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Apoio na doença

por oficinadepsicologia, em 11.04.10

Email recebido

(editado para manter confidencialidade)

 

Boa tarde,

No Verão passado, em plenas férias com os nossos 2 filhos, comecei a notar o meu marido muito ausente, com dificuldades de raciocínio, só queria dormir... Depois de no Hospital terem dito que ele não tinha nada, viemos para Lisboa e em S. José ele não soube dizer a idade dos filhos, nem fazer contas simples... Depois de internado uma semana foi-lhe diagnosticada uma doença muito rara que provoca lesões cerebrais e que também afecta a visão e a audição. Depois de 2 internamentos hoje está muito bem. Eu ainda lhe noto muitas diferenças e alguns problemas no raciocínio, mas quem não souber nem se apercebe. A razão que me levou a escrever é que, devido á medicação e à própria doença, o rendimento físico do meu marido nunca mais voltou ao que era. E para ele que toda a vida praticou desporto de competição, isso tem sido muito dificil de ultrapassar. Todos os dias falamos na doença, todos os dias ele se queixa que nunca mais há-de jogar... Mesmo assim já está muito melhor, antes nem conseguia treinar. Agora faz o treino com os colegas, mas está longe de ser o jogador que foi. Já não se sente tão cansado, mas tem pouca força. Há cerca de um mês que toma uns comprimidos de produtos naturais, próprios para dar energia aos desportistas, mas também não tem resultado... Tenho de lhe dar uma apoio imenso, dia após dia, mas ás vezes já não sei o que lhe dizer... Pensei em levá-lo a uma consulta de psicologia para o ajudar a lidar melhor com a doença, mas ele recusou. O meu filho mais velho, de 7 anos já está a ser seguido há algum tempo, ele sofreu muito... E só eu sei a falta que a mim me faz também, mas o dinheiro não dá para tudo... Será que me podem dar umas dicas para o tentar ajudar a ultrapassar? Enquanto ele não o fizer eu também não consigo e cada vez tenho menos forças... Obrigado.

 

Resposta

 

Cara S.,

Existem acontecimentos na vida que têm a capacidade de nos transformar; uma doença como a que descreve, sobretudo quando existem consequências residuais que obrigam a adaptações ao que sempre fomos capazes de fazer, é angustiante e obriga a reflexões profundas, sobre quem somos e queremos ser, sobre como pretendemos inscrever-nos na vida e sobre as nossas noções intuídas de intemporalidade. Este processo de revisão e preparação para um futuro cuja diferença nos contraria obriga a tempo e leva a flutuações emocionais e à presença de emoções negativas como, por exemplo, o desespero, a angústia, a tristeza, o pessimismo. Se o seu marido recusa o acompanhamento psicológico, que poderia ajudar muito na rapidez deste processo, há que encontrar a capacidade de deixar que a adaptação se faça no tempo, apoiando-o, como tem vindo a fazer, com tolerância e carinho.

É duro viver ao lado de alguém que passa por uma situação destas, por ser, essencialmente, um processo interno do outro, que tem de encontrar um caminho, sem que haja muito que uma pessoa, que não é profissional de saúde mental, possa fazer para contribuir. Pede-nos sugestões quanto à melhor forma de lidar com esta situação e, no entanto, assim à distância, reconhecemos a nossa limitação em conseguir oferecer-lhe acções concretas; correndo o risco de lhe darmos dicas tão genéricas que lhe possam ser pouco úteis, aqui ficam alguns pensamentos:

  1. Diz que falam sobre a doença todos os dias; tente não iniciar essas conversas e, quando o seu marido o faz, escute-o com compreensão e inclua no vosso diálogo perspectivas mais optimistas. Se ele falar do que perdeu, por exemplo, vá recordando-o do que manteve e do que ainda é possível; ajude-o a manter uma perspectiva correcta - ele manteve a normalidade de vida, certo? É pai, marido, pratica o seu desporto, terá o seu espaço com os amigos e, provavelmente, trabalha.
  2. Não deixe que a vossa vida gire em torno da doença; seguramente que a vossa vida familiar e individual é suficientemente diversificada e rica para poder ter muitos focos de interesse em torno dos quais se possa ir (re)construindo.
  3. Deixe que aquilo que pensam e sentem ao longo do tempo vá estruturando o vosso bem-estar. Esta é uma situação que exige tempo e, portanto, paciência - lembre-se que, para chegarmos a um destino, temos de saber acomodar a viagem.
  4. Procure o bom-humor. Saber sorrir na adversidade exige treino continuado e tem a enorme vantagem de permitir o distanciamento suficiente para que a vida não doa tanto.
  5. Cuide de si. Pelo que lemos, tem cuidado do seu filho e do seu marido, mas não vi indícios de que estaria a cuidar carinhosamente do seu próprio bem-estar. Quando sofre quem nós amamos, também nós sofremos... Seja gentil consigo e tente encontrar momentos de bem-estar na sua vida.

Ficamos à disposição para o que pudermos ajudar, faendo votos para que a vossa vida retome um equilíbrio o mais rapidamente possível.

Um abraço solidário,

Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

 

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publicado às 14:48



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