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A pele que há em mim

por oficinadepsicologia, em 30.01.12

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Fabiana Andrade

Utilizei o título da canção como título do artigo, pois quero falar de pele.
Aqui, no caso, com um sentido metafórico, representando fronteiras entre Eu e o Mundo (os outros, as situações, as coisas).
Sempre que um assunto é transversal a todas as sessões, sinto-me compelida a escrever sobre ele. Fascina-me que pessoas diferentes, com modos de ser tão únicos, tragam temas tão comuns!
Vou exemplificar algumas situações para depois aprofundar o tema “pele”.
- “estou muito triste porque ele não quer mais falar comigo. Não tenho ânimo para nada”
- “tenho medo que ele me deixe, como fez o meu primeiro namorado”
- “fiquei muito aborrecido com o que ela me disse, pôs-me em causa enquanto profissional”
- “se perder esse emprego (que me faz infeliz), não sei como vou sobreviver”
- “cada vez que a minha mãe começa a querer controlar-me saio do sério”

O que essas frases têm em comum?
Todas essas pessoas estão a sofrer com o impacto de algo ou alguém externo. A atribuição de poder à algo ou alguém está presente em todas as situações.
Na primeira situação, a pessoa perde o seu ânimo, deixa de ter energia para a sua vida e para as suas coisas, porque outra pessoa não quer falar com ela. Aqui, a pele (fronteira) faz falta. Essa pessoa está “embrulhada” com o outro e por isso, o impacto que esse tem na sua vida é enorme. Na sessão, trabalhamos a construção dessa “pele”, que permitiu à pessoa, interpretar a mesma situação da seguinte forma: Ele está num percurso individual, tem o seu timing, os seus recursos, as suas emoções, as suas ferramentas, e está a fazer o melhor que pode dentro desse contexto. Eu estou feliz e tranquila com o que sou e por isso, responsabilizo-me por transformar a minha vida em algo feliz para mim. Assim tenho ânimo para investir em tudo o que me faz bem. O facto dele não querer mais falar comigo não diz nada sobre mim, diz algo sobre o “sítio” onde ele está, e eu respeito isso.


A criação da separação entre os dois, fez com que a minha cliente entendesse que o outro é diferente de si, com um mundo próprio, que nem sempre pode estar em sintonia com o seu. E essa diferença não diz nada de errado ou negativo sobre si.
No segundo exemplo, a cliente embrulhou-se com uma situação e transpõe essa mesma situação para o presente. Não cria pele entre presente, passado e futuro.


Nas sessões fomos capazes de construir a sua fronteira e a interpretação passou a ser a seguinte: o que aconteceu no passado foi o possível, quer para mim, quer para o meu primeiro namorado. A decisão dele sair da relação foi uma decisão dele e por isso, deveu-se ao seu contexto, aos seus recursos, à sua vontade, não diz nada sobre mim. Foi um desencontro entre duas pessoas e não uma rejeição entre uma pessoa forte e uma fraca. Essa situação não está a acontecer agora. O que está a acontecer agora é uma situação única entre duas pessoas únicas, e vou vivê-la e geri-la à medida que ela acontece.


Ela entrou em contacto com o presente, deixando de antecipar negativamente o futuro. Entrou também em contacto com as suas capacidades de gestão de qualquer situação que possa surgir.
Na terceira situação, o cliente chegou a uma sessão muito aborrecido com o que uma pessoa lhe tinha dito. Essa pessoa tinha feito uma observação negativa sobre o seu desempenho. Ele estava zangado e a pôr-se em causa enquanto profissional e mesmo enquanto pessoa. Estava embrulhado!


Ao trabalharmos na sua “pele”, foi possível uma nova interpretação: Estou feliz e tranquilo na minha dimensão profissional, com abertura para melhorar. Não sei o que desencadeou na outra pessoa o desejo de fazer aquela observação, mas sei que essa observação veio dela, é algo que está dentro dela e não de mim. Ao olhar para as coisas dessa forma, seu corpo reagiu de forma positiva, acalmando-se, relaxando e conectando-se com o seu bem-estar e a sessão tornou-se imediatamente mais leve.


No caso do cliente que confunde o seu emprego com a sua sobrevivência, novamente surge o embrulho entre algo interno (sobrevivência), que depende da sua conexão com as suas capacidades, com algo que é externo (o emprego).


Depois do trabalho de construção de uma “pele” mais saudável e forte, a interpretação possível foi a seguinte: eu não sou o meu emprego. Este emprego não me realiza e não me deixa feliz, por isso, não está a contribuir para a minha realização pessoal nem para o meu bem-estar. Estar sem ele será melhor. Terei capacidades de gerir a situação, mesmo que isso implique adaptação a uma nova circunstância prática, ou que passe por uma fase de menor recurso financeiro. Sei que estarei no caminho para a minha realização e isso deixa-me em paz.
Na situação da cliente que está embrulhada com a mãe, ela está extremamente vulnerável em relação à mãe, ficando muito perturbada cada vez que sente que a mãe a quer controlar e/ou criticar.


Ao trabalharmos na sua separação da mãe, ela pôde fazer um exercício de observação do que se passava com a mãe, nas situações em que ela estava a ser mais controladora e mais crítica. Essa observação antes era impossível, pois a cliente estava a sentir-se tão invadida e tão próxima da mãe, que automaticamente transpunha toda aquela energia para si, pondo-se em causa e ficando muito magoada. Ao fazer a observação clara da mãe, pôde ver o seu medo e a sua insegurança. Ou seja, cada vez que a mãe tentava controlá-la ou criticá-la, o que ela estava a sentir era medo e insegurança. Ao visitar a história da mãe, ela entendeu que devido ao seu percurso e recursos, a mãe era uma pessoa muito insegura, sempre com medo de tudo e todos, e transportava quase toda a sua insegurança para a filha. Essa, quando fez a separação através da construção das suas fronteiras, percebeu que aquelas eram questões da mãe e não suas. Ela estava bem, feliz consigo mesma. Pôde inclusive sentir compaixão pela mãe, em vez de raiva.
Criar fronteiras fortes e claras entre nós e o mundo, é indispensável para vivermos bem, felizes, conectados com as nossas capacidades, com respeito e aceitação pelo nosso processo e pelo processo dos outros, pelo nosso timing e pelo timing dos outros. Não sermos invadidos pelo que não é nosso, ficarmos presos em dinâmicas pouco saudáveis que são alimentadas por essa indistinção entre cada uma das pessoas, leva a perturbações emocionais graves, ao insucesso pessoal e profissional, criando até mesmo perturbações somáticas.
O processo terapêutico é sem dúvida um caminho fabuloso no sentido da construção da noção de nós, que permite o processo de construção de uma “pele” saudável.


Lembrem-se de que só podemos ser muito próximos de alguém, ou de algo, se formos separados desse mesmo alguém ou algo. Do contrário, estamos embrulhados nele e não próximos. Esse é mais um dos fantásticos paradoxos que compõem a nossa vida!

publicado às 13:15


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