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A psicoterapia: primeiro "Lua de Fel", depois "Lua de Mel"

por oficinadepsicologia, em 10.06.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

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António Norton

Este é um título no mínimo polémico, mas de modo extremamente sintético resume o que significa, para mim, a experiência psicoterapêutica.

Este texto é dirigido a sí, enquanto possível cliente.

 

Quando entra pela primeira vez numa consulta de psicoterapia, expõe aquilo que considera ser o seu problema. Muitas vezes essa exposição é carregada de emoção, o que complica a clareza do conteúdo e a operacionalização do problema. Contudo, fornece valiosas e ricas informações sobre as emoções que pautam e permeiam a vivência subjectiva do seu problema trazido.

 

Muitas vezes, poderá ter a ideia que a pura e aparentemente simples exposição do seu problema é a parte mais complicada da Psicoterapia. Depois? Depois supõe que está bem entregue nas mãos de um profissional o qual lhe dará soluções para conseguir reconstruir-se e prosseguir o seu caminho. Existe a ideia que a Psicoterapia é um processo indolor em que se obtêm rapidamente soluções...

 

Lamento, mas por muito desejável e sedutora que seja esta ideia, muitas vezes, a Psicoterapia não é um processo assim tão simples, tão leve e tão rápido. Acima de tudo, não é um processo exterior a si. A Psicoterapia é, principalmente, uma viagem emocional e você é o principal viajante. E as viagens nem sempre são fáceis...

O Psicoterapeuta é um facilitador dessa viagem. É alguém que o ajuda a escolher determinados caminhos a percorrer, mas não faz a viagem por si, até porque não saberia que mundos explorar. Quem faz a viagem e quem encontra as respostas, é você.

 

E como se encontram essas respostas? Como se muda?

 

Para, de algum modo, dar algumas pistas a esta resposta, gostaria de introduzir a ideia de que

a Psicoterapia poderá ser vista como tendo 4 fases e a mudança dá-se na progressão destas mesmas fases. Então aqui ficam:

 

Incompetência Inconsciente

Incompetência Consciente

Competência Consciente

Competência Inconsciente

 

Enquanto progride ao seu ritmo, pelas duas primeiras fases eu diria que vivencia genericamente um período de “Lua de Fel”. Mais tarde explicarei esta ideia.

 

Quando passa para as restantes duas fases entramos num período de “Lua de Mel”.

 

As duas primeiras fases são difíceis e extremamente desafiantes. Muitos ficarão pelo caminho e desitirão. Nem todos estão dispostos a atravessar a “Lua de Fel”. Os que desistem, ficam decepcionados com a Psicoterapia e com as viagens emocionais que deverão fazer para encontrar as respostas que procuram.

 

Se superarem esta fase, então irão entrar na “Lua de Mel” onde se sentirão gratos por terem tido a coragem e a força interior de se deparar com os seus fantasmas.

 

Vamos então, sucintamente, falar sobre cada uma destas fases:

 

Incompetência Inconsciente: Esta é a primeira fase da psicoterapia. É a fase de onde irá partir para a sua viagem . A palavra – Incompetência - remete para a ideia de incapacidade, de falha: «Eu não consigo». Nesta fase, geralmente, tem uma visão vaga, ambígua, generalizada, pobre em pormenores do problema que o traz. A sua incompetência está ainda num plano muito inconsciente. « Passo a vida ansioso, ou deprimido, ou estou triste, ou cansado, ou sem vontade de viver, ou tenho muitos problemas». E o primeiro objectivo terapêutico é, justamente, tornar consciente a Incompetência.  

 

Incompetência Consciente: Nesta fase, percebe que os seus problemas podem ser equacionados como apresentando pensamentos disfuncionais, emoções disfuncionais e comportamentos disfuncionais. Estes três eixos (cognições/emoções/comportamentos) podem ser situados espacial e temporalmente. «Quando é que está ansioso? O que pensa nessas alturas? Como se sente? O que faz?» Todas estas perguntas feitas pelo Psicoterapeuta são fundamentais para começar a olhar para os seus fantasmas não os encarando com uma aparência disforme e vaga, mas com um contorno definido e com uma expressão identificável.

