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Viver em piloto automático

por oficinadepsicologia, em 15.01.10

Autor: Pedro Albuquerque

Psicólogo Clínico

 

Algumas pessoas experienciam espontaneamente alguns momentos em que estão completamente envolvidos com a experiência do momento presente sem serem apanhados pelas formulações ou conceitos acerca dessa experiência.

No entanto, para muitos a forma de lidar com a experiência que se encontra no momento presente é caracterizada por uma espécie de nevoeiro de preocupações acerca de acontecimentos futuros, ou de ruminações acerca de acontecimentos passados, ou mesmo de formulações acerca de Si, dos Outros e dos acontecimentos.

O racional que a prática do Mindfulness confere é o permitir que a pessoa se desligue intencionalmente do piloto automático e dos seus associados processos de pensamento, e que traga a atenção para a actualidade do momento presente, abrindo desta forma a possibilidade a respostas mais esclarecidas para uma determinada situação.

A expressão “piloto automático” descreve um estado da mente na qual a pessoa age sem uma intenção consciente ou sem a consciência da percepção sensorial do momento presente. A capacidade para operarmos em piloto automático é altamente desenvolvida na espécie humana. Confere-nos uma vantagem evolucionária considerável originando no entanto uma vulnerabilidade para o sofrimento emocional.

 

Os humanos têm uma capacidade limitada para prestar atenção consciente aos acontecimentos, e portanto essa capacidade só nos permite abordar quantidades limitadas de informação num determinado momento. Isto pode dar a impressão de que a nossa limitada capacidade para prestar atenção poderia restringir-nos o desenvolvimento, no entanto a nossa capacidade para entrarmos em piloto automático permite-nos ultrapassar facilmente esta aparente limitação. O facto de não necessitarmos de envolver a atenção consciente em tarefas familiares permite-nos simultaneamente desempenhar um conjunto alargado de tarefas complexas. A capacidade que temos para desempenhar tarefas físicas como conduzir, caminhar ou escrever, enquanto uma parte do nosso processamento está em piloto automático, é uma importante competência adaptativa. Os efeitos prejudiciais do piloto automático surgem quando este tipo de processamento visa a nossa experiência emocional.

Associado à nossa capacidade para aprender tarefas complexas, temos a elevada competência para a resolução de problemas. Podemos reflectir, analisar, deslocar os processos de pensamento para o passado ou para o futuro, aprender com as experiências passadas e converter este conhecimento numa vantagem futura, e podemos verificar as discrepâncias entre os resultados desejados e aquilo que efectivamente temos. Estas competências do “modo de fazer” cognitivo (baseado no pensamento) são alicerces fundamentais para lidar com os inúmeros desafios que encontramos na nossa vida.

Da mesma forma que as nossas competências para as actividades praticas se tornam parte do reportório automático, também este estilo de pensamento se torna automatizado. Muito para além da nossa consciência, a nossa mente pensante está frequentemente envolvida em julgar, monitorizar, e a tentar resolver os mais variados aspectos da nossa experiência interna e externa.

 O modo de ser que é cultivado pelo Mindfulness é completamente oposto ao estado de piloto automático, nomeadamente:

§         Em vez da mente ser apanhada pelo que lhe surja, existe uma intenção consciente da direccionar a atenção para um objecto escolhido.

§         Em vez da atenção estar fundamentalmente envolvida em conceitos (pensamentos organizadores de classes de eventos) está envolvida na experiência sensorial directa num determinado momento.

§         Em vez de analisar e fazer julgamentos acerca da experiência, a atitude de Mindfulness está aberta e aceita a experiência de cada momento.

Fundamentalmente, o treino em Mindfulness não envolve o tentar descartar dos padrões problemáticos de funcionamento da mente – isto apenas serviria para os fortalecer. Torna-se claro, agora, que tentar desfazer estes padrões de funcionamento é algo que faz parte do modo de fazer. O que o Mindfulness propõe é um modo de ser e de estar na qual a intenção é para aprender formas de estar completamente com a actualidade da experiência de cada momento ao mesmo tempo que aprendemos a relacionarmo-nos com essa experiência com aceitação e de uma forma não avaliativa.

 

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publicado às 09:35



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