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Depressão prolongada

por oficinadepsicologia, em 29.03.12

E-mail recebido

 

"Caros  Oficina de Psicologia

  

 

Gostaria de ter alguma atenção da vossa parte se possivel, para o meu caso que tenho esperança conseguir alguma coisa perto da cura.

 

Acho que fazem um excelente trabalho, porque é importante alertar,informar, para que as pessoas tenham mais conhecimento sobre as doenças do foro mental.

 

E conseguir fazer campanhas como se fazem em outros paises, para prevenir este sofrimento atroz que causam estas doenças.

 

 

 

Chamo-me Maria e sou apenas mais uma pessoa que faz parte dos 22% neste momento o numero que existe para estas doenças reacionadas com o foro mental, (como sabem) estas doenças a que chamam silenciosas, depressão,bipolaridade,borderline, etc... Deixo aqui o meu testemunho pessoal.

Tenho depressão á 10 anos, não chegou de mansinho,nem lentamente, chegou de um dia para o outro abruptamente, numa altura

 

de enorme stress profissional. Lutei com todas as minhas forças para a combater. (psiquiatras,psicologos,ginástica,caminhadas,socializar, sair de casa todos os dias) Mas apesar de tudo.VENCEU-ME!

 

 

 

Estávamos em Setembro de 2001,deixei de trabalhar em finais de Novembro e obviamente piorei, mas decidi lutar com todas as forças que tinha, eram dias muito dificeis acompanhados com medicações erradas e com muitos sintomas dificeis de aguentar, fui ficando cada vez mais debilitada e em Junho a alternativa foi ir para casa dos pais, para não estar sozinha. A minha filha que era muito pequena ficou com o pai e o meu sofrimento é indescritivel. Foi um dos momentos mais dificeis de aguentar.

 

 

 

Fiquei quase 2 anos sem sair de casa ao cuidado dos meus pais,sem conseguir sequer aproximar-me da porta de entrada, devido ao sindrome

 

que desenvolvi.

 

Consegui recuperar e comecei a trabalhar num negócio de familia, e surgiu-me também uma oportunidade para os fins de semana que aceitei de imediato,porque queria recuperar a minha vida e o tempo perdido.  Dessa oportunidade surgiu a possibilidade de fazer parte desse negócio,aceitei também julgando assim ser mais fácil chegar ao meu objectivo. 

 

O meu marido quis o divórcio. Estava divorciada e perdi a custódia da minha filha.

 

Investi todo o dinheiro que tinha, força, trabalho e esperança em detrimento da minha saude. E convenci a minha filha que o pouco tempo que tinha para ela seria para podermos ter uma casa, uma nova vida,que tinhamos que começar do inicio.

 

 

 

PERDI! O dinheiro e a saude que tinha conseguido recuperar.

 

Fiquei mais uma vez 1 ano em casa e desta vez muito mais doente, em alguns dias perdia a locomoção em outros a fala, deixei de comer, dai a ser internada foi apenas um passo. O internamento foi dos momentos também muito dificeis pelos quais passei.

 

Recuperei-me, mas não consegui voltar a trabalhar durante 4 anos. 

 

Em Fevereiro recomeçei um trabalho que me surgiu e agarrei-o com todas as minhas forças, agora estou de baixa porque me mandaram para casa.

 

Voltaram as crises de ansiedade,o choro consecutivo,o estado de deprimida  mas não se pode trabalhar assim disseram-me, foi apenas o que me disseram.

 

Fiz um esforço enorme para não deixar de ir trabalhar,para não desistir. Não foi suficiente!

 

Nestes dias que tenho estado em casa não melhorei, sinto-me no limite,naquele limite em que ou consigo continuar ou vou desistir de viver.

 

E tenho alertado quem está á minha volta.

 

Ninguem ouviu!  E  tentei suicidar-me. Não por não querer viver,mas porque não conseguia aguentar mais a dor.(os deprimidos não querem morrer,querem não sentir mais o sofrimento diario da doença).

 

Esta semana recebi a carta em como o meu contrato não seria renovado,porque extinguiram o meu posto de trabalho.

 

 

 

Este é um pequeno resumo da minha história ao longo destes anos e é também um apelo, porque estamos a atravessar uma época muito dificil e irão aparecer mais casos e é preciso que as entidades patronais percebam que os deprimidos ficam piores em casa,mesmo muitas vezes querendo lá ficar. E é preciso alertar e esclarecer as pessoas que esta é uma doença dificil,com dor, e em que os que estão mais próximos sofrem muito também.

 

E fazer saber às pessoas que de profissionais com sucesso,tornamo-nos pessoas com muitas sequelas e limitações, não por preguiça,nem por não querermos,mas porque esta terrivel doença nos obriga.

 

Atentamente

 

Maria"

 

 

Cara Maria

 

Ao ler esta sua mensagem, confesso que me faltam as palavras para descrever o quão árduo e sofrido parece ter sido o seu percurso nos últimos 10 anos. Descreve-nos uma vida vivida como alguém que, sendo enrolado por uma onda na praia, vai voltando a ser derrubado pelas seguintes de cada vez que se ergue. Seguramente quem nos lê terá a oportunidade de, num ou outro momento da vida, se revê nesta descrição muito corajosa e generosa que nos faz do fardo que vai carregando neste percurso. Viver com o cansaço, solidão e desânimo que parecem caracterizar este seu relato deve ter sido uma enorme cruz. Viver com uma depressão, mesmo que ligeira, representa sempre sentir que se perde uma parte da nossa vida. Espero que, quando vir esta resposta, se sinta já um pouco melhor. E espero que encontre a ajuda de que necessita. Sendo que, é importante que o saiba, encontrará sempre as nossas portas abertas, caso decida procurar-nos.

Um forte abraço,

 

Francisco de Soure

Oficina de Psicologia

 

 

 

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publicado às 12:00


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