Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Co-dependência: quando o amor se transforma num inferno

por oficinadepsicologia, em 14.06.12

Autora: Susanne Marie França

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

 

Susanne Marie França

“Quando a namorada do Paulo termina o relacionamento, ele ameaça que se vai suicidar. A vida sem ela não faz sentido. Tudo o que ele valoriza na vida, está relacionado com ela….Tem sido uma dedicação total…e agora, como é que ele vai viver sem ela? “

 “Cristina faz tudo para agradar ao marido. Ter a sua aprovação é fundamental. Chega a fazer coisas que não tem vontade… chega a humilhar-se….e ele é um bruto! É violento…mas depois fica tão amoroso…tão querido…e promete que vai mudar…que é a última vez…Estar com ele sempre é melhor do que estar sozinha…”


 Quantos de nós não queremos acreditar que os relacionamentos amorosos podem ser uma fonte de crescimento, partilha e uma experiência de respeito mutuo? No fundo todos nós nutrimos a esperança de encontrarmos alguém com quem nos possamos sentir valorizados/as, amados/as e acompanhados/as no percurso da vida.

Mas, para alguns, um relacionamento pode ser uma experiência autenticamente infernal!

Gostaria de abordar convosco o tema dos relacionamentos de co-depêndencia.

 

Acredita-se que o co-dependente é uma pessoa que não tem um sentido do eu bem definido, e consequentemente, não está em sintonia com as suas próprias necessidades, desejos e emoções, sentindo assim uma enorme dependência afectiva, que por sua vez vai exercer pressão nas relações, provocando ansiedade cronica, dificuldades de controlo e expressão emocional adequada e marcantes flutuações de humor. Frequente, é igualmente, a necessidade doentia inesgotável e se sentir amado/a e correspondido/a, levando à procura incessante de “provas de amor”, cujo efeito apaziguador, nunca perdura o tempo suficiente para dar descanso ao desgaste que o ritmo deste tipo de relacionamento impõe.

 

O ponto-chave subsiste no tema do controlo. Pessoas com este tipo de problema sofrem frequentemente de formas de ciúme patológico, comportamentos obsessivos, agressividade passiva, e/ou explicita. Existem autores que consideram este tipo de relacionamento como o equivalente à total perda de auto-estima e perda da capacidade de racionalização e juízo critico. Weiss & Weiss, 2001, classificam este problema na área dos comportamentos aditivos como a toxicodependência, alcoolismo e perturbações de comportamento alimentar, associando outras perturbações como as perturbações de humor (depressão), ansiedade, de personalidade e abuso de substâncias e álcool.

 

Se nos “sintonizar-mos” com pessoas co-dependentes com estes tipos de comportamentos, surge-nos na base de toda esta amálgama de sentimentos e comportamentos disfuncionais, uma “criança interior” desamparada e aterrorizada com medo do abandono e da solidão. Para o adulto co-dependente, ter que defrontar-se com o seu próprio “vazio” é de tal modo amedrontador, que recorre a todos os meios que possam levar os outros a “preencher” esta grave lacuna, transformando-se numa fonte insaciável sorvendo aprovação e amor.

Paradoxalmente existe dificuldade em conseguir reconhecer e receber amor genuíno, temendo a intimidade e a partilha saudável de sentimentos e carinho.

 

Para ajudar a resumir, podemos classificar as dificuldades das pessoas com este tipo de problema em cinco componentes principais:

  • Dificuldade em gerir e reconhecer as suas próprias necessidades, desejos, emoções, vontades, etc.
  • Dificuldade em estabelecer limites saudáveis nos relacionamentos afectivos.
  • Dificuldade em reconhecer e responsabilizar-se pelo próprio comportamento disfuncional.
  • Dificuldade em identificar e expressar competências de controlo emocional e comunicar assertivamente.
  • Dificuldade em valorizar-se e sentir-se merecedor/a de amor.

Todos os relacionamentos apresentam dificuldades e situações de crise. Faz parte integrante de um relacionamento saudável, abraçar a mudança e crescer dentro do próprio sistema relacional. Os relacionamentos co-dependentes trespassam por vezes o senso comum e formam ciclos de funcionamento viciados, sem rumo para aparente crescimento ou mudança.

Se por um lado não podemos viver na fantasia de que os relacionamentos amorosos são como os “contos de fadas”. Por outro, será que não merecemos viver um relacionamento que nos proporcione pequenos momentos de felicidade, em que nos esquecemos de tudo, e por preciosos momentos vivenciamos a experiencia de sermos uma princesa ou um príncipe….Numa história com um final feliz!

