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O Eu, o Outro e os Facebooks

por oficinadepsicologia, em 13.12.10

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

 

 

Gostaria que reflectíssemos sobre algo que me parece importante.

 

Já nos tempos da Faculdade ouvia a expressão “o Homem é um ser biopsicosocial”. E, de facto é. Sobre tal, não restam quaisquer dúvidas.

 

Gostaria que nos concentrássemos ,em particular, na parte do “social”.... Se eu olhar para mim vejo que tenho óculos. Este objecto, que eu uso diariamente representa, em si, o trabalho conjunto de vários homens, desde os estudiosos da óptica, até aos estudiosos da mecânica ocular, passando pelos designers da armação e.t.c. Basta pensar nisto para ter a noção de como estamos, de algo modo, todos ligados uns aos outros e mais importante ainda de como precisamos uns dos outros. Como dizia Mário de Sá Carneiro: “Eu não sou eu nem sou o outro,sou qualquer coisa de intermédio...” E esta ideia transmite uma grande verdade: Todos estamos ligados e somos feitos de um pouco de cada um de nós. Eu gostaria de reflectir justamente sobre esta dependência do outro.

 

 

Hoje em dia, vivemos na era dos “chats”, dos “messengers”, dos “facebooks”, dos “twiters”, temos “moche”, “skypes” e outros serviços que permitem chamadas gratuitas. Vivemos na era da interconexão, da ligação permamente ao outro. Vivemos num mundo em que podemos estar 24h em ligação com outra pessoa! Gostaria que reflectíssemos sobre esta possibilidade...

 

Por um lado, é obviamente fantástico termos a possibilidade de estar tão ligados a este ponto, mas, por outro lado, se nos ligamos demasiado aos outros onde é que ficamos nós?

 

Antigamente, (hoje em dia é mais raro, mas ainda se vê) as senhoras de mais idade, ficavam largos períodos de tempo a olhar pela janela e a sentir o mundo, a partir daquele lugar de conforto e protecção, que era as suas casas. Geralmente estas senhoras eram viúvas, ou pessoas solitárias que procuravam “matar o tempo”, procurando a distracção e a novidade no outro. De certo modo, o vazio nelas, procurava ser preenchido no sentir o outro, mesmo que fosse apenas outra “alma” a atravessar a rua.

 

Hoje as “janelas” são outras, são as janelas virtuais, com as quais, muitas vezes, vamos preenchendo o nosso vazio, olhando para o outro. Todos nós podemos ter um lado “voyeur” e isso em si é natural... Mas quando o outro começa a assumir quase um argumento para fundamentar o nosso ser, então talvez seja importante parar para reflectir.

 

Muitas pessoas têm empregos rotineiros, desinteressantes, causadores de tédio e desmotivação. Muitas pessoas sentem que nada aprendem no seu emprego. Infelizmente é uma realidade sentida por muitas pessoas... Muitas pessoas precisam destes empregos para garantir a sua estabilidade económica. Parte do seu tempo é pois ocupado com questões laborais... e o restante? Como é passado o tempo restante?

 

Esta é a questão central! O que fazem com o tempo que lhes sobra? Muitas mergulham nos sistemas de comunicação virtual e lá ficam até a “cabeça” lhes começar a pesar e os olhos começarem a se fechar. Então, cansadas, removem o seu corpo até à cama e vão descansar para novamente enfrentar mais um dia de trabalho entediante! Esta situação é que é preocupante!

 

E é justamente sobre esta situação que recai a minha reflexão. É perigoso quando a dependência do outro nos faz esquecer de nós mesmos... É preocupante quando essa pessoa deixa de se cultivar, de se desenvolver, de encontrar a sua linguagem, as suas ideias, os seus gostos e vive à espera da próxima mensagem... Para a saúde mental e o equilíbrio interior é fundamental encontrar um compromisso entre o meu Eu e os Outros. Tanto a fusão no Eu, como a fusão nos outros, são sinais de preocupação. É fundamental nunca esquecer as nossas necessidades pessoais, o nosso Eu. Se este Eu, vive devorado pela “voracidade virtual”, então é importante parar e reflectir.

 

Penso que vale a pena pensar sobre isto!

 

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publicado às 08:39



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