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Autora: Lúcia Bragança Paulino

 

 

Psicóloga Clínica

 

 

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Lúcia Bragança Paulino

 

Antes de um bebé aprender a falar, ele ou ela baseiam-se essencialmente em sinais não-verbais e expressões faciais para comunicar.

 

Os bebés também espelham esses sinais/pistas, e ao fazê-lo descobrem as emoções que estão associadas a estas pistas.

 

Num estudo recente publicado no Journal of Basic and Applied Social Psychology, Investigadores da Universidade de Wisconsin avaliaram 100 crianças e descobriram que rapazes de 6 e 7 anos que usaram intensamente a chucha eram piores a imitar emoções emitidas por rostos num vídeo.

 

Também foram entrevistados 600 estudantes universitários e descobriu-se que os jovens masculinos em idade universitária cujos pais relataram que tinham utilizado chupetas, obtiveram as menores pontuações em testes medindo a empatia bem como na capacidade de avaliar o humor dos outros.

 

Para as raparigas e jovens mulheres, os pesquisadores descobriram que não existiam diferenças significativas na maturidade emocional no uso da chupeta.

 

No entanto outros estudos expressam que as mulheres tendem a ser mais precisas tanto a expressar como a ler pistas emocionais. Não se sabe exatamente como este processo ocorre mas uma das razões pode ser que os pais no geral incentivam mais as raparigas a ler as emoções.

 

Uma vez que dos rapazes não se espera uma resposta tão emocional como a das raparigas, os pais poderão não compensar o uso da chupeta ajudando-os a promover o desenvolvimento emocional de outras formas.

 

E o seu filho, usa chucha?

 

http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/01973533.2012.712019

 

 

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publicado às 10:17

Haverá Emoções Positivas e Negativas?

por oficinadepsicologia, em 24.11.12

Autor: António Norton

 

Psicólogo Clínico

 

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António Norton

 

É comum ouvirmos falar sobre emoções positivas e negativas.

Quantas vezes cada um de nós já ouviu expressões como “o importante é estar feliz e tristezas não pagam dívidas”?

 

Certamente já terá ouvido e lido sobre teorias que dividem as emoções entre positivas e negativas. Dentro desta linha de raciocínio, são consideradas emoções positivas: a alegria, a felicidade, a euforia, entre outras. O polo negativo é atribuído a emoções como a tristeza, a raiva, o ódio, o rancor, o desespero, o medo, a cólera, a ira, o nojo, entre outras.

 

O meu desafio agora é o de pensarmos um pouco sobre esta dicotomia, ou melhor dito, esta abstração que fazemos, ao atribuir categorias de bem e de mal a estados emocionais. No fundo, dizer que uma emoção é boa e logo, positiva, ou má, e logo, negativa.

Vamos partir de algumas ideias centrais, tendo como base o ser humano.

 

Qualquer emoção serve um fim adaptativo.

Uma emoção funciona como uma mensagem que informa sobre como nos sentimos face a uma situação externa, factual e real ou interna, íntima, privada e interior.

 

Vou procurar clarificar estas ideias com um exemplo:

O João ficou triste quando se foi despedir da sua namorada, que partiu para outro país à procura de emprego.

Perante uma situação factual, existe uma mensagem que é comunicada ao João, de modo que ele percebe que a partida de Maria o faz ficar triste.

Uma situação interna poderá ser, ainda voltando ao exemplo do João: O João está em casa, sozinho. Lembra-se da partida de Maria e fica triste. A lembrança de Maria - acontecimento interno - fá-lo ficar triste.

 

Portanto, qualquer emoção tem, essencialmente, um carácter informativo, seja perante uma situação interna ou externa.

 

Voltemos a esta ideia das emoções negativas:

É portanto comum considerarmos a zanga, a tristeza, o ódio, a cólera, como emoções negativas. Mas será que verdadeiramente é assim?

O que aconteceria se, por vezes, não sentíssemos tristeza, zanga, ódio ou cólera?

 

Qualquer destas emoções, ditas negativas, informa sobre como nos sentimos.

É fundamental que fique claro que as emoções existem para ajudar-nos, proteger-nos e fazer superar os desafios da vida. Não há “maus da fita”.

Existem situações e deverão sempre existir que fazem com que estejamos tristes ou zangados, ou mesmo com raiva.

 

Voltemos ao exemplo do João: se o João fica triste porque a Maria se foi embora, então essa tristeza poderá significar que o João tem afecto por Maria e que ela é importante na sua vida. 

 

Se o João descobre que Maria o anda a enganar, então, dará lugar à zanga. A zanga, tal como qualquer outra emoção, existe para ser considerada. Ficar zangado indica que o João se sente traído, magoado, vulgarizado, humilhado e enganado.

 

Se o João descobre que a Maria goza com o seu afecto e o ridiculariza, é natural que a odeie.

 

Se o João é raptado e torturado, é natural que sinta cólera, o que o poderá levar a encontrar a agressividade necessária para matar o criminoso em legítima defesa.

 

Penso que todos estamos de acordo relativamente à utilidade do aparecimento destas várias emoções nos exemplos apresentados.

 

Agora vamos imaginar que o João considera a tristeza, a zanga, a cólera, o ódio como emoções negativas e logo alvos do seu evitamento, e vamos imaginar alguns cenários possíveis:

Passado pouco tempo da partida de Maria, o João recebe a notícia que a sua irmã Teresa morreu. João não acede à tristeza e sem perceber como, começa a ficar súbita e “estranhamente” ansioso, zangado com a vida, perde a concentração e abusa no consumo de drogas de forma a tapar o “vazio que teimosamente se instalou”.