 

Se tem consciência de que está num relacionamento de co-dependência, por favor procure ajuda de um psicólogo ou outro profissional de saúde da sua confiança!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:25

Os affairs e seus significados: ver para além da zanga

por oficinadepsicologia, em 13.06.12

Autora: Inês Mota

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

Inês Mota

Os affairs são um tema presente nas relações de hoje e são experiências emocionalmente dolorosas para todos os envolvidos.

Qualquer traição tem um impacto profundo pois cruza temas como o amor e a rejeição, e se a traição é sexual o impacto emocional é normalmente mais avassalador.

 

É importante reter que diferentes tipos de affairs têm normalmente associados diferentes significados. Não espelham de forma tão linear as respostas às perguntas normalmente colocadas: “o que é que ele/ela tem a mais do que eu?”; “significa que já não gostas de mim?”. Pode ser difícil compreender estes quebra- cabeças, mas os affairs não são normalmente uma questão de sexo e não têm normalmente a ver com o facto de se gostar ou não do/a companheiro/a.

 

Os affairs comunicam o sofrimento e o desconforto. São então uma forma de se “falar” acerca do sofrimento pelo qual se está a passar ou pelo sofrimento que se está a passar na relação ou casamento.

Em determinados tipos de relações que os casais têm como lema “não se discutir é sinal de uma relação feliz”, as tantas coisas acumuladas por refletir ou discordar podem falar pelo affair.

Nas relações em que ambos receiam a vulnerabilidade, levantam-se altas barreiras à intimidade e o affair torna-se então mais um escudo protetor.

Nas relações em que um dos elementos se privou de alimentar o seu espaço individual e que sentiu que se sacrificou em demasia pela relação, o affair fala por fim desta necessidade às vezes não conhecida pelo próprio.

Há relações também em que o affair é apenas um veículo para se terminar o casamento e não a razão pela qual ele acaba, distraindo no entanto o casal das verdadeiras questões emergentes.

 

Os affairs são puzzles difíceis de entender mas é importante deixar a mensagem de que por vezes com a coragem de os descortinar, estes funcionaram em muitos casais como catalisadores para se reconstruir e encontrar uma relação muito mais satisfatória do que a conhecida antes do affair, pois foi utilizado como a oportunidade de se conhecer, trabalhar e dissolver os dilemas a ele associados.

 

Fonte: Brown, E. M (2001) Um guia para sobreviver às repercussões da infidelidade

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:30

As armadilhas do casamento

por oficinadepsicologia, em 12.06.12

...ou quando os príncipes e princesas são, afinal, simples seres humanos...

 

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

Isabel Policarpo

O casamento começa quase sempre como uma idealização do outro. Ela olha para ele e acredita que ele a fará feliz, que a completa, que tomará conta dela e que as vossas crianças serão lindas e inteligentes. Ele por seu lado, olha para os seus olhos convidativos e vê um universo cheio de promessa e desejo. Tudo parece perfeito e acreditamos que vamos viver o “e foram felizes para sempre”. Sonhamos com o grande dia e planeamo-lo com um imenso detalhe. Mas apesar de toda a pompa e circunstância, o casamento envolve riscos, porque a idealização inerente ao amor romântico e à paixão pode levar a uma armadilha onde nos podemos sentir verdadeiros escravos.

 

Frequentemente esquecemo-nos que o casamento é como quando compramos uma casa pela primeira vez. Escolhida a casa temos que tratar dela, decora-la, mantê-la, pagá-la, para não falar já nos vizinhos e nas fastidiosas reuniões de condomínio e todo um conjunto de outras coisas decorrentes de termos algo nosso.

 

É aqui que o verdadeiro trabalho do amor começa e acontece. Mas é também aqui, que começa o confronto com a realidade e é muito fácil o casal envolver-se rapidamente em espirais de ressentimento mútuo. "Porque é que eu deveria fazer alguma coisa por ele quando ele só pensa em si mesmo?".      “Agora estás sempre a criticar-me” . ”Senão gostas, vai-te embora” . “Senão gritasses tanto, teria vindo para casa mais cedo”. O ressentimento é o veneno do amor.

 

E para alguns o casamento termina aqui. Para outros é tempo de aceitar a perda de um casamento baseado em mútuas fantasias infantis, mas desistir e abandonar o sonho não é fácil. O ressentimento tem de ceder lugar ao “deixar para trás”, sentimos-nos apertados e angustiados, afinal doí sempre quando temos de deixar algo para trás. Mas lenta e seguramente, é possível substitui-lo por um novo projecto, por uma parceria produtiva e necessária  -  o amor entre dois adultos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:26

A psicoterapia: primeiro "Lua de Fel", depois "Lua de Mel"

por oficinadepsicologia, em 10.06.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

António Norton

Este é um título no mínimo polémico, mas de modo extremamente sintético resume o que significa, para mim, a experiência psicoterapêutica.

