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O stress das férias

por oficinadepsicologia, em 25.06.10

Autora: Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

 

 

Quando me detenho um pouco a pensar sobre o assunto, sou forçada a admitir que as férias são, muitas vezes, um mau negócio…

 

 

Desde logo, com a chegada do calor, disparam as queixas em consultório – talvez porque o calor obrigue o organismo a reagir de uma forma que copia muito da sintomatologia ansiosa ou apenas porque nos faz lembrar a impaciência com que esgotamos as últimas reservas de energia para as tão aguardadas férias.

 

Depois, e aguentando-nos à custa de muito sonho e fantasia com aquelas semanas que magicamente acreditamos tudo irem consertar, lá chega o dia das malas feitas, óculos escuros a postos e rumamos ao nosso paraíso desse ano, no nosso melhor estilo veraneante. E aqui, também, muitas vezes, as coisas correm mal, no embate com a realidade que, antes de nos relaxar, cobra mais uma factura de re-ajuste ao nosso organismo. Férias, sim, mas não é por isso que não deixam de ser uma fonte de stress, por implicarem na necessidade de nos adaptarmos: ao novo ritmo de sono e de alimentação, à mudança de local, ao convívio condensado com quem nos desabituámos de lidar na correria dos dias em que sobra stress e faltam horas, no confronto com expectativas sociais que idealizam capacidades relacionais e exigem físicos de excepção. Estou a exagerar? Então porque é que os psicólogos são tão solicitados no Verão, incluindo Agosto?

 

 

E, depois, a vida impõe-se, interrompendo sem cerimónias o tempo que fingíamos que podia ser eterno (“logo agora que eu começava mesmo a sentir-me de férias…”), com um toque de despertador que insiste sadicamente em recordar-nos que existem chefes, clientes, contrariedades e caixas de e-mail que ameaçam rebentar.

 

Enquanto que o stress do “antes” e do “durante” das férias nos consola com promessas de descanso, acomodando-nos o mal-estar, o “depois” tem a aridez e impiedade de um “até para o ano”, deixando-nos pouca margem de manobra para afogar o mal-estar. Nesta fase, ao stress de re-adaptação do organismo às rotinas de sempre, mas esquecidas durante uns tempos, e a um nível de aceleração que, hoje em dia, já se situa no ultra-mega distante de qualquer definição de descanso, soma-se a tristeza da perda de qualidade de vida que vislumbrámos. Num estudo recente, algures no mundo, 60% dos profissionais inquiridos reportou dificuldades em retomar o trabalho após as férias e apenas 25% considerou sentir-se refrescado após o descanso e entusiástico àcerca do recomeço – de tal forma que um terço começa a considerar a possibilidade de novos projectos. No pós-férias, o stress é a melodia mais habitual….

 

De facto, as férias podem ser um mau negócio… Mas todos as queremos gozar, certo? Por isso, o melhor é minorar eventuais estragos e é nesse sentido que lhe oferecemos as nossas dicas para umas férias em beleza.

 

As férias

 

  • Evite as desacelerações bruscas, porque exigem um maior esforço do organismo. Se puder, comece a criar espaços de maior tranquilidade na semana anterior às férias; além disso, planeie para os primeiros dias uma rotina um pouco mais acelerada, para dar tempo ao organismo de “entrar no descanso” de uma forma faseada e gradual.
  • Mantenha-se activo antes e durante as férias. O exercício cardiovascular regular liberta químicos no organismo que são poderosos tranquilizantes, pelo que é especialmente importante em fases de stress acrescido não descurar este aspecto. E não precisa de encontrar ginásios e personal trainers para poder beneficiar disto, se não tiver contexto para o fazer: uma caminhada de 30 minutos em marcha mais acelerada, nadar ou aproveitar as noites quentes para ir dançar são bons exemplos de exercício cardiovascular, ao alcance de todos. Curiosamente, também muitas das tarefas domésticas representam um bom exercício cardiovascular: à falta de melhor, console-se com a ideia de que aquelas arrumações que puxam mais pelo corpo estão a contribuir para a sua forma física e bem-estar emocional…
  • Considere a possibilidade de incluir na sua rotina diária algum tipo de relaxamento, que possa funcionar como uma descompressão da energia negativa acumulada e uma preparação para o dia. Existem vários exemplos daquilo que poderá fazer e que lhe permitem uma escolha adequada ao tempo e orçamento disponível: há vários exercícios de relaxamento de pequeníssima duração e que pode fazer em casa e situações mais estruturadas como a prática de ioga, tai-chi, meditação, ou massagens e outras actividades.
  • Para combater um sono menos repousado, o que costuma acontecer em situações de stress acrescido, mantenha o quarto de cama fresco (ajuda a adormecer) e faça um esforço para se deitar e levantar aproximadamente às mesmas horas todos os dias, nunca permanecendo deitado mais do que cerca de 30 minutos sem estar a dormir, para que o corpo se habitue a que a cama serve para dormir e não para estar às voltas nas preocupações que nos desgastam.
  • Tome consciência de que a sua irritabilidade se deve mais ao stress e não tanto às situações concretas que são o objecto da sua impaciência; ou seja, dê um desconto a si próprio e evite reagir de imediato para não criar situações interpessoais que, analisadas friamente um pouco mais tarde, sejam uma fonte de arrependimento.
  • Quando se começar a sentir angustiado, por pensar que as férias estão a terminar, aproveite para direccionar o raciocínio de uma forma construtiva: já que está a pensar na sua vida em geral, o que gostaria de modificar? O que gostaria de experimentar de diferente e que pensa poder aumentar a sua qualidade de vida? Assim, em vez de permitir que se instale um humor melancólico, poderá estar a canalizar as suas energias de uma forma verdadeiramente útil para si. A pausa da férias constitui um bom momento de distanciamento crítico, que nos permite olhar para as coisas com novas perspectivas e, por vezes, encontrar soluções simples e práticas para problemas do dia-a-dia.
  • Além destas pequenas resoluções que permitem eliminar aspectos que nos estavam a incomodar e a criar ruído nas nossas vidas, não se esqueça de rever, igualmente, os aspectos verdadeiramente importantes para si, os seus valores pessoais, aquelas questões que nos direccionam a caminhada da vida. Até que ponto é que a sua vida diária vai ao encontro destes valores? Será que pode introduzir algumas modificações para encurtar a distância entre aquilo em que acredita e que valoriza e a vida que está a viver? Normalmente, é apenas quando vivemos de acordo com os nossos valores muito próprios e pessoais que atingimos uma sensação de plenitude e satisfação pessoal, por isso, este pequeno exercício de reflexão vale bem a pena ser feito, e a descontracção e tempo livre das férias são propícios a este “pensar sobre a vida” de uma forma mais alargada.

