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DEpressão? Ou talvez não?

por oficinadepsicologia, em 20.03.10

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

 

Como vimos em posts anteriores, estar deprimido é algo que cada vez mais frequentemente utilizamos para descrever o nosso estado de tristeza. A depressão é, cada vez mais, vista como o flagelo das sociedades modernas, adquirindo recentemente, e de forma meteórica, o estatuto da constipação da saúde mental, pela sua frequência na nossa população. É amplamente reconhecido pela comunidade psi (profissionais de saúde mental) que a utilização deste termo como rótulo ou descritivo é, de um modo geral, abusiva na forma como as pessoas a utilizam. Surpreendente para muitos será a recente demonstração científica de que este uso abusivo do diagnóstico de depressão estará presente, também, na comunidade de profissionais de saúde mental.

 

Para fazer o diagnóstico de perturbações psicológicas, a maioria destes profissionais apoia-se no DSM-IV TR, o manual psiquiátrico que contém os critérios de diagnóstico para as perturbações psicológicas e psiquiátricas. Quando um cliente reúne um determinado conjunto de critérios, estão criadas as condições para a atribuição de um dado diagnóstico. Embora para algumas perturbações estes critérios sejam considerados por vários profissionais como ambíguos, ou pouco claros, os critérios diagnósticos para a depressão têm encontrado pouca oposição fundamentada cientificamente.

 

Uma investigação conduzida recentemente na Universidade de Nova Iorque veio dar credibilidade a uma corrente de opinião no seio da Psicologia e Psiquiatria que defende que os critérios do DSM-IV TR para a depressão conduzem a demasiados diagnósticos falsos-positivos. Na opinião deste grupo de autores, os critérios do DSM-IV TR estarão elaborados de uma forma insuficientemente específica, o que leva a que que estados normais de tristeza como consequência de perdas na vida (ex. viuvez, desemprego, divórcio) sejam diagnosticados de forma errónea como depressão major.

 

Face a estas críticas, os autores do DSM-IV TR incluíram um conjunto de critérios críticos de diagnóstico para a depressão  que, pretendia-se, reduziriam significativamente o número de diagnósticos falso-positivos. O que a investigação recente conduzida na Universidade de Nova Iorque veio demonstrar foi que, na verdade, a presença destes critérios críticos em pouco ou nada veio alterar o número de diagnósticos errados: antes de serem implementados estes critérios, os diagnósticos falsos-positivos rondavam os 30%; depois da sua implementação, cerca de 95% destes diagnósticos falsos-positivos continuavam a ser feitos .

Estes resultados têm claras implicações para os intervenientes no contexto da saúde mental: para os profissionais, implica uma reflexão cuidada acerca da forma como diagnosticam e tratam casos de depressão; para o Estado implica uma reflexão sobre o valor anual que se despende em comparticipação de psicofármacos anti-depressivos potencialmente desnecessários.

 

Acima de tudo, para os utentes do Serviço Nacional de Saúde, e de serviços de Psicologia e Psiquiatria privados, convida a alguma precaução na forma como “compramos” os diagnósticos: muitas vezes levamo-los para casa como rótulos que dificilmente descolamos de nós, chegando a falar de nós próprios como pessoas “depressivas”.

 

Nos dias que correm, parece ser uma tendência crescente esquecermo-nos de saber estar tristes. Foi um estado que se demonizou, como se qualquer tipo de tristeza implicasse perturbação mental. Pelo contrário, a capacidade de estar triste é o que existe de mais natural e normal na nossa natureza; fomos dotados desta capacidade como forma de processar as experiências dolorosas. A capacidade de sentir tristeza não é um sinal de depressão. Pelo contrário, muitas vezes, é a incapacidade de a sentir que nos conduz à depressão! Por isso, estejamos tristes quando for caso disso, para noutras alturas podermos estar alegres!

 

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publicado às 13:10



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