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Estradas em campos alentejanos

por oficinadepsicologia, em 06.08.11

Autora: Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

 

Madalena Lobo

Imagine um campo no Alentejo – pode ser feito dos verdes infinitos e improváveis que compõem o Inverno, ou na miríade de cores que os salpicam na Primavera ou ainda nos dourados e palhas que caracterizam o Verão. Enfim, dou-lhe liberdade criativa!

 

Agora imagine-se num carro (de preferência eléctrico, para ser mais ecológico, sim? E, já agora, um todo-o-terreno, que os campos podem ser traiçoeiros), escolha uma trajectória e passe pelo campo. Um, dois quilómetros, o que lhe apetecer e o que o seu carro aguentar, claro está. E ninguém disse que era fácil entrar por um campo adentro, aos altos e baixos, zonas enlameadas, covas insuspeitas escondidas atrás dos arbustos… Agora, olhe para trás. Vê-se bem por onde passou o carro, não vê? As ervas, flores, terra estão amassadas, calcadas, nos pontos onde as rodas passaram.

 

No entanto, se não voltar lá durante, digamos, umas duas semanas, já terá muita dificuldade em encontrar o sítio por onde passou. Mas continuemos a imaginar…

 

Agora o seu círculo de amigos do Facebook (sim, esses 5.000) vêm todos atrás de si, nos seus carros, a pisarem exactamente o mesmo caminho e todos os dias o voltam a percorrer (do outro lado há uma tasquinha com petiscos de “alto lá com ela”, claro). Uns dias depois de começar este estranho passatempo, teremos uma simpática estradinha de terra batida, por onde se transita facilmente, e com uma velocidade que já admite provas de rally. Se mantivermos o trajecto, o número de vezes que for necessário, pode ter a certeza que a Junta de Estradas começará a pensar asfaltar o caminho e, quem sabe mesmo, ainda nasça uma auto-estrada imponente, que nos faça ir do ponto A ao ponto B enquanto o Diabo esfrega um olho.

 

Também nós temos caminhos internos, neuronais, que nos permitem aceder a informações e estados emocionais ou somáticos. E quanto mais os percorremos, mais esses caminhos se estabelecem, gravam, ampliam, se tornam mais fluidos e rápidos. Há apenas um pequeno detalhe operacional que nos obriga a prestar atenção: o nosso corpo é basicamente amoral, ou seja, não tem qualquer noção de certo-errado, bom-mau, excepto no que diz respeito à sobrevivência do organismo. Por isso, tanto permite um caminho para o recanto mais paradisíaco, como um outro directo ao ermo mais inóspito e solitário – se o mandar ir por aí, é por aí que ele vai!

 

Agora lembre-se de todos aqueles momentos que se permite remoer sobre ofensas e preocupações várias, ou se deixa ficar a observar os filmes gravados na sua memória sobre as partes más da sua vida, ou a criar cenários futuros de negrume e catástrofe. De cada vez que o faz, acede ao estado interno correspondente, feito de pensamentos, conclusões, emoções e reacções corporais. De cada vez que o faz, ensina o seu organismo a aceder a esse estado interno de forma mais rápida e eficiente. De cada vez que o faz, contribui mais um pouco para uma auto-estrada de acesso a esse estado interno. Má ideia!

 

Mas se, em alternativa, trouxer à consciência, de uma forma pró-activa, os estados que gostaria que lhe estivessem mais acessíveis de uma forma quotidiana e os mantiver “acesos” por um ou dois minutos, várias vezes ao dia (vá, uma ou duas, se for uma pessoa horrivelmente ocupada…), estará a contribuir para uma rede viária interna que o leva direitinho ao bem-estar! Boa ideia, certo?

 

E como fazer? Nada mais simples! Aproveite os minutos de desperdício que pontuam os seus dias – todos os temos! São os semáforos fechados, as filas de trânsito, a pausa para anúncios a meio da série de TV favorita, aqueles momentos das reuniões em que falam mas não dizem nada, a espera para ser atendido na caixa do supermercado, o tempo do duche e até o de lavar os dentes… Todos somados, têm por resultado muito tempo diário que pode ser aproveitado para a construção de estradas internas que nos levem directos a bem-estar e ao pleno usufruto do nosso potencial intelectual, criativo e emocional.

 

Nesses momentos, traga à recordação uma memória que lhe transmita algo de positivo: um exemplo de auto-confiança ou de se sentir estimado, de orgulho pessoal ou de competência, de relaxamento ou de alegria. Escolha o que lhe parecer mais adequado à forma como se pretende sentir nesse momento. Se tiver dificuldade em encontrar uma recordação que corresponda à emoção desejada, encontre o que de mais próximo consiga ou, em alternativa, crie a imagem de um bom modelo da qualidade que gostaria de ter neste momento. Com essa recordação ou exemplo bem presente no seu espírito, visualize-a tão nitidamente quanto possível, incluindo todas as componentes sensoriais que lhe pertençam. Talvez esse seu modelo tenha uma voz ou riso muito característico – consegue escutá-lo? Talvez a sua memória de um acontecimento vivido contenha um cheiro ou uma qualidade de temperatura especial que lhe ficou associado – consegue senti-lo? Agora repare como o facto de estar a aceder a essa recordação ou modelo o faz sentir; repare como o seu corpo reage, as emoções que sente.

 

E permaneça durante esse minuto que, de outra forma, teria sido desperdiçado apenas embrenhado nas sensações, a deixar-se fluir com elas. E, em cada minuto subsequente de desperdício, faça o mesmo. E sempre que sentir que o seu espírito resolveu ir passear por caminhos que não lhe interessam, apenas são destrutivamente negativos, repita este exercício. De cada vez, traçando a sua estrada de acesso às emoções e qualidades que lhe são úteis, para que se torne progressivamente mais fácil, quase automático, chegar a um destino onde possa ser feliz e cumprir o seu potencial.

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publicado às 12:11



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