansiedade face à morte comprometem o quotidiano do indivíduo, o encontro psicoterapêutico é fundamental na medida em que facilita a compreensão destes fenómenos internos e mune o cliente de estratégias para lidar com os eventuais estímulos externos desencadeantes.

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publicado às 13:59

Expressão de Emoções e Necessidades em Casal

por oficinadepsicologia, em 18.11.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

 

Psicóloga Clínica

 

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Joana Fojo Ferreira

 

Amamo-nos muito mas não funciona, não nos conseguimos entender!

 

As relações íntimas de casal são uma área particularmente importante das nossas vidas, mas apesar de as desejarmos muito e de tendermos a sentir-nos incompletos, não totalmente realizados sem elas, a realidade é que gerir a relação não é fácil e mesmo havendo amor, nem sempre a relação flui; às vezes parece não funcionar.

 

O que é que acontece? Apesar de numa relação termos à partida um objectivo comum (alimentar a relação, mantê-la viva e saudável), não deixa de ser verdade que temos duas pessoas na equação, muitas vezes com registos de funcionamento diferentes, cujo contraste pode criar choque e este choque, prolongado no tempo, cria padrões de interacção desadequados com uma escalada de frustração, agressividade e/ou afastamento.

 

Quando dentro destes ciclos desadequados de interacção, as dificuldades são duas:

 

Primeiro é muitas vezes difícil para cada elemento do casal aceder ao que está a sentir. Começa-se a funcionar em modo automático, em que atacamos o outro e nos defendemos dos ataques do outro, sem conseguir parar para pensar "o que é que está a acontecer comigo, dentro de mim, o que é que eu estou a sentir que faz com que eu haja desta forma agressiva ou, pelo contrário, demasiado distanciada"?

 

Segundo é muito difícil partilhar de forma adequada o que se está a sentir e o que precisaríamos do outro, da relação, e tendemos a ser críticos e culpabilizantes do outro, apontar-lhe o dedo, crê-lo intencionalmente agressivo ou negligente, mais do que verdadeiramente expressarmos as nossas vulnerabilidades, as nossas angústias, as nossas emoções, as nossas necessidades.

 

No sentido de tentar quebrar estes ciclos e de tanto aceder como expressar emoções e necessidades em casal, sugiro o seguinte exercício[1]:

Numa folha de papel desenhe um esquema, uma tabela, em que coloca 6 colunas com os seguintes títulos sequencialmente: Situação, Reacção emocional, Reacção comportamental, Emoção de base, Necessidade geral, Necessidade específica. E comece a preencher. Como? Pense: Quando tu… (situação), eu sinto-me… (reacção emocional), e reajo… (reacção comportamental). Isto esconde o meu/a minha… (emoção de base). O que eu realmente preciso é… (necessidade geral) e portanto preciso… (necessidade específica).

 

Deixo um exemplo: Quando tu chegas tarde, eu sinto-me zangada e reajo criticando-te. Isto esconde a minha ansiedade e sentimento de rejeição. O que eu preciso realmente é sentir que sou importante para ti, e portanto preciso que tu me ligues a avisar que vais chegar mais tarde.

 

Desta forma, a nossa activação emocional tende a baixar e a receptividade do outro à nossa necessidade tende a aumentar. É como se encontrássemos aqui um ponto de equilíbrio em que conseguimos comunicar um com outro, cria-se um espaço para ouvir e ser ouvido.

 


[1] do livro Emotion-focused couples therapy: The dynamics of emotion, love, and power de Greenberg & Goldman (2008)

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publicado às 20:34

Psicoterapia na Promoção de Bem-Estar Espiritual?

por oficinadepsicologia, em 16.11.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

 

Psicólogo Clínico

 

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Pedro Diniz Rodrigues

Para falarmos em saúde espiritual ou bem-estar espiritual, precisaríamos primeiro considerar o termo espiritualidade. Seria difícil definir em nós o grau mais ou menos elevado de algo, que não sabemos exactamente o que é.

 

Ao reflectirmos sobre este tema na nossa vida, rapidamente nos deparamos com a dificuldade de estar a tentar definir ou avaliar aquilo que por natureza não parece estar acessível a uma análise lógica e objectiva.

 

Estamos afinal, a falar de algo que é habitualmente proclamado como incompreensível, por transcender a razão humana, uma das principais ferramentas que utilizamos para dar sentido à realidade que nos rodeia.

 

Como definir então a espiritualidade ou avaliar o grau de bem-estar espiritual?

 

Partindo do princípio que tal tarefa seria possível, como iriamos relacionar psicoterapia com o aumento de bem-estar espiritual?