 

O João descobre que Maria o traiu, mas decide não se zangar. Como consequência, Maria poderá continuar a traí-lo e a humilhá-lo. Se o João não sentir legitimamente esta zanga também não poderá tomar decisões sobre se quer ou não continuar com a Maria.

 

Finalmente, vamos imaginar que o João não acede ao ódio e à cólera perante uma situação limite em que foi vítima de rapto e de agressividade física. Se o João não aceder a tais emoções poderá morrer nas mãos de um criminoso.

 

As emoções ditas negativas existem por algum motivo. Não são o “lado negro do ser humano”.

 

O mais importante é escutarmos sempre as nossas emoções e se o fizermos poderemos ter outro equilíbrio emocional.

 

Mas será que existem situações em que as emoções poderão ser consideradas negativas?

Existem situações em que poderão ocorrer estados de desregulação emocional. Estes estados ocorrem quando uma emoção não muda, apesar da variabilidade de contextos internos ou externos. A permanência destas emoções poderá conduzir a mal estar físico e psicológico, conferindo uma valência negativa às emoções.

 

Eis alguns exemplos: a tristeza recorrente e contínua, ou a zanga que parece não terminar, mesmo se o alvo da zanga possa já ter falecido. Aí sim, as emoções tornam-se negativas.

 

 

Concluindo,

o que confere uma valência negativa a uma emoção não é a emoção em si mesma, mas sim a sua estaticidade temporal, a sua continuidade e invariância, apesar da variabilidade de contextos quer internos, quer externos.

 

Se o João ficar sempre zangado mesmo após ter terminado a sua relação com a Maria, então essa zanga, pela sua durabilidade e ausência física própria de um contexto de manifestação, é negativa e prejudicial.

Já não é suposto estar zangado e se essa atitude assim se mantém, tal é sinal de desregulação emocional.

 

Se se sente continuamente invadido por uma emoção, deverá então procurar a ajuda profissional de um psicólogo clínico.

Pense nisso!

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publicado às 14:22

Expressão de Emoções e Necessidades em Casal

por oficinadepsicologia, em 18.11.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

 

Psicóloga Clínica

 

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Joana Fojo Ferreira

 

Amamo-nos muito mas não funciona, não nos conseguimos entender!

 

As relações íntimas de casal são uma área particularmente importante das nossas vidas, mas apesar de as desejarmos muito e de tendermos a sentir-nos incompletos, não totalmente realizados sem elas, a realidade é que gerir a relação não é fácil e mesmo havendo amor, nem sempre a relação flui; às vezes parece não funcionar.

 

O que é que acontece? Apesar de numa relação termos à partida um objectivo comum (alimentar a relação, mantê-la viva e saudável), não deixa de ser verdade que temos duas pessoas na equação, muitas vezes com registos de funcionamento diferentes, cujo contraste pode criar choque e este choque, prolongado no tempo, cria padrões de interacção desadequados com uma escalada de frustração, agressividade e/ou afastamento.

 

Quando dentro destes ciclos desadequados de interacção, as dificuldades são duas:

 

Primeiro é muitas vezes difícil para cada elemento do casal aceder ao que está a sentir. Começa-se a funcionar em modo automático, em que atacamos o outro e nos defendemos dos ataques do outro, sem conseguir parar para pensar "o que é que está a acontecer comigo, dentro de mim, o que é que eu estou a sentir que faz com que eu haja desta forma agressiva ou, pelo contrário, demasiado distanciada"?

 

Segundo é muito difícil partilhar de forma adequada o que se está a sentir e o que precisaríamos do outro, da relação, e tendemos a ser críticos e culpabilizantes do outro, apontar-lhe o dedo, crê-lo intencionalmente agressivo ou negligente, mais do que verdadeiramente expressarmos as nossas vulnerabilidades, as nossas angústias, as nossas emoções, as nossas necessidades.

 

No sentido de tentar quebrar estes ciclos e de tanto aceder como expressar emoções e necessidades em casal, sugiro o seguinte exercício[1]:

Numa folha de papel desenhe um esquema, uma tabela, em que coloca 6 colunas com os seguintes títulos sequencialmente: Situação, Reacção emocional, Reacção comportamental, Emoção de base, Necessidade geral, Necessidade específica. E comece a preencher. Como? Pense: Quando tu… (situação), eu sinto-me… (reacção emocional), e reajo… (reacção comportamental). Isto esconde o meu/a minha… (emoção de base). O que eu realmente preciso é… (necessidade geral) e portanto preciso… (necessidade específica).

 

Deixo um exemplo: Quando tu chegas tarde, eu sinto-me zangada e reajo criticando-te. Isto esconde a minha ansiedade e sentimento de rejeição. O que eu preciso realmente é sentir que sou importante para ti, e portanto preciso que tu me ligues a avisar que vais chegar mais tarde.

 

Desta forma, a nossa activação emocional tende a baixar e a receptividade do outro à nossa necessidade tende a aumentar. É como se encontrássemos aqui um ponto de equilíbrio em que conseguimos comunicar um com outro, cria-se um espaço para ouvir e ser ouvido.

