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Medo e autonomia

por oficinadepsicologia, em 06.09.11

E-mail recebido

 

"Boa tarde,

Tive conhecimento do vosso site através da minha irmã, e como tem conhecimento da situação que me preocupa, aconselhou-me a pedir ajuda e aqui estou eu ...

Tenho 41 anos, sou casada e temos um filho com 12 (faz 13 a 22 Set) e ele é o motivo da preocupação, é uma criança, penso que mais um jovem, sociável, um aluno razoável, poderia ser melhor mas é muito preguiçoso (o que nestas idades penso que todos são um bocadinho), de um modo geral acho que não me posso queixar, é um excelente filho ...
Mas, o problema é que existem algumas situações que se têm vindo a arrastar ao longo destes anos e que eu não acho que seja saudável para ele (nem para nós pais) continuar a crescer assim:
- tem uma "dependência psicológica" de mim (mãe) que não acho saudável, por exemplo, esteve de férias com a tia, durante uma semana e para além de ligar uma série de vezes durante o dia para saber se estava tudo bem, enviava uma série de msn, se por acaso eu não atendia o telemóvel ou se não respondia naquele instante à msn, ele insiste quase sem dar tempo de eu responder, parece que ele tem que tomar conta de nós e não ao contrário ...

- o meu marido trabalha por turnos e muitas vezes não dorme em casa, logo ele dorme comigo (se calhar não o deveria fazer), mas o dormir é quase em cima de mim, porque a cama é larga, mas a perna, o braço e mais de metade do corpo dele tem que estar agarrado ao meu ! Se for eu a passar uma noite fora de casa, o dormir com o pai já não é problema, ele dorme no quarto dele e não fica aborrecido !

- Quando eu e o pai saímos para o trabalho, quer saber que chegamos bem, acho que tem um pavor de nos perder e de ficar sozinho, que não faz muito sentido !

É um conjunto de situação que não acho que sejam muito normais para a idade dele, e a realidade, é que esta "obsessão" que eu acho que ele sente, principalmente por mim,
não é nem vai ser benéfica na vida dele, e apesar de ele já ter sido acompanhado à uns 2 anos por uma psicóloga de quem ele até gostava, acho que o assunto não ficou resolvido na cabeça dele ... existem medos que não são expressos por palavras ( e ele até fala muito), mas as atitudes que tem não me parecem adequadas.

Também sei, que este será um tema dificil de se responder por mail, mas queria saber que me aconselham a procurar ajuda especializada, consultei no vosso site as consultas, mas também não sei muito bem se será uma consulta para criança ou para adulto, pois nem sei se ele estará disponivel para ir, pois ele não acha que essas atitudes sejam inadequadas para a idade dele.

Fico a aguardar um conselho, sugestão ...

Muito Obrigado,


E"

 

 

 

Cara E,

Antes de mais, agradecemos o seu contacto.

A história que nos descreve transparece a sua preocupação face a uma situação que considera pouco adequada à idade do seu filho e, simultaneamente, a sua sensação de impotência sobre a melhor forma de lidar com a mesma. O primeiro passo de coragem, reflexo de uma mãe atenta, o reconhecimento de que a situação “não é saudável”, já foi dado.

Este medo extremo, exagerado, despropositado do seu filho se separar de si parece poder configurar um quadro de ansiedade de separação. Há crianças que recusam ir para a escola ou ficarem ao cuidado de outras pessoas que não os pais. Outras referem pesadelos cujo tema dominante é a perda. Há crianças e jovens que se queixam de dores, náuseas ou vómitos sempre que antecipam uma separação, mesmo que breve, dos cuidadores, outras recusam-se a estar sozinhas. Quando a separação é inevitável procuram manter o “controlo”, aquilo que lhes parece transmitir segurança, através de chamadas telefónicas ou mensagens de telemóvel. Independentemente das “formas” que assume esta forma de ansiedade pode deixar toda a família vulnerável, comprometendo o equilíbrio psicológico individual e da própria família, o que pelas suas palavras parece estar a verificar-se. Recomenda-se a procura de ajuda especializada quando a intensidade das emoções e a frequência dos episódios de ansiedade é significativamente superior ao esperado para idade da criança, quando a ansiedade interfere na capacidade de adaptação da criança e compromete significativamente algumas áreas da sua vida, como a alimentação, o sono, as relações, ou a aprendizagem, quando o sofrimento da criança se torna incapacitante para os próprios cuidadores e/ou os sintomas ansiosos persistem no tempo. A urgência desta ajuda intensifica-se quando falamos de (pré-)adolescentes, pois nesta fase de desenvolvimento espera-se, efectivamente, que ocorram movimentos de autonomização e independência face à família, essenciais à própria estruturação da personalidade do jovem.

Tendo em conta o sofrimento que o seu filho parece experienciar, assim como a preocupação que a E manifesta enquanto mãe, parece-nos verdadeiramente importante procurar ajuda especializada junto de um psicoterapeuta, vocacionado para crianças e adolescentes.

Caso a possamos ajudar de mais alguma forma, por favor não hesite em contactar-nos.

Abraço,

Inês Afonso Marques

 

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publicado às 12:25



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