 

Na literatura sobre este assunto, existem vários estudos que se debruçam na definição e avaliação de espiritualidade e saúde espiritual, e em saber quais os factores que ajudam no seu desenvolvimento.

 

Algumas das definições propostas parecem ter em comum o facto de assentarem numa definição multidimensional da nossa vida.

 

A espiritualidade é assim conotada como uma dimensão fundamental para a saúde e bem-estar globais, na qual estariam incluídas todas as outras dimensões de saúde, nomeadamente, a saúde física, mental, emocional, social e vocacional. É como se de alguma forma, fossem circunscritas por esta dimensão mais abrangente.

 

Com contornos em parte semelhantes, outros modelos criados propõem a existência de domínios, que se debruçam em aspectos como a nossa relação connosco mesmos e a consciência pessoal que daí advém, e que se reflecte na auto-estima, identidade e sentido da vida. Consideram também a qualidade e profundidade das relações que estabelecemos, bem como as expectativas que temos em relação às mesmas. Num outro domínio desta mesma dimensão (espiritual), é também tida em conta a percepção que possamos ter do mundo físico, que poderá ir desde o simples respeito a um profundo sentimento de admiração ou mesmo união com o universo. Num plano mais global, também é contemplado o possível relacionamento que possamos estabelecer com alguma entidade para lá do nível humano, ou a nossa atracção pelo desconhecido no Universo, não deixando de salientar  que o maior ou menor destaque dado a cada um destes aspectos, está dependente das ideias ou valores pessoais e culturais que temos interiorizados.

 

O bem-estar espiritual, tal como qualquer outra dimensão da nossa vida, não é, portanto, encarado como estanque, mas sim como modificável à medida que vamos sendo confrontados com os vários desafios que ela nos coloca.

 

A nossa saúde espiritual seria então o efeito combinado do bem-estar em cada uma das dimensões mencionadas, bem como o grau da harmonia entre as mesmas. A sua melhoria seria, por sua vez, potenciada, por relações mais positivas em cada domínio e pelo aumento da aceitação de novos domínios na nossa vida.

 

Assim sendo, se considerarmos que o contexto psicoterapêutico exerce influência em factores como o aumento da consciência, aceitação e harmonia, entre muitos aspectos da nossa saúde global, nomeadamente a visão de nós mesmos, auto-estima, identidade, qualidade ocupacional, relacional e visão do mundo, poderíamos lançar a hipótese de que estamos na presença de um veículo privilegiado de manutenção e aumento de bem-estar espiritual.

 

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publicado às 11:20

Ansiosos Anónimos

por oficinadepsicologia, em 14.11.12

Autora: Fabiana Andrade

 

Psicóloga Clínica

 

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Fabiana Andrade

Já sentiu que a sua cabeça não pára de pensar mesmo quando não lhe apetece pensar em nada?

Já reparou que seus pensamentos andam constantemente pelo passado e pelo futuro? Reparou que esses pensamentos muitas vezes começam com “e se…” e nunca têm resposta, ou têm 1000 respostas?

Sente dificuldades em tomar decisões? Em concentrar-se? Sente a cabeça constantemente cheia ou então uma “névoa”? Sente dificuldades em lembrar-se de coisas?

 

Então, bem-vindo ao clube dos Ansiosos Anónimos!

 

Muitas vezes associamos a ansiedade a sintomas como palpitações, transpiração, tremores, aperto no peito entre outros, mas a ansiedade não é apenas composta por sintomas. Muitas pessoas “aprenderam” a funcionar dentro de uma estrutura ansiosa, que caracteriza-se por uma insegurança básica, dificuldade em estar no presente e falta de poder sobre a sua própria vida.

 

Aqui fica então o relato de uma ansiosa anónima, que está “limpa” de ansiedade há três anos.

 

“ O meu nome é Maria e deixei de ser ansiosa há três anos. Não sabia que era ansiosa, simplesmente sentia dificuldades em concentrar-me, sentia que a minha vida estava estagnada, tinha muitas dificuldades em tomar decisões, principalmente aquelas que implicavam ter de me arriscar. Só conseguia decidir quando tinha certeza absoluta de estar certa ou da situação dar certo, o que era raro, obviamente.

Dei por mim a passar mais tempo na minha cabeça, a fantasiar com a vida que queria ter. Sentia como um ruído constante que não conseguia parar, dentro da minha cabeça, e por vezes era mesmo eu que não queria que ele parasse.

 

Nunca tive ataques de pânico, mas por vezes sentia sintomas de ansiedade como apertos no peito.