 


[1] do livro Emotion-focused couples therapy: The dynamics of emotion, love, and power de Greenberg & Goldman (2008)

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publicado às 20:34

A culpa é da culpa

por oficinadepsicologia, em 27.10.12

Autor: Francisco de Soure

 

Psicólogo Clínico

 

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Francisco de Soure

Se formos à rua de papel e caneta na mão e perguntarmos a cada transeunte com o qual nos cruzemos qual a emoção que mais o perturba ou lhe é mais desagradável, quase seguramente a culpa figurará entre as respostas mais frequentes. A combinação de vergonha, zanga connosco próprios, medo de sermos castigados e desilusão que sentimos é um cocktail poderosíssimo que, invariavelmente, deixa um amargo sabor na boca.

 

Na verdade, sentir culpa é como sentir uma onda de reprovação de nós próprios, que vai muito além do reconhecimento de que somos responsáveis por um desfecho desagradável. Quando nos responsabilizamos, aceitamos que o nosso comportamento precisa de ser melhorado, e reorientamo-nos de forma a ir de encontro a essa melhoria.

 

A culpa assume a forma de um conjunto de afirmações gerais a respeito de nós mesmos – “és sempre a mesma coisa”; “vai ser tudo horrível, e a culpa é toda tua”; “és inaceitável” – que acaba por ser muito pouco específico e orientado para comportamentos concretos, resultando apenas num mal estar que não convida a crescimento. Curiosamente, a maioria de nós diria, intuitivamente, que a culpa serve precisamente para prevenir mau comportamento futuro.

 

Na verdade, a experiência vai demonstrando algo diferente. A culpa está para a aprendizagem como o pânico está para uma resposta imediata de fuga: são respostas tão exageradas que perdem por inteiro a sua eficácia.

 

Se é verdade que o medo despoleta um conjunto de reacções no nosso corpo que podem assegurar as condições motoras para escapar a uma situação de risco, o pânico tende a paralisar ou gerar descontrolo. Da mesma forma, se a responsabilização conduz a uma atitude proactiva de mudança, a culpa tende a gerar tanta aversão à ideia de voltar a sentir o que sentimos que procuramos a todo o custo o confronto com a situação.

 

Assim, quando voltarmos a deparar-nos com essa mesma situação, as respostas que teremos serão as que já tínhamos… e resultaram em consequências que nos deixaram a sentir culpados! Pesado, não é?

 

Já no berço da Psicologia como a conhecemos, Sigmund Freud apontava o excesso de culpabilidade como um dos principais contribuintes para o aparecimento de sintomas depressivos. E, na maioria das pessoas deprimidas, a culpa parece ser um dos mais evidentes factores depressogéneos. De tal forma que o DSM-IV-TR, um dos principais manuais de diagnóstico psiquiátrico, elenca a percepção excessiva de culpabilidade como um dos sinais a considerar ao fazer o diagnóstico.

 

Se, no plano teórico e da observação clínica, associar a presença de culpa ao aparecimento de depressão fazia sentido, um estudo recente da Universidade de Manchester veio dar tremenda força a estas ideias.

 

A equipa de investigação de Roland Zahn conseguiu, através de técnicas avançadas de ressonância magnética, demonstrar diferenças significativas entre o padrão de activação cerebral de pessoas deprimidas e não deprimidas. Quando era pedido aos participantes do estudo que pensassem em comportamentos socialmente reprováveis, as diferenças eram notórias. Os participantes com um historial de depressão mostravam uma activação incongruente da região temporal anterior do cérebro – onde está armazenada a informação sobre comportamento socialmente aceitável – e da região subgenual do cérebro – a região caracteristicamente associada a sentimentos de culpa.

Esta alteração contribuirá para que se sintam culpadas de forma excessiva, contribuindo drasticamente para os sintomas.

 

Deixamos-lhe a questão: dá por si regularmente a sentir-se culpado/a? É frequente ouvir as pessoas dizer-lhe que é duro demais consigo?

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publicado às 19:42

O sofrimento que vem para a terapia

por oficinadepsicologia, em 26.10.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

 

Psicólogo Clínico

 

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Pedro Diniz Rodrigues

Para muitos de nós, existem momentos na vida em que a possibilidade de convivência com o sofrimento não é uma tarefa que seja possível de ser considerada.

 

Nestas alturas, a ferida interna é demasiado grande para que consigamos encará-la diretamente. Por muito que nos esforcemos para a ignorar, ela parece arranjar formas alternativas de nos dizer que está presente, continuando indefinidamente a condicionar a qualidade da nossa experiência de vida.

 

Damos por nós a cair no paradoxo de nos protegermos deste desconforto interno, adoptando estratégias que embora nos dêem um alívio imediato, têm o efeito secundário de assegurar a manutenção desse desconforto.

 

O trabalho psicoterapêutico (individual ou de grupo), permite estar numa atmosfera emocionalmente protegida, que nos ajuda a sentir segurança suficiente, para que possamos encarar com menor receio a causa da nossa dor, observando com maior clareza os seus contornos e podendo assim compreender melhor a forma como nos está a condicionar.

 

É difícil lidar com o que vemos. A falta de sentido que aqui emerge e que assenta na ambivalência e nas contradições entre os nossos pensamentos, emoções e sentimentos, coloca em causa a nossa identidade e abala a nossa auto-estima.

