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Contos terapêuticos: Ep1 - História da Eduarda

por oficinadepsicologia, em 10.07.12

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Fabiana Andrade

Ao pensar no que escrever para o meu próximo artigo, percebi que estava a ficar aborrecida com o meu formato tradicional de escrita.

Surgiu-me então a ideia de iniciar o que chamei de Contos Terapêuticos.

 

Observei muitas e muitas histórias de clientes, vi que muitas delas apresentam temáticas semelhantes. Essa semelhança estende-se também por histórias que observo mesmo fora do consultório, no meu próprio dia a dia e das pessoas que me rodeiam.

 

Assim, para cada temática decidi criar um personagem. Nesse personagem, represento características de várias pessoas e num breve conto exponho uma situação em que o personagem utiliza as suas características e o seu modo de estar para resolver situações do dia a dia. Além disso, conto ainda como, com a psicoterapia, ele foi capaz de superar seus obstáculos.

Com esse formato, espero que cada um dos leitores possa identificar-se com um ou mais personagens, e assim, encontrar inspiração nas estratégias utilizadas por eles.

 

Abordaremos temas como a solidão e dificuldades de relacionamento, estado de medo/ansiedade, comunicação com os filhos, comunicação com os pais, sexualidade, traumas, depressão, obesidade entre outros.

 

Como o projeto é contínuo, sempre que as histórias que ouço me inspirarem e remeterem a uma temática específica, transponho para o papel e partilho com todos os leitores.

 

Hoje decidi começar pela temática da Comunicação entre Casais!

Assim, surge-nos a Eduarda.

 

Eduarda é casada, tem dois filhos, e pede ajuda pois está a ter problemas no seu casamento com Carlos.

 

São casados há 12 anos, conheceram-se na universidade, namoraram poucos anos e casaram-se. Eduarda refere que na altura da universidade eram namorados, davam-se bem, tinham momentos só para os dois, mas ao lembrar-se dessa época diz “era ótimo mas de uma forma imatura, éramos miúdos, queríamos namorar e não pensar muito em nada.”

Depois do nascimento dos filhos, Eduarda começou a sentir que a relação gradualmente perdeu qualidade. “Houve um afastamento no tempo, nos interesses, nos gostos”.

 

Ela notou gradualmente um desinteresse de Carlos por si mesmo, deixando-se engordar bastante, e via esse desinteresse presente também na própria relação. Ele só falava se fosse pressionado por Eduarda, caso contrário continuava num tenso silêncio.

Da parte dela o que acontecia era uma apatia, um vazio, um descontentamento com quase tudo na sua vida, excepto seus filhos. Passou a trabalhar mais horas, mesmo estando descontente com o trabalho, e acabou por interessar-se por um colega de trabalho.

Essa relação foi descrita como sendo vazia, física, não era uma relação onde ela encontrasse o conforto que não sentia no seu casamento.

Nessa altura decidiu separar-se de Carlos e tentar perceber o que sentia. Foi nesse período de separação, que durou meses, que Carlos perdeu peso, fez exercício físico, segundo Eduarda, ganhou uma nova luz. E da parte dela, houve também uma vontade de estar com o marido, criando uma forma de ser nova, em que se encontravam em hotéis, jantavam fora, faziam amor e depois cada um ia para sua casa. Afirma que muitas vezes sentia nessa fase, que eram só os dois. Que os filhos e a logística diária tinham deixado de ser um peso.

Porque estavam felizes, decidiu voltar para casa.

 

No regresso, inicialmente tudo correu bem, estavam mais próximos e felizes, ela terminou a relação que teve com o colega e decidiu investir no casamento. No entanto, passados alguns meses, ela sentiu que tudo voltou ao mesmo e que a chama voltou a apagar-se. Carlos voltou a engordar e ela, em vez de repetir a mesma estratégia do passado – desligar-se e trabalhar mais do que era possível, decidiu procurar ajuda.

 

Quando chega ao consultório, conta toda a sua história e começa a dar exemplos das situações diárias que representavam problemas na relação:

 

1)      Ela está em casa a noite, a preparar os filhos para dormir, e vê o marido sentado em frente ao computador a devorar bolos, uns atrás dos outros. Já o tinha sentido tenso na hora do jantar mas não sabia o motivo e não perguntou. Ao observar a cena dos bolos ela, com uma voz suave, diz: “querido, devias comer menos bolos, estou preocupada com a tua saúde, isso não te pode fazer bem” ao que Carlos responde com uma cara muito feia “deixa estar que nunca mais como bolos à tua frente!”, guarda o pacote e recolhe-se para o quarto

 

2)      Ela liga a meio do dia para Carlos, algo que não é habitual, mas que lhe apeteceu fazer por sentir que gostava muito dele. Do outro lado da linha, Carlos atende mas está apressado e não reage ao telefonema da forma que ela esperou, deixando-a magoada.

 

Usei esses dois exemplos para ilustrar desentendimentos entre o casal, falta de sintonia e principalmente falta de comunicação eficaz.

