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Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

 

 

Quando se fala de partilhar a intimidade falamos essencialmente de aprofundar as partes mais sensíveis. Os maiores erros, as maiores faltas, os maiores defeitos, falhanços, medos, mas também as maiores loucuras, ousadias, desejos e sonhos mais recônditos. Partilhar a intimidade é partilhar o bom e o mau. Vivenciar até aspectos muito negativos da outra pessoa e partilhar as “birras”, as frustrações, mesmo as iras. Partilhar a intimidade não é só partilhar algo de belo e inspirador. É partilhar o lado mais negro e o melhor. É partilhar a pureza sem disfarces sociais.

 

Em qualquer relação que se pretenda profunda, existe necessariamente a partilha de intimidade. É uma condição "sine qua non".

 

Mas a intimidade, o revelar aspectos muito profundos, ou muito pessoais, implica outra condição fundamental: a condição da confidencialidade. A intimidade é preciosa e rara e deve ser conservada como um segredo. São aspectos que devem pertencer ao casal e à sua intimidade.

 

Mas, para haver intimidade tem de haver igualmente confidencialidade. São como irmãs, ou pólos que necessariamente se complementam. Uma relação para ser forte e duradoura tem que ter alicerces muito fortes. Esses alicerces assentam a sua força justamente na intimidade. Dois amantes quando vêm o seu amor como verdadeiro, devem ser quase como dois irmãos, dois companheiros que querem partilhar a sua vida e caminhar juntos, ajudando-se mutuamente. Então para isso, muitas vezes, mesmo sem se aperceberem de tal, lançam as fundamentais sementes da intimidade e partilham e dão a conhecer o seu interior. Mas esses momentos são só deles...Não é algo para partilhar, ou para comentar!É algo para respeitar e valorizar. São como o seu mais íntimo segredo. E a sua confidencialidade revela justamente a sua importância.

 

 

Algo que pode efectivamente quebrar uma relação e deixar feridas profundas e dolorosas é o quebrar dessa intimidade. O partilhar aquele segredo com outras pessoas.

Muitas vezes, por pressão social, por ter motivos de conversa, por querer ser ouvido, ser diferente, um dos parceiros pode começar a falar com outras pessoas, amigos ou não, sobre a vida íntima do casal e isso pode ser perigoso...

Mas podem-se questionar... porque razão isto é perigoso? Aliás, todos nós sabemos que grande parte da nossa vida social e de amizade se passa falando sobre os nossos relacionamentos amorosos, até porque é um tema, mesmo quando complexo e problemático, de melhor digestão, que uma conversa sobre um livro, ou uma teoria, ou algo que apele a uma grande atenção. É que muitas vezes as pessoas desligam-se quando não se sentem identificadas com o que está a ser dito. Assim, até se pode falar do eclipse do sol, mas se a pessoa não estiver particularmente interessada vai rapidamente perder a atenção. Mas quando se fala de relações é como se as pessoas despertassem e se colocassem com a máxima atenção. E porquê? Porque ligado às relações estão aspectos intrínsecos de intimidade e quando alguém releva algo íntimo a alguém a pessoa que recebe esse segredo sente-se importante porque foi a pessoa escolhida para tal revelação.  Nós queremos ser especiais e estes breves momentos permitem-nos sentirmo-nos assim.

 

Mas estas revelações são “paus de dois bicos”, pois podemos entrar em aspectos de grande intimidade e até banalizar ou mesmo vulgarizar algo secreto e muito sensível.

Se a pessoa amada sabe que anda a ser comentada, ajuizada, percepcionada, transfigurada, criticada por caras conhecidas ou desconhecidas, se quase se torna banalizada e mesmo ridicularizada então isso pode ser muito mau, muito negativo. Rompe-se o laço da confiança e a própria pessoa deixa de querer estar com amigos ou conhecidos da outra pessoa amada. Então rompem-se círculos sociais, pois a pessoa lesada já não quer mais ver aquelas pessoas que sabem coisas sobre ela. O problema é que muitas vezes estas pessoas são amigos muito próximos e rompem-se então canais de comunicação fundamentais do casal, a vida social desmorona-se e abre-se uma ferida que dificilmente se fecha.

A questão da intimidade é uma questão extremamente delicada e é preciso perceber a sua importância.

Rompendo-se a intimidade é meio caminho andado para o fim da relação.

 

Mas uma pergunta perfeitamente legítima que se pode colocar é: Quando a relação entre o casal vai “de mal a pior” então talvez seja importante "abrir o jogo" com amigos e revelar mesmo aspectos íntimos e feridas profundas do casal. Bom, em relação a esta questão, e uma vez que o casal são duas pessoas, só se deverão revelar aspectos de maior intimidade com o consentimento de ambas as pessoas e nunca "às escondidas"porque é facilmente compreensível que se se vai criticar a outra pessoa e transmitir uma imagem francamente negativa, então a pessoa amada, se souber que foi exposta desta forma, mesmo que a exposição tenha sido o mais correcta possível, vai-se sentir mal quando vir o confidente. É inevitável e faz todo o sentido.

 

Mas obviamente pode-se perguntar: Então e se se revelarem pormenores íntimos e não se disser nada à pessoa amada? Então trata-se de uma questão de princípio – nesse caso, está a ser violada a célula "nós", já que se trata de um assunto que diz respeito ao "nós" e não unicamente ao "eu". Se queremos revelar algo de íntimo então revelemos de nós próprios e não do outro.

Obviamente, existem situações em que as dificuldades de relacionamento dentro de um casal assumem proporções de tal ordem preocupantes que um dos elementos, ou mesmo ambos, procuram ajuda não em amigos, mas sim em psicoterapeutas.

Estas são situações excepcionais em que o melhor é mesmo falar abertamente sobre o que perturba a relação. Na relação unica do contexto terapêutico existe a liberdade de quebrar a confidencialidade da intimidade de um casal.

Muitas vezes esta procura individual de um dos elementos da relação acaba por resultar na inclusão do outro elemento do casal num conceito de terapia de casal, em que o foco do trabalho terapêutico é na célula do “nós”, fundamental para a saúde psicológica de um casal.

 

Portanto três ideias fundamentais a reter são: Para uma relacionamento íntimo perdurar é fundamental partilhar a intimidade e garantir a sua confidencialidade, só a quebrando com o consentimento de ambos ou através da garantia de confidencialidade e liberdade proporcionadas pelo carácter único da relação terapêutica.

 

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publicado às 14:11



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