 

Os nossos valores que sempre nos asseguraram o desejado sentido de identidade e que nos disseram como viver, dizem-nos também para ignorar esta outra parte de nós que agora se manifesta de forma dolorosamente evidente e que nos dá a entender que não estamos a seguir pelo melhor caminho.

 

Entramos numa fase de convivência indesejada, mas aparentemente necessária com esta ferida simbólica, o que acaba por nos dar acesso ao motivo associado com o seu aparecimento, dando aso a que, posteriormente, lhe possa ser dado um significado.

 

Ou seja, a fonte da nossa depressão, fobia, culpa, ou vazio existencial, passa a ter agora uma explicação que, dentro de nós, sabemos que faz sentido. Torna-se importante aqui, perceber o que impede a natural expressão desta voz menos conhecida, que até aqui reivindicava a sua existência sem percebermos porquê.

 

Entramos numa fase de responsabilização de nós mesmos pela manutenção do nosso sofrimento, a qual ocorre à medida que vamos ganhando consciência do que estamos a fazer para manter situação dolorosa e do motivo pelo qual ainda precisamos fazê-lo.

 

Simplificando, a lacuna entre a causa do sofrimento e o seu produto final, que se traduzia na dor emocional que sentíamos, desaparece progressivamente, passando a ser mais claro para nós o que estava a manter o sintoma de desconforto.

 

Este é um momento emocionalmente significativo, uma vez que é conquistada a liberdade de escolha, que permite abandonar a pouco e pouco os nossos velhos padrões desadaptativos. Aplicando esta lógica às várias fontes de dor subjectiva que possamos sentir, pretende-se que ao longo da nossa vida, nos permitamos a ter contacto com uma variedade de experiências negativas que até aqui evitávamos, estando mais permeáveis à sua influência, mas também mais resistentes ao seu potencial impacto negativo. Aceitamo-las melhor, olhando-as agora enquanto algo que tem um significado e uma função importante no sentido de nos manterem psicologicamente saudáveis.

 

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publicado às 10:54

Quais as relações que passam o teste do tempo?

por oficinadepsicologia, em 11.10.12

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

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Isabel Policarpo

Aquilo a que nós chamamos amor, é talvez uma das áreas mais estudadas, mas também uma das áreas menos compreendidas em psicologia. É possível que os diferentes estudos efectuados nesta área, tenham cometido o erro de não realizar a investigação junto das pessoas “certas”.

O psicólogo K. Daniel O’Leary no sentido de ultrapassar essa lacuna realizou um estudo com casais, que vivem em conjunto há pelo menos 10 ou mais anos. Esse estudo, não só demonstrou que muitos casais ainda se amavam e estavam envolvidos após 10 ou mais anos de relação, como permitiu identificar os factores que ajudam a manter o amor vivo.

 

Acresce que os resultados desta investigação, contrastam fortemente com a visão sombria que habitualmente subsiste das relações de longa duração. Ao inverso do que seria expectável, as pessoas não estão condenadas a uma existência medíocre e sem graça, dado que uma parte significativa dos casais envolvidos no estudo detinha sentimentos positivos e de entusiasmo saudável em relação aos seus cônjuges, apesar das décadas de vida conjunta.

 

As teorias psicológicas sobre o amor referem que características, como a paixão, o compromisso, a intimidade, as necessidades emocionais e/ou a capacidade para comunicar, se afiguram como dimensões por excelência para predizer o grau de intensidade da relação. Mas quando se trata de predizer quais os relacionamentos que vão manter o amor ao longo do tempo, como será?

 

A pesquisa de O’Leary sugere que as pessoas que se mantêm mais intensamente apaixonadas, são aquelas que a par de uma forte atracção romântica, se envolvem conjuntamente em actividades novas e desafiadoras de auto- desenvolvimento.

Que outras dimensões que se revelaram importantes para predizer a longevidade da relação?

 

Pensar positivamente sobre o seu companheiro(a) é um aspecto relevante, na medida em que significa que é capaz de se concentrar nas qualidades pessoais do seu parceiro, no que este tem de bom e positivo. De um modo geral, remoer sobre as coisas que incomodam, só conduz a ampliar as fraquezas. As pessoas que estão envolvidas em bons relacionamentos, tendem a lembrar mais as experiências favoráveis que vivem em conjunto, do que as desfavoráveis.

 

Quando você deixa o seu parceiro durante algum tempo, você esquece-se da sua existência? Para você é fora da vista, fora do coração? Se assim for, este pode ser um sinal de que você não está muito envolvido nem apaixonado.


Pensar no seu parceiro(a) quando estão separados, surge como outro parâmetro importante. Não temos que gastar cada segundo do nosso tempo a suspirar ansiosamente pelo nosso parceiro, mas será expectável que de onde em onde nos recordemos dele.

 

Também a dificuldade em concentrar-se em outras coisas quando pensa sobre o seu companheiro(a) pode ser reveladora. Se é capaz de anular os seus pensamentos sobre o seu parceiro sem muito esforço, isso sugere que o ele ocupa apenas uma pequena quantidade da sua “carga cognitiva”.

 

Outra dimensão relevante prende-se com o passar tempo em conjunto e divertir-se em actividades novas e desafiadoras. O tempo que passam em conjunto surge como uma variável importante, mas não se trata apenas da quantidade de tempo, mas da qualidade do tempo que passam juntos, sendo esta aquela que mais influencia a satisfação com o seu relacionamento. O tempo conjunto deve incluir algumas actividades novas e desafiadoras, mas também as actividades domésticas e corriqueiras quando realizadas pelos dois podem aumentar a intensidade do amor - jardinagem, cozinhar, fazer compras e até mesmo limpar a casa são formas de reforçar o amor um pelo outro.

