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Descubra o Indiana Jones que há em si!

por oficinadepsicologia, em 26.08.11

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

 

Fabiana Andrade

Numa das formações em que participei, um dos professores (que tive a sorte de ter), disse: olha para os teus clientes como se eles fossem um mundo e tu fosses um explorador!

 

Esta postura quase ingénua, sem ideias pré concebidas, sem expectativas, em Psicoterapia Existencial é chamada de Epoché. Este é um termo grego que significa suspensão de juízo, ou uma atitude que não nega nem aceita uma proposição ou juízo. É uma das fantásticas ferramentas de um terapeuta existencial.

 

Olhar para o cliente com esta “espécie” de ingenuidade, com total abertura, aceitação, curiosidade e interesse, sem ideias pré concebidas, permite-me realmente ver o cliente sem colocar-me a mim (e ao meu mundo) à sua frente. Sempre que recebo alguém no consultório sinto uma vontade enorme de “mergulhar” no mundo daquela pessoa, conhecer todas as suas dimensões, saber como é a experiência daquela pessoa em cada situação. Esta postura permite ao outro não se sentir julgado e ajuda a que perceba que na maioria das vezes quem não se aceita é ele mesmo em primeiro lugar.

 

É fácil ser Indiana Jones? Não! Todos nos habituamos a existir num sistema de valores, de julgamentos, de rótulos. Suspender tudo isso exige consciência e novos hábitos.

Dei por mim a perceber que esta postura é altamente útil não só no consultório, mas em toda a minha vida. Nas minhas relações, no mundo, olhar para tudo com abertura, aceitação, curiosidade e interesse genuínos, ajuda-me diariamente a ser surpreendida, a não esperar dos outros aquilo que eu mesma faria, a não ficar magoada com alguém só porque esse alguém é diferente de mim.

 

 

Ouço os meus clientes rotularem-se e rotularem os outros, a terem expectativas das situações e a ficarem frustrados quando estas não se cumprem, a ficarem magoados com os outros partindo do princípio que sabem as suas intenções. Tudo isso gera mal entendidos, discussões, decisões tomadas sobre princípios errados, e tudo isso é desnecessário!

 

Assim, um dos trabalhos terapêuticos é a construção do “Kit Indiana Jones” onde estão as ferramentas básicas: abertura, aceitação, curiosidade, respiração e interesse. Treinando estas capacidades qualquer um pode ser um explorador de sucesso.

 

Vamos “viajar” através de um exemplo (real) e perceber como a utilização de cada uma das ferramentas pode ser eficaz:

Mariana estava furiosa e magoada com o namorado porque este esquecera de lhe dar uma prenda no dia que comemoravam um ano de relação.

“Como é possível? Eu nunca faria isso, comprei a prenda para ele no mês passado! Estou farta de relações onde eu dou mais do que eles, gosto mais dele do que ele gosta de mim!”

Esta situação quase marcou um ponto final na relação de Mariana e Nuno, no entanto, tentamos que ela utilizasse a postura Indiana Jones antes de decidir sair da relação. O primeiro passo foi tirar do Kit a ferramenta Respiração.

 

Mariana usou a respiração no consultório, mas também com o Nuno, respirando cada vez que se sentia perturbada, zangada e magoada. Esta ferramenta permite que Mariana não responda imediatamente ao que está a sentir, que faça um “check” em seu corpo e observe o que está a sentir ao nível das emoções, das sensações, e também o que está a pensar. Chega assim à consciência do que estava a acontecer no momento presente e utiliza esta informação para trabalharmos. Aqui está o que surgiu:

 

Emoções – rejeição, mágoa, tristeza e zanga

Sensações – aperto no peito e maxilares tensos, cabeça pesada e vontade de chorar

Pensamentos – ele não me ama como eu o amo

 

Chegando a esta valiosa informação fomos capazes de as explorar e chegar a algumas conclusões. Em primeiro lugar Mariana tinha uma história cheia de rejeições (pelo menos foi a forma como interpretou muitas das suas experiências), a começar pela rejeição do pai que foi viver em outro país quando ela tinha 6 anos. Percebeu que sempre que a pessoa não correspondia às suas expectativas ela sentia o mesmo sentimento de rejeição que sentiu muitas vezes ao longo da sua vida.

 

Apareceram também crenças: “ele não me ama”. Mariana associou o comportamento do namorado à intenção por detrás do comportamento e fez o mesmo ao pai e a outros namorados ao longo da vida. “Se ele não me deu uma prenda é porque não me ama”. Não explorou o “mundo” do namorado para entender o que significava o seu comportamento.

 

Aqui, Mariana tirou do Kit a Aceitação, em primeiro lugar do que estava a acontecer consigo mesma, e em segundo lugar, do que poderia estar a acontecer com o Nuno. Este processo permitiu que Mariana olhasse para si como alguém individual, diferente do pai e do namorado, e ao respeitar os seus próprios ritmos, necessidades e valores, sentiu que teria de fazer o mesmo em relação aos outros.

Tirou então do Kit a Abertura, Curiosidade e o Interesse para explorar o que se passava com o Nuno, e percebeu que, criado numa família pequena e mais humilde que a dela, o Nuno cresceu com um sistema de valores diferente do seu. Não recebia prendas dos pais em muitas ocasiões comemorativas e não valorizava as prendas como ela valorizava. Ele simplesmente esqueceu de comprar uma prenda pois nunca foi habituado a fazer isso e não porque não a ama.

 

Ao compreender o que fazia parte de si e o que fazia parte do namorado, Mariana teve sensações e emoções muito diferentes sobre a mesma situação. Passou a ver a situação com “outros óculos”. Ela continuou a ter vontade de receber prendas em situações comemorativas, mas deixou de julgar o namorado, conheceu mais sobre ele e chegaram a uma solução de compromisso. Também parou de interpretar os seus comportamentos à luz da sua própria história e passou a explorar o verdadeiro significado do comportamento do namorado. Mariana, ao suspender o seu juízo de que ele não a amava ficou com o caminho livre para olhar para a situação de uma forma nova e surpreendente.

Esta mudança permitiu que chegassem a um acordo sobre o assunto em causa, mas permitiu também uma mudança qualitativa significativa nesta relação. Além disso, Mariana partilhou sentir-se reeducada a olhar para os outros de uma forma mais aberta, sem julgamentos, trabalhando a mágoa que sentia em relação ao pai da mesma forma, encontrando a paz e o encerramento do assunto.

 

Este é um dos milhares de exemplos em que a pessoa, ao manter uma atitude exploratória (abertura, aceitação, curiosidade e interesse) sobre si, sobre os outros e sobre o mundo, encontra menos obstáculos no seu dia-a-dia e mais surpresas! Vamos tentar?

 

publicado às 10:33


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