Com a Eduarda começamos a usar o exercício das três bocas.

 

O que é isso de três bocas? É um exercício de imaginação. Imaginamos que temos três bocas, uma na nossa boca real, uma abaixo do peito e outra na zona do umbigo.

 

Utilizamos a primeira boca sempre que estamos a falar de algo concreto, assuntos do dia-a-dia, conteúdos do presente, situacionais, opiniões.

As duas bocas seguintes são emocionais. Por vezes temos emoções que “disfarçam” outras emoções mais profundas, por exemplo, estou muito triste mas em vez de expressar essa tristeza, expresso zanga. Neste caso teremos a zanga na boca intermédia e a tristeza na boca ao pé do umbigo.

 

Observar com que boca estamos a falar e com que boca o parceiro está a falar, é essencial para uma comunicação eficaz. Por isso, com a Eduarda usamos esse exercício para trabalhar esses  exemplos.

 

1)      Eduarda –

Boca real – estou preocupada por estares a comer demais e voltares a engordar

Boca intermédia – tenho medo que ao te descuidares eu deixe de me sentir apaixonada; estou zangada por voltares a fazer o mesmo

Boca do umbigo – estou triste, sinto-me impotente

 

Carlos

Boca real – deixa estar, não como mais bolos a tua frente

Boca intermédia – estou zangado, não me dizes o que fazer, tenho raiva e fico magoado contigo

Boca do umbigo – estou triste, não estou a cuidar de mim, não sei o que fazer, sinto-me mal

 

Ao perceber o que estava a ser dito e não dito, Eduarda entendeu que aquilo que poderia ter acontecido era o seguinte:

1)      Eduarda –

Boca do umbigo – quando vejo que não cuidas de ti sinto-me triste e impotente

 

Carlos –

Boca do umbigo – eu também me sinto triste, preciso cuidar de mim, amar-me a mim mesmo mas não sei como

 

Esse tipo de diálogo os deixaria mais próximos e poderia levar a uma zona de entendimento onde Carlos poderia pedir ajuda para lidar com a sua situação e Eduarda, ao mesmo tempo, em vez de afastar-se, poderia ser um elemento chave de apoio.

 

No segundo exemplo, o que se passou foi o seguinte:

 

1)      Eduarda –

Boca real – olá querido, como estás?

Boca intermédia – tenho medo, esse é um comportamento novo e não sei como ele irá reagir

Boca do umbigo – tenho amor por ti

 

Quando nós falamos com a boca real mas no fundo, queremos uma resposta da boca do umbigo, normalmente o que acontece é uma falha na sintonia.

Eduarda aqui comunicou com a boca real, e recebeu uma resposta na mesma frequência, o que a deixou magoada.

 

Carlos –

Boca real –  Sim, tudo bem, e contigo? É urgente? Estou mesmo atrapalhado…

Boca intermédia – Não me dá jeito nenhum falar agora

Boca do umbigo – Não quero falar agora

 

A conversa poderia ter sido diferente se Eduarda tivesse simplesmente dito o que sentia, “sinto amor por ti”. A probabilidade de Carlos sentir-se próximo com essa mensagem e em contacto com o seu estado de amor por Eduarda era muito maior.

 

O que acabou por acontecer foi diferente, Eduarda passou a mensagem numa determinada frequência, mas tinha expectativa de receber a resposta numa outra frequência. Do lado de Carlos, limitou-se a responder na mesma frequência da mensagem emitida por Eduarda, sem ter acesso às suas expectativas e nem à sua reação no decorrer da situação.

 

Muitas vezes, o problema entre o casal é exatamente esse, só falar com a boca real, limitando-se aos conteúdos quotidianos. Quantas vezes deu por si a discutir com o seu marido ou mulher sobre cebolas, horários, miúdos e ao mesmo tempo com a sensação de que a discussão é desproporcional, de que não era sobre isso que devíamos estar a falar?

 

Nenhuma das nossas bocas são certas ou erradas, elas representam apenas frequências diferentes de comunicação e servem para que possamos utilizá-las todas. As três frequências tornam a comunicação mais eficaz e transparente.

 

Se a comunicação numa frequência emocional for bem feita, nunca discutiremos sobre detalhes quotidianos que ficam facilmente resolvidos com um diálogo leve, sem cargas emocionais antigas.

 

O casamento de Eduarda estava carregado de mal entendidos e coisas não ditas, e isso acabou por conduzir à crise, separação e nova crise.

Assim que começaram a treinar comunicar com as três bocas, respirando antes de falar e observando que boca eles mesmos estavam a utilizar, os problemas começaram a desaparecer.

Cada vez que Eduarda sentia que Carlos estava a falar com a boca real ou intermédia, dava uma resposta da boca do umbigo, centrando-se no que estava a sentir, e isso por si só, mudava a dinâmica da conversa, levando à sintonia e solução do problema. Carlos fez o mesmo.

 

E você, com que boca anda a comunicar com o seu parceiro?

 

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publicado às 12:24



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