 

Sentia bastante medo de algumas coisas, como morrer, não ter um namorado, não casar ou ter filhos e não ser bem-sucedida no trabalho. Quando pensava nisso era horrível e nestes momentos apetecia-me fantasiar. Fantasiava comigo de braço dado ao meu marido, com um filho no colo, numa ótima casa etc.

 

Dei por mim a ter menos rendimento no trabalho, pois cada vez era mais difícil concentrar-me. Não gostava do que fazia, era comercial numa empresa telefónica, e isso não facilitava nada a concentração. No entanto, sabia que era difícil arranjar trabalho na minha área, recursos humanos, e por isso também não arriscava sair do meu trabalho.

 

O ambiente no escritório cada vez estava pior e eu sentia-me cada vez mais sem energia, ao mesmo tempo sem coragem de sair.

O meu pensamento passou a correr como um TGV! E se eu sair o que me acontece? E se eu não conseguir arranjar trabalho? E se o próximo trabalho for pior? Eu não devia estar a queixar-me, com tanta gente desempregada, sou mesmo uma ingrata!

 

Todos os dias era um custo sair da cama, e já nada me apetecia fazer. Sentia-me constantemente cansada e apática, sem forças. E foi aqui que uma amiga indicou-me a psicoterapia.

 

Inicialmente não sabia o que lá ia fazer, mas consegui relatar à terapeuta o que sentia. Comecei a perceber como funciona então a estrutura ansiosa:

- Em primeiro lugar começa sobre uma base de grande insegurança. Nunca confiei em mim, nunca me senti válida ou capaz de transformar a minha vida naquilo que eu queria. No meu caso tive pais super- protetores,  tiveram-me já mais velhos e estavam constantemente com medo de tudo. Interiorizei que era frágil e que precisava dos outros para me protegerem.

A terapeuta explicou-me que nem sempre é assim, por vezes a estrutura familiar é diferente, mas no fim, o que a criança sempre aprende é que de alguma forma não é forte ou capaz.

 

Essa base de insegurança faz com que eu tenha crenças negativas sobre mim, por exemplo, não sou capaz de arranjar um emprego que goste, não sou capaz de fazer com que as coisas tenham resultado, não mereço que um homem bom goste de mim, etc.

Comecei a escrever um diário com as observações que fazia no meu corpo, na minha emoção e no meu pensamento. Cada vez que observasse o pensamento a criticar-me ou a começar com “e se”, interrompia e respirava.

 

Tomar consciência disso foi muito duro, mas foi a melhor coisa que me aconteceu. Vi que eu mesma boicotava uma série de situações pois não acreditava em mim. Eu enviava um currículo na minha área, mas nem sequer ligava para saber se o haviam recebido pois o meu pensamento dizia algo como “nem vale a pena, senão te ligaram é porque não gostaram do teu cv”. Nunca investi em passar uma imagem motivada, confiante, para as empresas que contactava pois não acreditava que iriam ter interesse em mim.

 

No que toca a relações nem se fala! Só gostava de pessoas que mostravam estar indisponíveis desde o início. Davam todas as indicações disso mas eu investia na mesma. Depois ficava de rastos a pensar, “és mesmo desinteressante, não vale a pena”.

 

Fiz com a terapeuta um exercício chamado de cadeira vazia. Em que eu falava com a voz crítica dentro de mim. Muito estranho mas muito forte! No início senti-me embaraçada, mas sem que eu desse conta, estava numa cadeira a falar com essa voz, que estava noutra cadeira. E foi claríssimo o quanto eu me criticava e deitava abaixo. Nesse exercício fui capaz de tomar clara consciência dessa voz dentro de mim e também de me zangar com ela, de exigir que ela desaparecesse pois só me atrapalhava.

 

A partir desse dia, cada vez que percebia que me estava a criticar ou boicotar, parava e respirava, outra coisa que aprendi nas sessões. Observava o que estava a acontecer no presente. Esse exercício ajudou-me a começar a calar o ruído constante na minha cabeça.

Depois de perceber que funcionava assim, entendi que meu pensamento sempre andava para trás e para a frente, tentando antecipar situações que eu pudesse controlar. Isso tudo pois estava sempre insegura!

 

Percebi que não adiantava nada tentar controlar nada e que a energia que eu gastava era para o lixo. Comecei então a estar cada vez mais no presente, fiz desporto, meditação, relaxamento, li vários livros sobre esse tema e cada vez me sentia mais forte.

Comecei a ouvir o corpo, e não só o pensamento, na hora de tomar decisões. Comecei a reparar quando estava com medo e a não confiar em mim, e quando estava simplesmente a viver o presente e a sentir amor por mim.

 

Tudo começou a ser mais fácil na minha vida e eu passei a sentir-me mais leve e positiva.

