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A natureza dos ataques de ciúme

por oficinadepsicologia, em 26.11.11

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

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António Norton

Muitas vezes o ciúme é o causador da destruição de muitos casamentos, de muitos namoros, de muitas relações amorosas que tinham tudo para dar certo, que tinham tudo para proporcionar a ambos os parceiros realização e satisfação.

Mas o ciúme irrompe num impulso descontrolado e destrói tudo. É difícil separar a ideia de ciúme da ideia de impulsividade ou impulso. Na verdade, muitas vezes, o ciúme surge num impulso descontrolado e avassalador.

Como em qualquer perturbação do espectro da Psicologia, também o ciúme possui um gradiente de nível ou intensidade de perturbação. Assim temos desde o ciúme normal e totalmente controlado até ao ciúme patológico, absolutamente disfuncional e altamente perturbado.

Ter ciúme é algo saudável, desde que seja dentro de determinados limites.

 

Gostaria de distinguir dois tipos de ciúme:

Existe o ciúme imaginado e o ciúme percepcionado.

Quando falamos de ciúme imaginado estamos a falar de uma situação em que o ciúme é causado por uma visualização mental, ou seja nada está necessariamente a acontecer, mas a nossa imaginação constrói um determinado filme em que vemos claramente a pessoa de quem gostamos a ter atitudes que geram, em nós, desconfiança, insegurança e ciúme. Por exemplo, podemos imaginar que a pessoa de quem gostamos está, neste momento, a conhecer alguém e a eventualmente a se sentir interessada por essa pessoa e essa visualização mental, conduzir a uma sensação de insegurança que redunda em ciúme.

 

 

Quando falamos de ciúme percepcionado aí estamos a ver a pessoa de quem gostamos a ter uma determinada atitude que interpretamos como de traição, em que, por exemplo essa pessoa pode estar a falar com outra e nós interpretamos os sinais verbais e não-verbais como elementos que comprovam a sua atracção sexual e o seu genuíno interesse em se envolver com aquela pessoa.

O ciúme provém de uma interpretação que é feita. Os estados impulsivos que remetem para as questões do ciúme provém de uma interpretação de determinados elementos percepcionados como ameaçadores.

 

Que emoções surgem nos famosos ataques de ciúmes?

Talvez a mais evidente seja uma raiva enorme, às vezes desmedida que pode conduzir a violência física e verbal.

Além desta raiva que gera o maior descontrolo temos também a zanga. A enorme zanga perante a forma como percepcionamos a cena de ciúme.

Esta raiva que tem por detrás a zanga são a face visível do colorido emocional que aparece em situações de ciúme.

A voz fica tensa, os músculos ficam tensos, surgem gritos, berros, muita tensão e por vezes insultos e até violência física.

Quando somos invadidos por um ataque de ciúmes ficamos fora de nós… “Com as garras de fora, prontos a atacar”

Quando surgem ataques de ciúme ficamos sem a capacidade de responder de uma forma racional… tornamo-nos quase animais…

 

Como podemos explicar estas emoções tão agressivas e intensas que surgem nos ataques de ciúme?

Se pensarmos na Raiva e na Zanga estas são emoções que surgiram adaptativamente para nos proteger. Como é que a Raiva e a Zanga protegem? Quando estamos cheios de raiva ficamos tensos, com a boca seca, os músculos rígidos, a respiração curta para bombear o máximo de oxigénio para o sangue e assim ficamos prontos justamente para nos defendermos.

Se formos ter com um gato e ele sentir que corre perigo de vida imediatamente vai ficar com o corpo todo arqueado, altamente tenso e a sua expressão será de Raiva.

Portanto estas emoções aparecem para nos protegermos quando nos estamos a sentir mais vulneráveis, mais indefesos e em que temos de mobilizar recursos para nos defendermos.

 

Esta questão da vulnerabilidade, ou se quisermos fragilidade, é muito importante.

Esta fragilidade remete justamente para outra emoção que também tem o seu papel adaptativo: O medo. Por detrás da Raiva e da Zanga está o medo. Primeiro sentimos medo, ficamos assustados, sentimo-nos vulneráveis e depois mobilizamos recursos e instalamos a Zanga e a Raiva.

 

Voltemos ao ciúme…

Nos ataques de ciúme, sentimos medo. Medo de quê? De perder a pessoa que amamos.

Mas o mais curioso e talvez, se quisermos o mais preocupante é que o ciúme pode irromper de forma aparentemente irracional… Ou seja, podemos ter ciúme de uma pessoa que nunca nos traiu, ou que sempre foi altamente frontal e revelou que gostava de nós. Então porque razão sentimos ciúme? O que é que se passa? Estaremos a ficar loucos?