 

Esta é a fase da consciência dentro e fora da sessão. Quando falo de consciência dentro da sessão, refiro-me à ideia de vivência emocional dos conflitos inter e intrapessoais relacionados com o problema trazido. É o momento de vivenciar as emoções difíceis. É uma fase difícil, dura, perturbante, que gera dúvidas, resistências, frustrações. É uma fase em que parece que o terapeuta quer expô-lo, voluntariamente, ao sofrimento. Muitas vezes dão-se rupturas na aliança terapeutica, justamente, nesta fase. Não é de estranhar que possa ficar zangado com o seu terapeuta e, seguidamente, abandonar a viagem que se propôs fazer.

 

Também fora da sessão é uma fase de consciência, muitas vezes trazida a partir de exercícios de auto-monitorização, em que lhe é pedido para estar particularmente atento a si próprio nos momentos em que apresenta o problema que o trouxe à terapia. Muitas vezes é, inclusivamente, pedido para registar os seus pensamentos, emoções e comportamentos antes e depois da vivência da situação problemática.

 

Esta é uma fase polémica, que gera desacordo. É natural que não queira ficar ainda mais em contacto com o seu problema. Não quer prestar-lhe mais atenção. Só o quer esquecer! Mas... para enfrentar o seu problema tem de o conhecer, para o enfrentar tem de o poder ver. Esse confronto só é possível com uma consciencialização no “aqui e agora” do problema nos seus três eixos já apresentados previamente.

 

A consciencialização também traz outros desafios inesperados e frustrantes. De repente, vai aperceber-se que o seu problema é transversal a muitas áreas. Não é algo circunscrito no tempo e no espaço, mas é algo que , de algum modo, sempre o acompanhou. Dá-se uma consciencialização da transversalidade existencial do problema. Não é situacional, mas sim estrutural. Não é novo, é antigo, mas talvez anteriormente se manifestasse de forma diferente.

 

Esta consciencialização também é penosa. De repente apercebe-se que o seu problema é um novelo com muitos nós e que não basta desatar o primeiro nó. Surgem dúvidas: « Então mas como é que eu vou desfazer este novelo?» Surgem frustrações e novas zangas com o terapeuta. Estamos em pleno na Lua de Fel.

Apercebe-se que o seu problema é um reflexo da forma como aprendeu a responder para se adaptar a um determinado contexto que, de algum modo o ameaçou. Essa aprendizagem ,na altura, foi adaptativa e funcional, mas agora já não o é.

 

Competência Consciente

Entramos na terceira fase. Uma fase mais solarenga, mais optimista, de repente vê-se a “luz ao fundo do túnel”. Existem soluções, estratégias, técnicas, respostas, insights, clarificações, sorrisos e esperança. Mergulhou dentro de si próprio e agora está a começar a sentir outro alívio porque percebe que se conhece, por confrontar-se, por reencontrar-se.

Esta é a fase da experimentação de novas estratégias. As mudanças interiores são operacionalizadas em estratégias comportamentais que agora serão postas em prática. É uma fase em que se poderá sentir algo artificial por estar a experimentar novas soluções. Parece forçado, rígido, pouco natural, artificial, mas é este o caminho.

 

Competência Inconsciente

Chegamos finalmente à última fase. O treino e a automatização de novas estratégias começa a conferir um carácter de naturalidade. Surge outra confiança, a estranheza e o desconforto dão lugar à cumplicidade, identidade e conforto. Estamos na “Lua de Mel”. Se conseguiu chegar aqui então vai sentir-se confiante. Reencontrou-se! Encontrou novas estratégias para ultrapassar os seus desafios.

Encontrou novas soluções. A viagem valeu a pena e levou-o a bom porto!

Agora penso que se percebe com outra clareza a ideia da “Lua de Fel” em primeiro lugar e depois, a “Lua de Mel”.

 

Boas viagens psicoterapeuticas

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publicado às 10:51



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