 

Iniciei uma procura feroz de emprego na minha área, com o pensamento de base: sou capaz e mereço! Sentia-me mais criativa para preparar apresentações diferentes sobre mim para cada empresa. Como me sentia focada em procurar o que gostasse de fazer, o dia-a-dia no escritório tornou-se mais leve, pois sabia que estava lá temporariamente. Passei a olhar para este trabalho como um instrumento e como uma experiência, da qual eu queria tirar o melhor proveito. Aprendi o que conseguia nesta fase, fiz o melhor que podia para sair dali de cabeça erguida e orgulho de mim, com a sensação de ter tido uma experiência válida na minha vida. Foi isso mesmo que aconteceu, até hoje ainda os visito para um café de vez em quando.

 

Passado um ano do início da minha busca, consegui um trabalho numa empresa conceituada. Comecei como estagiária e agora já estou há um ano como efetiva. Todos os dias quando acordo, olho para o meu momento presente, agradeço por tudo e comprometo-me comigo mesma a fazer o melhor para transformar o meu presente no melhor para mim.

Essa espécie de meditação diária dá-me forças e foco constante. Passei a ter espaço mental, a ter mais concentração e memória, a sentir-me mais produtiva e feliz.

 

Tudo isso dá trabalho mas é um investimento seguro em mim mesma!

 

Ainda estou solteira mas pela primeira vez na minha vida isso não me perturba ou me preocupa. Sinto-me merecedora de amor, e por isso  trato-me com amor todos os dias e todos à minha volta também. Saio, divirto-me e tenho relações afetivas importantes.

 

Olhar para a minha voz critica, conhece-la e eliminá-la, viver no presente, manter uma consciência constante do meu corpo, da minha emoção e do meu pensamento, comprometer-me comigo e responsabilizar-me pela minha vida, foram as lições que aprendi na minha terapia e foram as ferramentas para eliminar a minha ansiedade.

 

Partilho hoje com todos os ansiosos anónimos a minha experiência de sucesso, para que se quiserem, possam tirar daqui a força necessária para o vosso próprio percurso!

Boa sorte a todos,

Maria”

 

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publicado às 15:18

Os pais e os filhos – Os seus afastamentos e reencontros

por oficinadepsicologia, em 07.11.12

Autor: António Norton

 

Psicólogo Clínico

 

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António Norton

 

Quando era adolescente ouvi um célebre raciocínio que desde então, de alguma forma, me acompanha e que contém uma sabedoria inquestionável. Esta frase sintetiza de uma forma engenhosa, divertida e sábia como é que os filhos percepcionam os pais à medida que vão crescendo. Vou procurar sintetizar este raciocínio.

        

Entre os 0 e a entrada na pré-adolescência (11-12 anos) os pais são vistos como pessoas que sabem tudo. São as fontes de conhecimento máximas.

 

Entre os 12 e os 15 anos - da pré-adolescência até meados da adolescência – Os pais afinal não sabem tudo!

O seu conhecimento é posto em causa. O adolescente entra na fase de se questionar sobre o seu próprio questionar, entra na fase existencial de pôr tudo em causa, sente um grande distanciamento e uma contra-dentificação com a mundivisão e o estilo de vida dos seus pais.

        

Entre os 15 e os 25 anos – Os pais afinal não sabem nada de nada!

Os pais são vistos como uns caretas, desadequados e descontextualizados, completamente ultrapassados, são apelidados de “cotas” ou de “os meus velhos”. As suas opiniões são pouco tidas em consideração.

        

Entre os 25 e os 35 anos- Os pais afinal até sabem umas coisas!

Para muitos, esta fase corresponde à  emancipação, corresponde à vida fora da casa onde sempre viveram, ao assumir responsabilidades, pagar a renda da casa, a água, a luz, é preciso fazer compras, cozinhar e então a opinião e os conhecimentos dos pais são tidos em maior consideração. Também, esta fase corresponde ao assumir da paternidade ou maternidade. Os pais, os seus conselhos e a sua experiência ganham nova importância e pertinência.

        

Entre os 35 e os 45- Os pais afinal até sabem bastante!

Esta é a fase em que, muitas vezes, os jovens pais se deparam com problemas de comportamento por parte dos seus filhos e em que se apercebem de quão difícil é educar... O paralelismo e a empatia pela experiência dos seus pais ganha outra dimensão.

        

Dos 45 em diante – Os pais afinal sabiam tudo!

Fase em que muitas vezes os pais já faleceram e em que os adultos, finalmente, se apercebem da enorme sabedoria que os seus pais encerravam.

 

E que tal pensar sobre a Psicologia que encerra este texto?

 

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publicado às 09:18

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