 

A expressão de afecto surge também como um preditor da longevidade da relação. Sentir amor pelo companheiro(a) é importante, mas importa igualmente expressar esse amor de forma física. Os pequenos toques de carinho permitem não só aumentar a ligação emocional com o parceiro, como também atiçar o desejo. Os respondentes que relataram amor mais intenso pelo seu parceiro no estudo O'Leary, disseram que sentiam os seus corpos responder quando o seu parceiro lhe tocava. Não é nenhuma surpresa que a relação sexual é uma expressão positiva da intensidade do amor. As pessoas apaixonadas são mais propensos a ter relações sexuais numa base regular. A actividade sexual constrói e mantém sentimentos de amor e de felicidade capazes perdurar no tempo.

 

Finalmente ter uma forte paixão pela vida afigura-se como uma dimensão de relevo. As pessoas que se aproximam da sua vida diária com entusiasmo e emoções fortes, parecem levar esses sentimentos intensos também para a sua vida amorosa. As pessoas que se sentem mais felizes com a vida têm também sentimentos mais fortes de amor para com seus companheiros. Os sentimentos de angústia pessoal, tendem a extravasar e a provocar sofrimento no relacionamento.

 

Os relacionamentos próximos são uma peça central do nosso sentido de identidade, ao mesmo tempo que são fundamentais para os nossos sentimentos de satisfação. O que pode esperar do seu relacionamento? Será que ele “tem pernas para andar”?  

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publicado às 10:23

Depressões zangadas

por oficinadepsicologia, em 10.10.12

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

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Francisco de Soure

Num artigo anterior, tive a oportunidade de ilustrar a utilidade da zanga enquanto emoção promotora da qualidade de vida, e protectora dos nossos limites individuais. Vimos a forma como a sua repressão e expressão excessiva (e, por vezes, como uma implica a outra) podem trazer-nos dissabores, assim como os claros benefícios que podem advir da sua expressão adequada.

 

Neste artigo, vamos poder olhar para as consequências a longo prazo da expressão desadequada de zanga para a nossa saúde mental. Tomemos como ponto de partida uma consideração fundamental que foi referida no anterior artigo: a zanga é a emoção que nos permite estabelecer limites, desempenhando um papel fundamental na regulação das nossas relações com os outros.

 

Para todos nós, existe um conjunto de necessidades psicológicas básicas que necessitam ser supridas de forma a assegurar a nossa saúde mental. A segurança, afecto, suporte emocional, autonomia e lazer são apenas algumas destas necessidades. Quando estas necessidades não estão satisfeitas, surgem dificuldades, muitas delas configurando quadros de perturbação psicológica. Por exemplo, a maioria das pessoas que sofrem de ansiedade não têm a sua necessidade de segurança satisfeita. Vivem com uma sensação profunda (e, muitas vezes, não reconhecida) de vulnerabilidade. Seja uma vulnerabilidade física (aprendida, por exemplo, ao longo de anos de agressões físicas às mãos de figuras de cuidado, ou de sofrimento físico causado pela negligência das mesmas), seja uma vulnerabilidade emocional ou social (aprendidas com experiências de humilhação ou abuso emocional), esta resulta uma constante quase subentendida na sua experiência de estar vivos. Esta vulnerabilidade sentida origina uma expectativa permanente de risco pessoal, que resulta num estado ansioso. Com expressões tão diversas, entenda-se, como a perturbação de pânico – na qual expressamos um medo desadequado da possibilidade de sofrer repentinamente perigo de vida ou de descontrolo total – ou a ansiedade social – a expectativa permanente de sermos avaliados muito negativamente pelos outros, com consequências catastróficas. É através da expressão das emoções que regulamos as nossas relações com os outros de forma a garantir a satisfação destas necessidades – por exemplo, num contexto adequado, a expressão adequada de medo por parte de uma criança conduz a que os seus pais procurem protegê-la. O exercício continuado destas emoções permite-nos criar uma expectativa de que, caso expressemos as nossas emoções de uma forma adequada, as nossas necessidades serão satisfeitas como resposta. Quando isto não acontece, o quadro torna-se muito diferente.

 

No caso particular da zanga, temos duas situações. Quem aprende desde cedo que só uma expressão constantemente intensa e agressiva da zanga consegue estabelecer os limites, tende a generalizar esta expressão agressiva em todas as situações nas quais sente que os seus limites estão a ser infringidos. Todos conhecemos alguém assim. Aquela pessoa que reage agressivamente de forma inesperada sempre que lhe é feito um pedido, ou reage constantemente com agressividade a brincadeiras que pretendemos ser inofensivas. Ou aquela pessoa que dá sempre feedback aos outros com “sete pedras na mão”. O contrário também conhecemos, seguramente. A pessoa que parece aceder a todos os pedidos e exigências sem argumentação. A pessoa que fica sem reacção quando confrontada, e parece acatar docilmente afrontas e insultos. Muitas vezes, a pessoa que parece explodir quando menos esperamos…

 