 

 

Depois das férias

 

 

A maioria das pessoas exibe um qualquer sinal de mal-estar nos primeiros dias de reinício de trabalho. Estes sinais, como em tudo em saúde mental, percorrem a gama possível de uma linha contínua que vai das reacções adaptativas e totalmente benignas – como, por exemplo, irritabilidade, impaciência, má qualidade de sono, dores de cabeça, alguma tristeza – até às reacções no outro extremo que se configuram como claros sinais de alarme, se sustidos no tempo, durante mais de duas ou três semanas. E ainda que seja difícil encontrar uma lista organizada ou válida para todos, podemos mencionar, a título de exemplo, as alterações fortes do comportamento alimentar, tendência a gastos compulsivos ou decisões precipitadas de forte impacto na vida, tristeza profunda ou desespero, perturbações gastro-intestinais ou outros sintomas físicos sem uma explicação médica evidente, etc.

 

O importante é ter presente uma directriz genérica: se, ao retomar as suas obrigações profissionais ou académicas, sentir algo de muito diferente, que não possa ser explicado por nenhum argumento evidente, e mantiver essa reacção durante mais do que 2 a 3 semanas, procure apoio psicoterapêutico.

 

Entretanto, nem tudo são más notícias: há muito do embate com esta realidade do pós-férias que podemos reduzir, com acções muito concretas e razoavelmente simples de implementar. Algumas dicas que talvez queira considerar para transformar as férias em momentos que não são estragados pelo que se lhes segue:

 

  • Tire o dia antes de começar a trabalhar para deixar tudo preparado: arrumar as malas de viagem, verificar a roupa de trabalho, orientar as questões domésticas, relembrar o que tinha pensado fazer de trabalho quando voltasse, etc
  • Nos dias antes do recomeço, vá ajustando o seu horário fisiológico progressivamente aos horários de trabalho – horas de deitar e acordar, horas de refeições, por exemplo
  • Comprometa-se consigo próprio em encontrar algo de novo para fazer que lhe dê prazer e seja possível de encaixar na sua rotina sem grande prejuízo de tempo ou esforço adicional
  • Aproveite para rever aspectos da sua organização de tempo e pensar em ensaios possíveis para fazer o mesmo com menos tempo ou com menos dificuldade
  • Seja realista nos objectivos que estabelece
  • Adie decisões que lhe surgem como tentações e podem ser de difícil retorno como, por exemplo, mudar de emprego para uma altura em que se sinta mais ambientado com o ritmo de trabalho
  • Faça uma entrada em suavidade: a pressão para recuperar o tempo “perdido” durante as férias é muita, mas recorde-se que Roma e Pavia não se fizeram num dia. Faça questão de não sair muito tarde do trabalho na primeira semana, para ter tempo de se re-habituar ao ritmo
  • Deixe o primeiro fim-de-semana após trabalho planeado e recheado de actividades agradáveis, para estabelecer alguma continuidade com o tempo de descanso e… bem para ter algo por que possa ansiar
  • Aproveite o distanciamento que as férias proporcionam para um olhar crítico ao seu ambiente de trabalho mais directo: o que é que pode mudar, o que pode eliminar, que papeis pode deitar fora? Arregace as mangas e faça um arrumo e re-organização radical, incluindo nos suportes digitais e caixas de e-mail – há muito a dizer a propósito de uma secretária e de uma caixa de e-mail desimpedidas de material perfeitamente dispensável…
  • O final de dia tem vindo a encolher para quase todos nós ao longo dos últimos anos, mas isso não significa que não possa ser de qualidade! Planeie finais de dia tranquilos, agradáveis, sociáveis ou seja o que for que valorize, lembrando-se que mais valem 15 minutos bons do que nenhum.
  • Opte por uma alimentação saudável, diversificada e ingerida com tempo.
  • Exercite-se; quer seja num ginásio em aulas específicas ou optando por estacionar o carro um pouco mais longe e andando até casa ou ao emprego, sobretudo de manhã, não se esqueça de se movimentar para activar recursos calmantes naturais do seu organismo

Desejamos-lhe umas excelentes férias!

 

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publicado às 19:31



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