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Depressão (II)

por oficinadepsicologia, em 12.01.11

E-mail recebido

 

"Boa tarde.
este fim de semana resolvi tomar uma atitude, relativamente ao estado em que tenho andado e dei por mim a vaguear pela net a tentar encontrar respostas e encontrei este blog. Vou contar o que se passa na esperança de me poderem dar "uma luz".
Tenho 31 anos, sou casada há 10 anos e tenho 2 filhos, um rapaz de 8 anos e uma menina de 3 anos.
Não sei precisar há quanto tempo isto vem acontecendo, mas sei que há muito tempo (acho que há uns 3 anos) tenho sentido que ando com falta de energia e muitas alterações de humor.
Passo periodos em que ando muito feliz e outros muito em baixo.
O meu apetite aumentou muito e acho que era capaz de passar o dia a comer. Quando não me controlo como imenso e engordo e depois fico ainda pior, com sentimentos de culpa e chego até a tomar medicamentos para emagrecer (coisas naturais).
O meu desejo sexual simplesmente desapareceu. Gradualmente dei por mim a desejar que o meu marido nao se "lembre" de me procurar.
Falamos sobre isto, ele compreende, mas assim não é vida para ninguem. Fazemos amor de vez em quando e eu fico feliz e satisfeita, mas começar é um sacrificio e sinto-me mal por isso.
Agora ando cada vez mais irritada e nervosa. No trabalho ando desmotivada e sem vontade de fazer o que sempre gostei de fazer.
Contudo, é no trabalho onde me sinto melhor, não me enervo tanto. Mas por vezes não faço o serviço que havia de fazer, porque estou sem vontade.

Quando chego a casa, fico numa pilha, tudo me enerva e aborrece. O jantar, as arrumações, tudo. Mesmo que o meu marido me ajude, parece que nunca é sufiente.
A minha filha mais nova é muito birrenta e chorona e dou por mim a gritar com ela e acabo por me sentir mal com isso e a chorar nao raras vezes.
Por vezes desejo que seja dia de trabalho para nao ter de estar em casa. Quando estou no trabalho, apetece-me estar em casa.
Outras vezes estou bem, como se nada disto se passasse.
tentei resumir mais ou menos o que se passa comigo, na esperança de me poderem dar "uma luz".
Ouço falar em depressão, mas nunca liguei muito, sempre associei àquelas pessoas que têm muitos problemas e que estão sempre tristes e eu não sou assim! Mas será que poderei estar com depressão?
O que hei-de fazer?
Tentei marcar consulta com a minha medica de familia, mas já não é possivel este ano.
Obrigada pela vossa ajuda e compreensão."

 

 

Cara E.,

 

Ao ler o seu e-mail, parece que desde há muito tempo que vive com um sofrimento muito grande. Sofrimento esse que, com o passar do tempo, imagino que se torne mais pesado e difícil de suportar, como um fardo que se arrasta atrás de si ao subir uma encosta cada vez mais inclinada. Tendo em conta há quanto tempo vive com isto, e o grau de esforço que simplesmente levantar-se de manhã parece implicar, há que elogiar a sua decisão de procurar ajuda. De facto, aquilo que suspeita que possa passar-se consigo parece ser o cenário mais provável: uma depressão. Muitos dos sintomas que descreve estão enquadrados nesta perturbação. A irritação e nervosismo constantes são manifestações tão comuns como a tristeza recorrente. As alterações dos apetites estão também frequentemente associadas a quadros depressivos: o excesso de apetite alimentar funciona muitas vezes como um mecanismo compensatório (que, como tão bem ilustrou, muitas vezes tem resultados desastrosos para a nossa imagem de nós, originando sentimentos de culpa e desagrado com a imagem corporal); a redução drástica do apetite sexual é também um resultado habitual de estados depressivos. De entre todas as suas dificuldades, há uma que parece referir mais vincadamente e que, calculo, será a mais perturbadora de todas. Este “não estar bem em lado nenhum” é um estado de desconforto permanente que não encontra alívio de maneira alguma. Imagino mesmo que haja alturas em que lhe apeteça apenas e só fechar-se numa concha e esconder-se de tudo. Quando não estamos bem em lado nenhum, torna-se particularmente difícil encontrar qualquer resquício de motivação dentro de nós. Não nos apetece fazer nada, ouvir nada, falar com ninguém. Especialmente quando temos crianças pequenas em casa, a paciência torna-se um luxo escasso, e os sentimentos de culpa imperam uma vez mais. E quanto mais o tempo passa, mais nos sentimos presos neste ciclo, e mais sentimos as nossas relações com os outros e nós próprios a desgastarem-se. Olhando para esta paisagem emocional, tudo parece desolador e, acredito, sem esperança. Felizmente, não tem que ser esse o caso. A investigação científica, bem como a experiência que vimos a acumular, diz-nos que  os quadros depressivos, mesmo os mais prolongados, têm uma taxa de recuperação muitíssimo elevada. Posto isto, uma coisa é certa: sem tomar medidas concretas, a situação só tenderá a agravar-se. Pelo contrário, se procurar tratamento, os resultados serão seguramente animadores. Neste contexto, existem essencialmente duas linhas de tratamento que devem ser idealmente utilizadas em conjunto: por um lado, a medicação será potencialmente uma fonte importante de contenção dos sintomas a curto-prazo; por outro lado, sabemos que a psicoterapia tem taxas de sucesso cada vez mais elevadas, a curto e longo-prazo. Para recorrer a uma ou outra, existem actualmente soluções diversas. Para obter medicação, poderá recorrer (como parece ser sua intenção) ao seu médico de família ou, em alternativa, a um psiquiatra. Para fazer psicoterapia, infelizmente parece haver pouca disponibilidade no Serviço Nacional de Saúde. Quer seja em contexto individual ou de grupo, este poderá ser um recurso muito importante. Neste particular, e caso sinta que lhe pode ser útil, inicia-se no próximo dia 20, às 19h30, mais uma edição do Grupo Terapêutico de Depressão.

Caso sinta que precisa de informação adicional, por favor não hesite em contactar-nos.

Um abraço,

Francisco de Soure

Oficina de Psicologia

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publicado às 11:04



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