Imaginemos, por um momento, o efeito destas situações a longo prazo para ambos os estilos de expressão de zanga. A primeira, seguramente, sentir-se-á frequentemente distante dos outros. A sua zanga será reciprocada com zanga, pelo que será provável que sinta também que os outros levam sempre a mal quando estabelece limites. Sentirá que os seus limites não são respeitados, já que quando os estabelece estas tentativas são sempre correspondidas com mais agressão. Como se nunca fosse verdadeiramente aceite e respeitada. Já a segunda estará regularmente a privar-se de necessidades como tempo pessoal, o livre uso de recursos pessoais como a energia, o dinheiro, ou o seu espaço físico. A vida pode tornar-se muito pouco gratificante para quem parece estar sempre disposto a abdicar. Com o tempo, a repetição destas formas de abuso poderá resultar numa crença como: “eu tenho o que mereço. Se tenho muito pouco, deve ser porque mereço muito pouco”, ou “se os outros gostam de mim, tratar-me-ão bem. Se me tratam mal, deve ser porque não há grandes motivos para gostar”. Qualquer um destes cenários pinta um quadro de crónica insatisfação. Necessidades como a aceitação social, autonomia pessoal, privacidade, ou lazer poderão ser das mais afectadas.

 

Qualquer um de nós conhecerá seguramente alguém que já viveu uma depressão. Quem escutou o seu sofrimento, reconhecerá seguramente muitas destas privações como parte das queixas que quem está deprimido elenca: sentir que não é apreciado pelos outros; sentir que nada vale a pena porque os outros nunca o permitirão/respeitarão; sentir que o seu valor pessoal é diminuto; sentir-se encurralado por circunstâncias nas quais os outros parecem nunca estar disponíveis para ir de encontro às suas necessidades. Não pretendo, de modo algum, advogar que a expressão desadequada de zanga é a causadora exclusiva de aparecimento de sintomas de depressão. Tal alegação teria tanto de redutora como de absurda. No entanto, parece-me inegável que a dificuldade na expressão da zanga se pode constituir como um potentíssimo ingrediente no seu desenvolvimento.

 

Ao longo dos anos, a prática clínica tem-me posto em contacto com dezenas de pessoas com sintomatologia depressiva. Estaria a mentir se as dificuldades no estabelecimento de limites não fossem algo relatado pela vastíssima maioria destas pessoas. Num recente grupo de Depressão, como é regular realizar na Oficina de Psicologia, 6 dos 7 membros do grupo tinham nesta dificuldade o principal motivos das situações que precipitaram a sua situação. Da esposa que não conseguia que o marido regulasse as invasões de privacidade dos seus sogros, à mulher de meia-idade que não conseguia demonstrar aos seus filhos e amigos que determinados pedidos excediam a sua capacidade de lhes dar satisfação sem se sacrificar, o resultado era muito semelhante. Todas estas pessoas sentiam as transgressões que sofriam como o resultado da falta de valor pessoal, ou de afecto daqueles de quem gostavam

 

Deixo-lhe um convite: reflicta sobre a forma como estabelece limites. Sobre a forma como se posiciona face às suas necessidades e dos outros. O que quer partilhar connosco?

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publicado às 12:39

A propósito do "coração partido"

por oficinadepsicologia, em 09.10.12

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

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Isabel Policarpo

E quando o nosso parceiro de longa data, de repente foge e se muda para casa da outra? Como sobreviver à saída inesperada e abrupta do marido, sobretudo quando se acreditava estar num casamento feliz e seguro?

 

Muito tempo depois desse “dilúvio” muitas são as mulheres que continuam a sofrer intensamente. Muitas perguntam: "Mas será que eles nunca sentem remorso?". É comum os maridos justificarem as suas escolhas, culpando as companheiras pelas suas ações – ou seja, listando tudo o que não estava certo no casamento como desculpa.

 

A mulher é capaz de examinar as explicações dele durante meses, vezes sem conta na sua mente, para mais tarde chegar à conclusão de que se ele ao menos conseguisse dizer "desculpa" e realmente o sentisse, isso contribuiria para a libertar do longo caminho da sua dor.

Poucos são os homens, que mesmo após a poeira baixar, são capazes de expressar remorso. O que não quer dizer que realmente não o sintam. Mas a perspectiva de uma conversa de coração a coração com a pessoa que tão gravemente se feriu, não é algo que ninguém aprecie, pelo que seria necessário uma alma muito corajosa para se voluntariar a fazê-lo. Mas esta incapacidade leva muitas vezes a mulher a sentir-se presa e incapaz de sentir alívio.

 

O ponto de viragem para muitas mulheres que vivenciam situações semelhantes, surge no entanto quando elas são capazes de arrancar a sua visão do passado, e se viram para olhar para o seu próprio futuro. Nem sempre é possível fechar o círculo, diria que é mesmo um luxo que não temos sempre a sorte de desfrutar. Mas é exactamente a busca contínua de fecho, que mantém a mulher presa.

É irrealista esperar por um tempo em que você não vai mais ter uma pontada de tristeza ou mágoa quando ouvir no rádio a “vossa música” e não importa quanto tempo passou. Isso é da natureza humana. Mas o objetivo é ter de volta a sua vida nas suas próprias mãos e lutar para se sentir bem e feliz, apesar da mágoa que experimentou.

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publicado às 11:05

Desejo, paixão, amor e... cérebro!

por oficinadepsicologia, em 07.10.12

Autor: André Viegas

Psicólogo Clínico

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André Viegas

Vários são os panos de fundo que remetem para as relações humanas, para aquilo que une, desune, para o que agrada e desagrada, para o que dói e para o que dá prazer.

