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Este consultório da Oficina de Psicologia tem por objectivo apoiá-lo(a) nas suas questões sobre saúde mental, da forma mais directa possível. Coloque-nos as suas dúvidas e questões sobre aquilo que se passa consigo.
Autor: Ana Crespim
Psicóloga Clínica
Falamos dela todos os dias… mesmo que optássemos por não o fazer, teríamos que ouvir com toda a certeza algum tipo de comentário, alguma notícia ou uma qualquer outra nova medida de austeridade. O que não ouvimos com muita frequência são os efeitos psicológicos da crise, os resultados de ela estar sempre presente no nosso espaço mental. Afinal, tantos são os estímulos à nossa volta a lembrar-nos dela, que se torna quase impossível não a ter de pano de fundo no nosso quotidiano.
Sabemos que as coisas já não são o que eram. Sabemos também que estamos a pagar por uma má gestão de quem nos representa, mas também nos sentimos muitas vezes culpados por termos desenvolvido estilos de vida que em pouco visavam o dia de amanhã ou a possibilidade de o dinheiro e de algumas regalias um dia chegarem ao fim.
Mas afinal, o que muda com a crise? Quais as consequências? Qual o seu impacto no nosso dia a dia? Além de termos perdido o nosso poder de compra, a crise tem-nos tirado outras coisas… a serenidade, a confiança, a esperança, e muito mais, que levam a outras perdas – sono, alegria, etc., etc..
O que podemos fazer perante isto? Se somos praticamente impotentes quanto à situação económica e financeira do mundo em que vivemos, o mesmo não podemos dizer a respeito dos seus efeitos em nós. Se não podemos mudar a realidade, nem os outros, temos sempre uma palavra a dizer quanto ao impacto que permitimos que tenham em nós.
Existem coisas que não nos podem tirar, atividades que tantas vezes menosprezamos, mas que fazem a diferença em matéria de felicidade. A crise não nos tira o sol, a possibilidade de estarmos com quem gostamos, de partilhar bons momentos com aqueles que nos são tão especiais. Mais ainda, a crise pode entrar dentro das nossas cabeças, mas apenas se deixarmos, se tivermos alguma porta ou janelinha por onde ela se possa enfiar. Por isso, depende de nós deixar que isto seja o motivo de acordarmos desanimados e de nos queixarmos constantemente.
O povo português é de facto muito dado ao queixume. Se alguém pergunta como é que estamos, a resposta habitual é: “Vai-se andando” ou “Mais ou menos”. Parece haver alguma relutância, ou melhor, alguma regra implícita que não nos permite dizer: “Estou bem!”, porque como se costuma dizer “Pode dar azo a invejas!”, o que o português interpreta como algo que pode levar a sua felicidade para bem, bem longe. O problema é que, de tanto nos ouvirmos dizer o mesmo, a mensagem entra, aloja-se no nosso espaço mental e acaba por ser considerada como uma verdade inquestionável.
Vamos mudar isto? A crise é uma realidade de todos, mas não pode ser uma sentença de infelicidade ou uma desculpa para nos queixarmos constantemente da vida, como se fosse mau estar bem.
Pense nisto…