Para responder a esta questão é importante perceber como funcionam as emoções. As emoções são complexas respostas que o nosso organismo dá para essencialmente garantir a nossa sobrevivência. As emoções fazem parte de um mecanismo antigo, mais antigo que a extraordinária conquista do córtex cerebral. O cérebro das emoções, também denominado de sistema límbico é algo mais primitivo mais antigo e serve a nossa sobrevivência.

Justamente porque é mais antigo tem pouco de racional, da forma como entendemos a palavra racional.

Não obedece ou é condicionado pelo passar do tempo. Ou seja, se um estímulo for percepcionado como ameaçador imediatamente surgirão respostas de defesa aparentemente automáticas.

E não interessa se esta pessoa sempre deu provas de ser fiel… Basta existir elementos comuns com a pessoa que foi infiel para imediatamente o sistema de alerta e de defesa funcionar. Como se, de repente, existisse uma concordância entre a pessoa que nos traiu e aquele elemento que está a ter uma atitude que, para nós, contém algo de ameaçador. 

Por isso, por ser uma resposta de defesa perante o medo, o ciúme pode apresentar um carácter de impulsividade aparentemente descontrolada.

Quando existe esta continuidade no tempo, esta perpetuação destas emoções intensas e desproporcionais de raiva, revolta, zanga perante atitudes que aparentemente nada têm de ameaçador, nós, psicólogos dizemos que essa pessoa está traumatizada.

Assim sendo, de alguma forma as pessoas que sofrem de ciúme patológico estão traumatizadas. Algures na sua história de vida, sofreram uma situação em que foram ou se sentiram traídas e o seu sofrimento teve tamanha proporção que o medo de sofrerem tal situação, mesmo com estímulos aparentemente não ameaçadores imediatamente desperta o sistema de defesa emocional onde pontuam as emoções de Raiva, Zanga, Revolta, Ódio, que podem perfeitamente destruir uma relação.

 

Nós psicólogos dizemos que esta pessoa tem um assunto inacabado, do ponto de vista emocional. As coisas não ficaram resolvidas emocionalmente e se se sente neste estado então deverá procurar um psicólogo.

Na Oficina de Psicologia temos profissionais de saúde mental especializados que possuem várias estratégias para lidar com tais situações, entre as quais destaco a abordagem surpreendente e altamente eficaz do EMDR:   

http://oficinadepsicologia.com/emdr

Espero ter contribuído para elucidar um pouco mais sobre este estranho mundo do Ciúme

 

publicado às 15:14


2 comentários

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De Namorada a 18.12.2012 às 15:13

Perante aquilo que li sobre o que falou acerca do ciume, gostaria de saber como falar com uma pessoa que tem estes ataques de ciume e como faze-lo perceber que isso não e normal e que precisa de ajuda? E que tipo de ajude se pode dar nestes casos, ou que tratamento se pode aconselhar?
Obrigado
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De oficinadepsicologia a 08.01.2013 às 23:47

Cara Namorada,

o ciúme excessivo desgasta uma relação e pode ser uma experiência penosa para quem vive com eles.
Em primeiro lugar, será importante manter sempre um diálogo sereno e frequente com o seu namorado para tentar mostrar-lhe com calma e através da exposição de evidências, que não há motivos para inseguranças. Nesses momentos, e evitando uma postura crítica e avaliativa que elevará a reactividade e defensividade do seu namorado, procure mostrar-lhe que se não existem motivos concretos para os seus ciúmes e se esses comportamentos sucedem-se talvez possa existir algum outro motivo a perpetuá-los, tal como uma experiência de vida antiga, modelos familiares de base, entre outros. No sentido de serem felizes e terem uma relação verdadeiramente saudável torna-se essencial procurar ajuda de um especialista.

Uma possibilidade é agendar uma sessão de terapia de casal no sentido de levarem o problema como sendo do casal, uma vez que vos afecta a ambos. O seu namorado pode não sentir-se tão colocado em causa e eventualmente aderir melhor.
Se o seu namorado aceitar ir sozinho à sessão e perceber que estes comportamentos estão a fugir à normalidade, poderá agendar uma sessão de psicoterapia individual. Tanto num caso como noutro, podemos ajudar: http://oficinadepsicologia.com/consultas/57-2

Se tiver alguma dúvida adicional não hesite em contactar-nos.

Um abraço,
Filipa Jardim da Silva
Oficina de Psicologia

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