 

Bastantes casos em psicoterapia traduzem vivências de sofrimento psicológico inerente a desligações relacionais; outros, traduzem alguma frustração pelo sentir do enfraquecimento da intensidade da ligação que, muitas vezes é perfeitamente natural.

Fazendo um enfoque nas relações amorosas, uma vez que é comum ouvir-se frases como:  ”(…) já não era como no início…estou preocupado(a), com medo que acabe (…)”, introduzirei uma justificação psico-biológica para tais sentimentos.

 

As várias posições científicas na área convergem no considerar que o amor acontece no cérebro através de um conjunto de reacções de índole química.  

 

A primeira fase é chamada “fase do desejo” e é desencadeada pelas nossas hormonas sexuais, a testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres.

 

Quase paralelamente, “fase da paixão”, uma das primeiras reacções é a secreção de um neurotransmissor chamado feniletilamina que provoca sentimentos de excitação, prazer, gerando sentimentos de alegria (“estou apaixonado(a)”). A feniletilamina controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e é um composto químico com um efeito poderoso sobre nós, tão poderoso, que pode tornar-se viciante. O nosso corpo desenvolve naturalmente a tolerância aos efeitos da feniletilamina e cada vez é necessário maior quantidade para provocar o mesmo efeito (Ribeiro-Claro, 2006). Ao mesmo tempo são libertados outros agentes químicos como a dopamina. Por outro lado, as glândulas supra-renais libertam adrenalina que justificam a sensação de nervosismo, como a falada “borboleta na barriga”, aceleração do ritmo cardíaco e outros sintomas que sucedem quando um pessoa está posicionada perante situações de ansiedade (e.g. mãos suadas).

 

Posteriormente, “fase de ligação”, uma das hormonas produzidas é a oxitocina, conhecida como a hormona do carinho, essencial na ligação mãe-bebé (produção de leite para a amamentação).

Estabelecida uma relação amorosa, o cérebro liberta endorfinas que tem um efeito de relaxamento que provoca os sentimentos de segurança e confiança.
Quando tal sucede, os níveis de feniletilamina descem e os seus efeitos vão enfraquecendo, o que leva a muitas pessoas considerarem que a relação perdeu o interesse e a direccionarem-se para outra relação.

Aparentemente, a feniletilamina é degradada rapidamente no sangue, pelo que não haverá possibilidade de atingir uma concentração elevada no cérebro por ingestão (Ribeiro-Claro, 2006).

 

De forma sucinta, quando conhecemos uma pessoa, assim como quando estamos perante um novo estímulo, desconhecido, o nosso cérebro reage de forma a apreender o novo como um todo, integrando-o numa espécie de base conhecida. Com o decorrer do tempo, perante o mesmo estímulo, como é o exemplo duma relação, adaptativamente o nosso cérebro despende gradualmente menos energia para poder estar disponível para todos os novos estímulos do dia-a-dia, essencial de serem processados. Não seria “económico” para o nosso cérebro gastar sempre a energia máxima perante um único estímulo continuadamente.

 

É interessante pensar nisto!

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publicado às 18:55

A zanga dos mais aptos

por oficinadepsicologia, em 05.10.12

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

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Francisco de Soure

A evolução abençoou-nos, Homem, com uma capacidade fantástica. Algo que assegurou a continuidade da nossa espécie, que nos permitiu sobreviver. Não falo do polegar oponível, da linguagem, nem tão pouco da capacidade de simbolizar pensamentos complexos. Falo de algo muitíssimo mais elementar, que partilhamos com tantos outros mamíferos: a capacidade de sentir e expressar emoções. Cada uma delas tem uma função específica, que permite assegurar a satisfação das nossas necessidades e assegurar o funcionamento dos grupos que nos permitiram sobreviver. A alegria permite-nos fortalecer laços, o afecto assegura que somos cuidados e permanecemos unidos. Por razões que não discutirei aqui, no entanto, parece que algumas destas emoções passaram a ser consideradas por nós como negativas. Talvez por não serem tão agradáveis de experienciar, emoções como o medo, a tristeza ou a zanga foram rotuladas desta forma e são algo que tendemos a evitar. Na verdade, serão tão ou mais importantes que as que chamamos positivas.

 

Para efeitos deste texto, e como resposta a vários pedidos, focar-me-ei na zanga. Esta parece ser a que mais reprovamos no contacto uns com os outros. Se vemos alguém zangar-se, quase todos tendemos a prontamente intervir no sentido de aquietar a situação. Diria mesmo mais: é muitíssimo frequente ver confundidas a zanga com o ódio e a violência. Como consequência muitos de nós somos ensinados a reprimir a expressão da emoção. A acreditar que seremos punidos se nos zangarmos, que perderemos o afecto dos outros, que seremos vistos como tendo uma personalidade difícil, ou mau feitio. É lamentável que assim seja. A zanga é uma emoção muitíssimo útil! É a zanga que nos permite estabelecer limites. Imaginemos os nossos antepassados, homens das cavernas, reunidos em torno de uma fogueira. Imaginemos que um elemento deste grupo tenta apoderar-se do quinhão de carne pertencente ao seu antepassado directo que ali se encontra. No meio selvagem, na ausência de uma estrutura social que o protegesse, a carne que tinha conseguido assegurar poderia representar a diferença entre a vida e a morte: a energia e proteínas que dela obtivesse poderia ser o que determinaria a sua capacidade de escapar a um predador ou elemento de um grupo rival, a sua capacidade de resistir ao frio ou a um ferimento. Na verdade, o momento em que desse por si a ser privado da sua carne poderia determinar a sua morte muito em breve. Apanhado desprevenido, a ausência de reacção permitiria que o ladrão o dominasse fisicamente, ou escapasse rapidamente. A situação exigiria a contracção de músculos e disponibilidade energética imediatas que lhe permitissem dominar o seu adversário. Que emoção lhe parece produzir este efeito no nosso corpo? Qual a emoção que geralmente associamos à contracção forte da musculatura e à predisposição para a luta física?

