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O embaraço

por oficinadepsicologia, em 01.02.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

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António Norton

 

Todos nós de uma forma ou de outra já nos sentimos embaraçados.
O Embaraço é considerado uma emoção resultante da auto-consciência social, na mesma linha da culpa, da vergonha ou do orgulho. O Embaraço acontece na relação com o outro. É uma emoção pública que resulta da sensação de exposição e arrependimento por uma acção praticada. A expectativa de uma avaliação social negativa relativamente a uma acção, pensamento ou emoção que governa o nosso comportamento está na base do embaraço (Lewis, 2008).
 
A experiência emocional do embaraço provém da sensação de falhanço no comportamento de acordo com certos padrões sociais que ameaça a ideia que os outros poderão fazer de si, bem como a forma como se irá avaliar a partir de tal comportamento.
 
Imaginemos uma situação em que se prepara para dar uma palestra e subitamente arrota de uma forma escandalosa. Imediatamente, sentirá embaraço e tal embaraço estará devidamente relacionado com a sua preocupação em relação à avaliação negativa que os outros poderão fazer de si e à própria imagem que fará de si próprio.
 
Geralmente, o embaraço resulta de comportamentos acidentais que o levam a sentir-se mal consigo próprio, mesmo quando não houve qualquer intenção de violar os padrões sociais vigentes.
De acordo com a investigação, a maior parte das situações de embaraço resultam de tropeçar, entornar bebidas, rasgar as calças, expor pensamentos ou sentimentos privados, flatulência acidental, arrotar, receber atenção indesejada, esquecer o nome de outras pessoas ( (Keltner & Buswell, 1996; Miller, 1992; Miller & Tangney, 1994; Saltier, 1966). Não é preciso muito tempo para cada um de nós se lembre de uma situação embaraçante.
 
Quando estamos embaraçados geralmente apresentamos sinais caracteristícos tais como: Baixar o olhar, apresentar um sorriso nervoso, ou um sorriso amarelo, virar a cabeça para o lado, tocar na cara, corar (Keltner, 1997, Keltner and Buswell, 1997).
 
O embaraço também está relacionado com a pessoa corar. As pessoas coram quando um estimulo emocional leva as glândulas a libertar a hormona adrenalina no corpo. A Adrenalina tem um efeito no sistema nervoso, que leva os vasos capilares a transportar o sangue para as extremidades da pele, fazendo a pessoa corar. O que é interessante é que perante a sensação de ameaça social os receptores venosos no pescoço e nas bochechas dilatam (Drummond, 1997). A sensação de exposição social poderá ser ameaçadora e gerar insegurança e receio de não aceitação e integração social.
 
É interessante que em situações especificas e em circunstâncias sociais, comportamentos, à partida embaraçantes podem ser percepcionados com diversão e humor, como por exemplo, arrotar na presença de um amigo próximo ou parceiro amoroso. Mas se tal comportamento fosse feito na presença de um estranho ou de alguém com algum estatuto social, tal como um possível empregador, chefe, professor ou futura sogra então a sensação de embaraço seria muito mais intensa.
 
O contexto social e a expectativa de aceitação são elementos essênciais para a eventual expressão não verbal do embaraço.
O embaraço é uma resposta emocional adaptativa perante a percepção de não integração/aceitação social.
 
Curiosamente, as situações de embaraço não são apenas aquelas em que existe a percepção de ameaça social. Poderão ser situações em que somos expostos a algo de positivo, meritório, engrandecedor. O que implica sempre é uma exposição. Podemos ficar perfeitamente embaraçados perante a experiência do elogio, da promoção laboral na presença de outras testemnhas e colegas de trabalho 
 
Então qual é a utilidade do embaraço se nos coloca numa posição desconfortável?
 
Evolutivamente, o embaraço surgiu para manter a ordem social (Miller, 2007).
 
As investigações demonstraram que as pessoas que apresentam sinais de embaraço perante as suas testemunhas têm maior probabilidade de gerar empatia nos outros, de ser perdoadas e alvos de confiança. (Keltner e Anderson, 2000)
 
Portanto o embaraço é algo positivo mesmo quando sentimos desconforto com tal experiência. 
 
Existem situações em que o embaraço é semelhante à sensação de vergonha. Alguns investigadores defendem que o embaraço é uma forma menos intensa de vergonha, relacionada com a auto-avaliação negativa (Lewis, 2010; Tompkins, 1963). Apesar de poder existir alguma relação entre ambas as emoções a verdade é que as expressões faciais e o comportamento não-verbal de ambas são distintas, o que as separa como emoções distintas (Lewis 2010).
 
O que fazer perante uma experiência de embaraço? Talvez seja importante rever mentalmente esta experiência por uma processo de visualização guiada e imaginar que as testemunhas ficaram tão embaraçadas e preocupadas quanto o actor do embaraço. Geralmente esta descentração ajudar a relativizar o impacto que a experiência poderá ter tido nos outros. Muitas vezes tendemos a exagerar o impacto social das nossas acções (Gilovich, Medvec, & Savitsky, 2000).
 
Lembre-se também que não é os seus erros, nem as suas acções. Os seus erros podem-no ajudar a crescer e a evitar novas situações semelhantes.
 
A expressão do embaraço promove a empatia dos outros, portanto se se encontrar numa situação assim aceite-a e não a dissimule.
 
"Não faça uma tempestade num copo de água"
 
António Norton
 
Referencias:

Gilovich, T.; Medvec, V.; & Savitsky, K. (2000). The spotlight effect in social judgment: An egocentric bias in estimates of the salience of one's own actions and appearance. Journal of Personality and Social Psychology, 78(2), 211-222.
Keltner, D., & Buswell, B. (1997) Embarrassment: Its Distinct Form and Appeasement Functions. Psychological Bulletin, 122:3, 250-270.
Keltner, D., & Buswell, B. (1996). Evidence for the distinctness of embarrassment, shame, and guilt: A study of recalled antecedents and facial expressions of emotion. Cognition and Emotion, 10, 155-171.
Keltner, D. & Anderson, C. (2000). Saving face for Darwin: The functions and uses of embarrassment. Current directions in psychological science, 9:6, 187-192.
Lewis, M. (2010). Self-conscious emotions: Embarrassment, pride, shame, and guilt. In M. Lewis & J. M. Haviland (Eds.), Handbook of emotions (pp. 742-756). New York: Guilford Press.

publicado às 10:11



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