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O mundo secreto da Anorexia e da Bulimia

por oficinadepsicologia, em 13.03.11

Autora: Joana Florindo

Psicóloga Clínica

 

 

Joana Florindo

Imagine-se insatisfeita com o seu corpo, descontente com a imagem “gorda e disforme” que ele anuncia. Imagine-se decepcionada consigo própria por ter experimentado inúmeras dietas, sem conseguir obter qualquer resultado estável e duradouro. Sente-se culpada por não controlar o seu corpo, e pensa que precisa de seguir uma dieta mais rigorosa, que não lhe dê espaço para falhar. Pensa que precisa também de ser mais rigorosa na sua postura, ter maior controlo sobre si, para não ceder às tentações da comida. Controlo e rigor, se quer mesmo emagrecer.

 

 

Naturalmente, liga-se à Internet, e num motor de busca procura informação sobre dietas rápidas, rígidas e eficazes. Depressa encontra inúmeros sites carregados de material que considera útil e convincente. Entre eles, destaca-se um em particular, diferente de todos os outros, e para o qual dirige a sua atenção. Trata-se de um site, criado provavelmente por uma jovem que partilha dos seus problemas, que apresenta ideias e formas de atingir o emagrecimento idealizado, controlando-se ao máximo e ingerindo o menor número possível de calorias. Nesse site, surge em destaque a fotografia de uma modelo, adorada pelos media e famosa pela sua magreza, ao lado de “10 Mandamentos” para se obter um corpo assim:

 

  1. Se não és magra, então não és atraente;
  2. Ser magra é mais importante que ser saudável;
  3. Deves comprar roupa, cortar o cabelo, tomar laxantes, passar fome, fazer de tudo para pareceres mais magra;
  4. Não deves comer sem te sentires culpada;
  5. Não deves comer alimentos hiper-calóricos sem te punires depois;
  6. Deves contar as calorias dos alimentos, e de acordo com isso, restringir a sua ingestão;
  7. O que diz a “Balança” é o mais importante;
  8. Perder peso é bom; Ganhar peso é mau;
  9. Nunca és magra demais;
  10. Ser magra e não comer são sinais de verdadeira força de vontade e sucesso;

 

Deparou-se com um site Pro-anorexia, ou “Pro-ana”.

 

Ao teclarmos “Anorexia” ou “Bulimia” num motor de busca da Internet, facilmente acedemos a variados sites que nos ajudam a conhecer estes problemas, dando-nos informações sobre os seus sinais de alerta, sintomas, causas, consequências e inclusive indicações sobre o seu possível tratamento. Mas, se em vez disso, teclarmos “Pro-ana” ou “Pro-mia”, os resultados que obtemos são bem diferentes. Acedemos a um mundo semi-secreto, de páginas escritas maioritariamente por mulheres, sobretudo raparigas adolescentes, que defendem e glorificam a vida com Anorexia ou Bulimia. Muitas, negam-se mesmo a aceitar estes problemas como perturbações alimentares graves, defendendo-os antes como formas de estar, que lhes permitem alcançar o controlo e a perfeição. Os seus sites não se dirigem a quem está em tratamento, ou quem o procura, mas sim a quem “acredita que a Ana (ou Mia) é a única forma de vida para a perfeição”.

Embora os sites “Pro-ana” e “Pro-mia” existam há mais de uma década, ainda hoje permanecem desconhecidos para a maioria da população. Neles, existem salas de chat ou fóruns, onde as participantes partilham as suas crenças, dicas para emagrecer, formas de esconder o seu problema à família ou aos médicos e onde expõem as histórias pessoais, de aparente controlo e sucesso, de forma a se ajudarem e incentivarem. Partilham poemas e “frases de guerra” que estimulam a restrição extrema de comida, a prática excessiva de exercício físico e a manutenção de pesos extremamente baixos, sempre com o objectivo de atingirem a felicidade e a perfeição.

É também comum surgirem imagens de mulheres gordas, associadas a legendas como “Nunca poderei ficar assim”, de forma a relembrá-las do caminho a seguir, ou imagens de mulheres extremamente magras, especialmente modelos ou estrelas de cinema e televisão, que as inspiram na luta pela magreza. Habitualmente designadas de “Thinspiration” - “inspiração para a magreza”, estas imagens chegam a ser propositadamente modificadas, revelando corpos débeis, de magreza excessiva.

 

A procura destes sites, por parte de quem tem estes problemas alimentares, vai muitas vezes além da procura de truques e dicas de dietas, ela é muitas vezes promovida por um sentimento de solidão e incompreensão face ao problema alimentar que a pessoa apresenta. Neles, acabam por encontrar aquilo que tanto procuram, o entendimento, o suporte emocional e o ambiente de ausência de julgamento.

O sentido de pertença a uma comunidade que partilha os seus problemas e ideais, que compreende e valida os seus comportamento e sentimentos, fá-las perceber que não estão sós. E para além disso, estes sites assentam em grande escala no estímulo do auto-controlo, na capacidade de ser dona e senhora do seu próprio corpo, um dos seus principais desejos.

Mas, apesar de aparentemente ser uma ajuda para quem tem Anorexia ou Bulimia, a fidelização a estes sites acaba por agravar grandemente estas perturbações. Ela promove aprendizagens de métodos e truques agressivos para a redução acentuada do peso, ou para a  manutenção de um peso já muito baixo, que prejudicam gravemente o estado de saúde de quem já está doente. As percepções de forma e peso saudáveis, ficam ainda mais distantes da realidade, e verifica-se o acentuar da distorção de que estas perturbações são fieis companheiras e amigas, das quais não se devem libertar.

 

É fundamental chamar à atenção para o facto de que muita da informação contida nessas páginas é ilusória, falaciosa e bastante perigosa, não só para quem já tem uma perturbação alimentar, como também para quem ainda não a desenvolveu, mas está próximo disso. A divulgação desta realidade escondida revela-se crucial, no sentido de alertar e de despertar consciências, não só para a existência deste tipo de sites, como para as consequências gravíssimas que eles provocam nos indivíduos e na sociedade.

 

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publicado às 22:40



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