 

Pois é, caro leitor, é a zanga. Sem zanga, tornar-se-ia francamente mais provável que este seu antepassado se visse privado da sua carne e, quem sabe, da sua vida. Estranho imaginar que entre as centenas de milhares de acontecimentos mais ou menos determinados pelo acaso que resultaram no seu nascimento, muitos deles terão tido a resolução necessária à sua existência graças à adequada expressão de zanga no momento certo, não é? Tomemos este como um exemplo extremado pela simplicidade do meio no qual o observamos. Na verdade, a nossa sociedade revestiu-se de camadas sucessivas de complexidade e sofisticação. Esta sofisticação, felizmente, resultou num estado de coisas no qual serão raras as situações no nosso contexto social (embora não seja o caso em muitos países, infelizmente) nas quais nos vejamos a servir-nos da expressão física da zanga para assegurar a nossa sobrevivência. Mas as manifestações adequadamente mais sofisticadas de zanga continuam a ser absolutamente necessárias para determinar a nossa sobrevivência em planos diferentes: social, económico, profissional, familiar. Perguntar-se-á, e bem, a que manifestações mais adequadas me refiro. Imagine-se no contexto do seu emprego. Um colega dirige-se a si e diz-lhe que, por uma qualquer razão que imediatamente descarta como desculpa esfarrapada, vai ter que sair mais cedo. A implicação desta saída precoce é que, de forma a cumprir um prazo num projecto comum, terá que ficar até mais tarde no trabalho.

 

Naturalmente, com todas as implicações que daqui decorrem: vai chegar mais cansado a casa, ter menos tempo de lazer e repouso, ter problemas com a sua família, e ficar naturalmente frustrado e menos disponível para trabalhar e manter boas relações com os outros colegas no dia seguinte. Imagine as consequências da repetição ao longo dos anos de situações destas. Consegue imaginar o impacto que pode ter na sua saúde (física e mental)? Consegue imaginar que efeito pode ter nas suas relações? O resultado na sua carreira profissional? Posto assim, parece-me evidente tratar-se de facto de uma questão de sobrevivência! Muitos mais exemplos podemos conceber: o familiar que regularmente abusa da sua boa vontade e recursos para os seus próprios objectivos, sem qualquer reciprocidade; o indivíduo que se atravessa à sua frente na fila das Finanças, forçando-o a perder tempo e paciência; o “amigo” que se aproveita dos seus contactos para passar à sua frente numa oportunidade profissional.

 

Contextos muito diferentes, com graus de complexidade muito diferentes do que deparava o seu antepassado, mas com um processo semelhante: a transgressão dos limites pessoais do indivíduo, com claro prejuízo para si. Nenhuma destas situações seria bem resolvida com agressão física, isso parece ser evidente! De facto, se decidisse esmurrar qualquer uma destas pessoas as consequências para si poderiam ser bem mais negativas do que as provenientes da inacção, com o resultado óbvio de que tudo o que perderia se continuaria a perder, com agravantes sociais e, quem sabe, legais. A sofisticação das situações, bem como os limites que a sociedade em si impõe, requerem mais engenho e auto-controlo na expressão da zanga. Um não redondo aplicado no momento certo não é senão a aplicação controlada e calculada de zanga. Uma calma chamada de atenção, suficientemente clara e cortante para que o outro perceba que errou sem sentir ter margem para ripostar de forma agressiva, coloca o outro no seu lugar de uma forma que nos assegura que não existe abuso, nem represália. Deixar clara a nossa insatisfação sem agredir o outro é uma forma sublime de expressar zanga, e uma ferramenta inexcedível para a sobrevivência do Homem moderno. Na verdade, é aquilo a que comumente se chama assertividade, uma palavra bem badalada nos tempos que correm.

 

É, também, uma disciplina. A nossa capacidade para conter a zanga é um recipiente com lotação limitada. De cada vez que “dobramos a língua”, zangamo-nos de qualquer forma, sofremos as consequências, e ainda nos zangamos connosco. Não nos esquecemos da afronta. Acumulamos zangas caladas, depositamos ressentimento. Até ao dia em que a panela de pressão não aguenta mais, e rebentamos de forma desadequada. Nessa altura, explodimos a zanga, queimando tudo à nossa volta. Potencialmente, ferindo relações importantes, prejudicando a nossa imagem, e deixando-nos ainda mais convictos da inconveniência e inutilidade da nossa zanga. Por isso, usemos a zanga como qualquer ferramenta que requer disciplina: de forma consistente, imediata, e regular. Se não a deixarmos acumular, seguramente ser-nos á útil!

 

Será que nos consegue deixar um testemunho de situações em que utilizou, ou viu utilizar, esta ferramenta com sucesso?     

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publicado às 10:56


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