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Contos terapêuticos: Ep 2: A História do Afonso

por oficinadepsicologia, em 14.07.12

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Fabiana Andrade

Olá a todos!

Espero que tenham lido e gostado do primeiro episódio dos Contos Terapêuticos.

Para quem não leu o primeiro artigo, fica aqui a breve explicação desse projeto: os Contos Terapêuticos são um apanhado de várias temáticas que surgem diariamente nos consultórios da Oficina de Psicologia. Para falar dessas temáticas, criei personagens que representam muitas pessoas com quem trabalhei ao longo dos anos. Dessa forma, espero que o leitor se possa identificar com um ou mais personagens, e assim, beneficiar das estratégias utilizadas por eles.

Boa leitura!

 

Afonso tem 35 anos e chega ao consultório com queixas de ataques de pânico e fobias a lugares fechados.

É um homem inteligente, bem-sucedido profissionalmente, solteiro. Passa-me uma energia de tristeza, apesar de não existirem manifestações óbvias dessa emoção.

 

Ao longo das sessões começo a observar que Afonso tem crises de pânico em momentos específicos, mas vive também constantemente num estado de medo, tensão e antecipação.

Exemplos de situações descritas nas sessões:

- cada vez que tenho uma situação de maior pressão no trabalho, a minha cabeça começa a fazer a antecipação de vários cenários possíveis, fico muito ansioso e não consigo decidir qual a melhor solução

- sinto-me constantemente em piloto automático, já não sei o que me dá prazer; sinto-me preso, comprei uma casa e um carro mas não me sinto feliz, trabalho e ganho bem mas não gosto do que faço

 

Comecemos então com o primeiro exemplo. Afonso descreve que em situações onde se sente pressionado, o seu pensamento começa a divagar em direcção ao futuro, criando cenários possíveis.

 

Esse funcionamento é descrito muitas vezes por clientes que sofrem de ansiedade. Como antecipam vários cenários que não estão a acontecer, ficam muito indecisos e desligados da realidade, do que está de facto a acontecer.

 

Com o Afonso, trabalhamos com Meditação Mindfulness, que é exatamente a observação do que está a acontecer na realidade, quer ao nível do seu pensamento, como na sua emoção e no seu corpo.

 

Assim, sempre que se sentia numa situação de pressão fazia o seguinte exercício: parar, respirar algumas vezes profundamente e em vez de criar cenários possíveis, perguntar a si mesmo, “o que está a acontecer agora?”. Observava o corpo, o pensamento e a emoção e desses três canais, retirava a informação suficiente para tomar uma decisão.

 

Fazendo muitas vezes esse exercício, Afonso percebeu que a antecipação de cenários tinha na base uma grande insegurança nas suas próprias capacidades. Queria prever todas as possíveis situações para se sentir mais seguro. Quando ao ouvir as suas próprias pistas, no presente, se deu conta de que tinha nele a capacidade de decidir, as antecipações ficaram cada vez menos presentes.

 

Quanto ao segundo exemplo, o que eu sentia nas sessões com ele, era um desligamento, como se Afonso não tivesse acesso às suas emoções e por isso, elas não estavam a ser ferramentas necessárias para que ele pudesse fazer mudanças em sua vida.

Depois de perceber que era isso que estava a acontecer consigo, começamos a trabalhar numa lógica de transformar esse modo de ser.

Ao fazermos exercícios de visualização, relaxamento e meditação, fomos capazes de aceder às emoções de Afonso.

A primeira que apareceu foi a zanga. Começamos a falar com a parte de si que estava zangada, Afonso fechou os olhos, respirou e começou a imaginar um diálogo entre ele e a sua parte zangada:

Eu – Afonso, se essa zanga que surgiu pudesse falar, o que diria?

Afonso – diria que quer sair desse sítio, que está farta, que não gosta dessa vida!

De seguida, ao ter consciência da mensagem que estava a passar a si mesmo, Afonso sentiu tristeza.

Eu – e essa tristeza, o que diria?

Afonso – diria que não aguenta mais, parece que eu estou a servir à minha vida e não a minha vida a servir à mim. Não sei como sair disso, sinto-me preso.

Eu – Afonso, se pudesse dizer algo à essa parte de si que está triste, o que diria?

Afonso – vais conseguir, calma, estou aqui e vou te ajudar. Tu és forte..

Eu – além de força, que outros recursos tem?

Afonso – inteligência, sensibilidade, motivação..

 

Depois desse diálogo, Afonso não só sentiu uma série de emoções que estavam bloqueadas e que são uma mais-valia na orientação que pode dar à sua vida, mas também compreendeu que estava completamente “surdo” para si mesmo.

 

Que não “ouvia” quais são as capacidades que tem para gerir a sua vida e isso, o deixava constantemente inseguro. Como estava sempre inseguro, tentava ir buscar fora de si mesmo garantias de que tudo iria correr bem. Como recursos externos nunca nos dão garantias de nada, ele vivia num constante estado de insegurança e ansiedade, passando a estar preso num comportamento de “servir à vida”.

Ao conectar-se consigo mesmo, com as suas emoções e ferramentas, ele passou a gerir a sua vida de acordo com a sua felicidade, vivendo no presente e deixando que suas capacidades surgissem à cada novo desafio ou obstáculo.

 

Deixou de se sentir preso ao mundo que ele mesmo criava e que era apenas ilusoriamente seguro. Abdicou desse controle irreal e passou a ter o único controlo real, aquele que é possível a cada momento, que é controlo que temos sobre nós mesmos, sobre o que queremos ser e como queremos viver. O incontrolável já está resolvido à partida!

 

Com o trabalho de transformar um funcionamento ansioso, num outro que vive no presente, e com a conexão com as próprias emoções, Afonso conseguiu criar os recursos necessários para gerir a sua vida. Decidiu mudar e sair do trabalho que não lhe preenchia, para abrir seu próprio negócio. Protegeu-se de medos e pensamentos negativos que boicotavam seus sonhos e focou-se nas suas capacidades e recursos. Hoje é um homem mais feliz!

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publicado às 10:03



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