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Quando a preocupação passa a ser excessiva

por oficinadepsicologia, em 03.12.11

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Isabel Policarpo

Sempre que estamos com um problema, isto é com uma situação em relação à qual prevemos um desfecho potencialmente negativo, sentimos desconforto e ansiedade e uma das primeiras estratégias que utilizamos para fazer face a essa circunstância é através da preocupação.

 

A preocupação é uma actividade iminentemente cognitiva que permite identificar ameaças potenciais e activar a resolução de problemas quer através da construção de cenários, quer através do equacionar de hipóteses e/ou soluções alternativas.

 

A preocupação surge assim como uma tentativa de maximizar os bons resultados e de minimizar o impacto dos efeitos negativos, ou seja de reduzir a imprevisibilidade e simultaneamente aumentar a sensação de controle face ao desconhecido e/ou inesperado.

 

Será que toda a preocupação é útil e desejável? Quando é que a preocupação deixa de ser funcional para passar a ser disfuncional?

 

É importante ter a noção de que estamos a falar de um continuum entre o “normal” e o “patológico”  e não numa situação em que há pessoas que não se preocupam e outras que se preocupam. Todos nós temos algum nível de preocupação, a diferença está na quantidade e na capacidade de controlar a preocupação, isto é para lá de um determinado limite ela é disfuncional e perturbadora do funcionamento normal e regular da pessoa.

 

 

A preocupação excessiva é aquela que é frequente, intensa e abrangente. Não só nos preocupamos com tudo aquilo com que os outros se preocupam - a familia, a saúde, as finanças, o trabalho, os amigos e as relações interpessoais, como o fazemos de forma mais amiúde e intensa, ao que acrescem inúmeras outras preocupações relacionadas com as pequenas coisas do quotidiano, com que geralmente os outros não se consomem.

 

Outra característica importante do processo disfuncional da preocupação é a dificuldade que há em parar o processo. A preocupação parece que ganha vida própria, que está fora do nosso controle, tornando-se extremamente difícil de interromper e de “desligar o botão”.

 

A preocupação conduz a uma cadeia de pensamentos que se caracterizam por criar uma verdadeira espiral de preocupação, onde os pensamentos sob o formato de perguntas se sucedem a grande velocidade, mas sem que haja lugar a uma solução. Estar continuamente a rodar nessa espiral de preocupação improdutiva é extremamente fatigante e desgastante, tanto do ponto de vista físico como mental. Senão vejamos.

 

«E se o miúdo cair do escorrega no recreio? Vai chamar pela mãe e eu não estou lá, e ele não vai sossegar. E se na escola perderam o meu contacto telefónico? E se só dei o telefone fixo e não o móvel? Devem ter o do João, mas ele nunca atende o telefone durante as horas de expediente. E se não lhe desinfectam a ferida? Ainda é capaz de apanhar tétano, ouvi dizer que anda para aí muito tétano. O tétano mal tratado pode conduzir a uma infeção que pode terminar numa amputação. Não aguento mais, vou sair do computador e vou ligar para a escola já!»

 

Ao inverso do que sucede com a preocupação funcional, na disfuncional a pessoa não é capaz de parar para se tranquilizar e/ou reavaliar a situação com maior distanciamento e objectividade. Tudo se passa como se não fosse capaz de reverter o processo de pensamento, pelo que continua a saltar de pensamento em pensamento, de “crise em crise”.

 

Quando a preocupação se torna excessiva acontece que mesmo na ausência de uma preocupação nos preocupamos, como se a preocupação tivesse uma função protectora e quase de superstição.

 

Não é fácil viver assim, imaginando que cada pequeno acontecimento pode desencadear uma situação complicada e descontrolada, com a cabeça a ser constantemente invadida por pensamentos e  imagens que geram desconforto e ansiedade. Como se sentem no final do dia? Imagine o que é viver assim ao longo de dias, meses e anos... O resultado é uma enorme sensação de cansaço, exaustão e de desmoralização, que com o passar do tempo conduz frequentemente à depressão.

 

Geralmente somos tentados a pensar que a preocupação não é nada de mais e por isso somos  tentados a desvaloriza-la. Hoje sabe-se que a preocupação excessiva pode ter um impacto tão grande como a depressão major, em virtude de interferir com diferentes áreas da nossa vida - seja a nivel profissional, familiar ou pessoal.

 

A pessoa preocupada não só tem tendência a ver mais ameaças e dificuldades à sua volta, como mais frequentemente imagina que a probabilidade dos acontecimentos negativos ocorrerem e a dificuldade subsequente de gerir as situações, é mais elevada do que na prática se verifica.

 

Muitas vezes as pessoas preocupadas acabam por usar mais energia do que aquela que é necessária para completarem trabalhos desnecessários. Igualmente comum é o facto de concluirem as tarefas num espaço de tempo escasso, decorrente da sensação de pressão, da ideia que tudo tem de ser feito de imediato.

 

As pessoas preocupadas também acreditam que não podem errar e que têm de ser perfeitas, pelo que muitas vezes procrastinam e/ou iniciam todo um conjunto de comportamentos minuciosos de verificação para se reassegurarem.

 

A necessidade constante de estar vigilante e em alerta além de ser desgastante, conduz a tensão muscular em particular na região dos ombros, pescoço e maxilar, sendo posteriormente  responsável pela presença de dores diversas, como dores musculares, de cabeça e de barriga entre outras.

 

Igualmente frequente é a dificuldade em dormir, sobretudo em adormecer pelo facto da mente insistir em pensar no amanhã e em tudo aquilo que há para fazer ou vai ocorrer ao longo dessa semana. É comum acordar-se com a sensação de não se ter tido um sono reparador.

 

A preocupação excessiva além de conduzir a uma imensa fadiga e exaustão, impede-nos de viver no momento presente e isso acaba por condicionar e ter um elevado impacto no nosso quotidiano.

 

A preocupação interfere com os níveis de concentração e com os nossos recursos de atenção, pelo que a presença de erros e de pequenas falhas no trabalho tendem a ocorrer mais tarde ou mais cedo, com implicações no rendimento e produtividade, o que por sua vez reforça a necessidade da  preocupação com o objectivo de evitar situações similares no futuro.Também usuais são os níveis de absentismo provocados pela fadiga e desmotivação.

 

A constante projecção no futuro impede a pessoa de usufruir do que se está a passar no aqui e no agora, pelo que mesmo quando é suposto descontrair e relaxar tem dificuldade em fazê-lo. Paulatinamente vão-se deixando para trás as actividades de lazer ou porque há muitas outras coisas que têm de ser feitas antes ou porque a preocupação acaba por interferir com o retirar prazer das actividades que dantes proporcionavam satisfação e bem estar.

 

Como será expectável com o passar do tempo os amigos e familiares começam a ficar cansados desta incapacidade para se estar e disfrutar do momento. A preocupação conduz a periodos prolongados de introspeção e afastamento social, a preocupação acaba por tornar-se um processo de auto-satisfação que promove sentimentos de desespero e abandono. E quando olhamos à volta não só percebemos que aqueles que nos eram próximos estão distantes de nós, como também nós nos perdemos de nós. Resta a saturação de nós próprios e o ciclo infernal em que vivemos, e daquilo em que com o tempo nos fomos transformando.

 

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publicado às 16:15


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.04.2012 às 03:31

Boa noite,

me identifico mto com este post, a minha preocupação está consumindo a minha vida... O que preciso fazer para tentar melhorar... Existe um nome na psicologia para este tipo de problema?

Agradeço,

Sarita

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