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Mãe preocupada

por oficinadepsicologia, em 08.04.11

E-mail recebido

 

"Boa noite,

 

Gostaria da sua opinião no seguinte assunto:

 

Tenho uma filha com 27 anos que está a fazer o seu doutoramento no estrangeiro. Tem uma relação de 8 anos com uma pessoa e há cerca de um ano atrás pediram para eu e o meu marido fazermos de fiadores numa casa. Na altura o argumento apresentado pela minha filha, foi de que precisava de manter algo que fosse comum aos dois para a relação se manter. Recordo-me de dizer que os sentimentos é que mantinham a relação e não as paredes de uma casa. Mas lá se fez a compra. Ela partiu em estágio para um país bem longe daqui, mas regressou passados dois meses para a Europa para continuar o estágio e posteriormente está a fazer o doutoramento. A relação foi sempre muito complicada com muitas discussões à mistura. Conhecem-se desde crianças. Agora ele descobriu emails (entrou ma área dela) escritos para uma pessoa com quem se encontrou talvez duas vezes, mas que vive em Portugal. Isto deu origem a uma ruptura. Ela tentou tudo porque sempre lhe deu razão a ele, mas ele não quer continuar e agora ela já está cansada de "pedir" até porque como deve calcular, está com uma grande responsabilidade de fazer o seu doutoramento nos próximos 3/4 anos. Ele nunca quis arriscar ir viver para lá, apesar de dizer que a "ama" muito. Isto já falei com os dois, não tomo partidos, dei-lhe razão a ele, mas agora já acho que é demais. Se não quer, cada um parte para o seu caminho. Ela já pensa assim também. Acontece que a casa está aqui a entravar a questão , porque ele diz que ela não tem sequer direito à casa para dormir. Ora eu só quero saber, se eu estou a pensar mal, ou se agora ele já não está a exagerar e a "servir-se" da atitude dela para ficar por "cima". Isto provoca muito sofrimento de parte a parte e também o meu porque até sempre o tratei como filho. Devo desligar-me e aconselhar que se separem definitivamente? ou devo fazer ainda mais um esforço para que se entendam? É o que tenho feito sempre, mas já estou cansada e agora tenho de ouvir o pai, como se a culpa fosse minha. Isto já é peso a mais.

 

Muito obrigado pelo sua atenção. Aguardo os seus comentários.

 

 

Com os melhores cumprimentos

D"

 

 

Cara D

Por aquilo que nos conta, parece ser uma mãe muito extremosa e preocupada com a sua filha. De tal forma, que parece estar a viver a situação actual na vida dela como se fosse parte da sua, e a sofrer muito com estes acontecimentos. Este cuidado, feito de amor e preocupação genuínos, parecem colocá-la no centro de um turbilhão de interacções entre os membros da sua família no qual, calculo, se sinta impotente e desprotegida. Particularmente tendo em conta que nesta altura o conflito se prende com um imóvel, para cuja aquisição se deu como fiadora. Mais do que as questões relacionadas com o destino a dar à casa em si, fico com a impressão que o que mais lhe dói é assistir à lenta degradação de relações entre pessoas que ama. E imagino que seja particularmente doloroso quando os seus esforços no sentido de conciliar posições parecem originar afastamentos destas pessoas para consigo. No que diz respeito à relação da sua filha com o seu genro, parece-me particularmente difícil dar-lhe uma opinião. Qualquer conclusão seria, necessariamente, o resultado de tentar ler intenções em comportamentos que, surgindo de uma relação amorosa, se tornam particularmente difíceis de compreender pela complexidade dos motivos que os podem originar. No que diz respeito à legitimidade no acesso à casa, do ponto de vista ético também nos é difícil dar opinião. Particularmente, porque me parece que esse será um tema que, no plano dos direitos morais e expectativas, dirá respeito apenas ao casal. Do ponto de vista legal a conversa poderá, seguramente, ser diferente. Embora, lá está, me pareça que seja um advogado a melhor pessoa para opinar quanto a este ponto. Independentemente da impossibilidade de comentar de forma objectiva o seu pedido, há algo que nos salta à vista. A Deolinda está, evidentemente, numa situação que lhe gera muito sofrimento. Por muito que o conhecimento popular nos diga que “entre marido e mulher não se mete a colher”, é difícil para qualquer mãe assistir de braços cruzados ao desmoronar do casamento de uma filha com um genro que muito se estima. Pergunto-me apenas se a sua intervenção gerará mudanças que justifiquem aquilo que parece sofrer como resultado das suas iniciativas. Será que conseguimos pesar os prós e contras? Será que é possível expressar o seu amor e preocupação de formas que não a comprometam? Em qualquer caso, parece-me de extrema importância que se proteja. Que dedique tempo a si, às coisas que lhe dão prazer e fazem bem. O risco de desgaste é muito elevado para alguém na sua posição. Poderá, também, ser importante procurar ajuda especializada. Expor a sua situação em pessoa a um psicólogo poderá ajudá-la a organizar ideias e definir para si o que quer fazer, e ajudá-la a gerir o sofrimento que toda esta situação lhe causa.

Espero ter ajudado a clarificar as suas questões. Caso lhe possamos ser úteis de mais alguma forma, por favor não hesite em contactar-nos.

Um abraço,

Francisco de Soure

Oficina de Psicologia

 

 

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publicado às 16:45



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