Este texto é dirigido a sí, enquanto possível cliente.

 

Quando entra pela primeira vez numa consulta de psicoterapia, expõe aquilo que considera ser o seu problema. Muitas vezes essa exposição é carregada de emoção, o que complica a clareza do conteúdo e a operacionalização do problema. Contudo, fornece valiosas e ricas informações sobre as emoções que pautam e permeiam a vivência subjectiva do seu problema trazido.

 

Muitas vezes, poderá ter a ideia que a pura e aparentemente simples exposição do seu problema é a parte mais complicada da Psicoterapia. Depois? Depois supõe que está bem entregue nas mãos de um profissional o qual lhe dará soluções para conseguir reconstruir-se e prosseguir o seu caminho. Existe a ideia que a Psicoterapia é um processo indolor em que se obtêm rapidamente soluções...

 

Lamento, mas por muito desejável e sedutora que seja esta ideia, muitas vezes, a Psicoterapia não é um processo assim tão simples, tão leve e tão rápido. Acima de tudo, não é um processo exterior a si. A Psicoterapia é, principalmente, uma viagem emocional e você é o principal viajante. E as viagens nem sempre são fáceis...

O Psicoterapeuta é um facilitador dessa viagem. É alguém que o ajuda a escolher determinados caminhos a percorrer, mas não faz a viagem por si, até porque não saberia que mundos explorar. Quem faz a viagem e quem encontra as respostas, é você.

 

E como se encontram essas respostas? Como se muda?

 

Para, de algum modo, dar algumas pistas a esta resposta, gostaria de introduzir a ideia de que

a Psicoterapia poderá ser vista como tendo 4 fases e a mudança dá-se na progressão destas mesmas fases. Então aqui ficam:

 

Incompetência Inconsciente

Incompetência Consciente

Competência Consciente

Competência Inconsciente

 

Enquanto progride ao seu ritmo, pelas duas primeiras fases eu diria que vivencia genericamente um período de “Lua de Fel”. Mais tarde explicarei esta ideia.

 

Quando passa para as restantes duas fases entramos num período de “Lua de Mel”.

 

As duas primeiras fases são difíceis e extremamente desafiantes. Muitos ficarão pelo caminho e desitirão. Nem todos estão dispostos a atravessar a “Lua de Fel”. Os que desistem, ficam decepcionados com a Psicoterapia e com as viagens emocionais que deverão fazer para encontrar as respostas que procuram.

 

Se superarem esta fase, então irão entrar na “Lua de Mel” onde se sentirão gratos por terem tido a coragem e a força interior de se deparar com os seus fantasmas.

 

Vamos então, sucintamente, falar sobre cada uma destas fases:

 

Incompetência Inconsciente: Esta é a primeira fase da psicoterapia. É a fase de onde irá partir para a sua viagem . A palavra – Incompetência - remete para a ideia de incapacidade, de falha: «Eu não consigo». Nesta fase, geralmente, tem uma visão vaga, ambígua, generalizada, pobre em pormenores do problema que o traz. A sua incompetência está ainda num plano muito inconsciente. « Passo a vida ansioso, ou deprimido, ou estou triste, ou cansado, ou sem vontade de viver, ou tenho muitos problemas». E o primeiro objectivo terapêutico é, justamente, tornar consciente a Incompetência.  

 

Incompetência Consciente: Nesta fase, percebe que os seus problemas podem ser equacionados como apresentando pensamentos disfuncionais, emoções disfuncionais e comportamentos disfuncionais. Estes três eixos (cognições/emoções/comportamentos) podem ser situados espacial e temporalmente. «Quando é que está ansioso? O que pensa nessas alturas? Como se sente? O que faz?» Todas estas perguntas feitas pelo Psicoterapeuta são fundamentais para começar a olhar para os seus fantasmas não os encarando com uma aparência disforme e vaga, mas com um contorno definido e com uma expressão identificável.

 

Esta é a fase da consciência dentro e fora da sessão. Quando falo de consciência dentro da sessão, refiro-me à ideia de vivência emocional dos conflitos inter e intrapessoais relacionados com o problema trazido. É o momento de vivenciar as emoções difíceis. É uma fase difícil, dura, perturbante, que gera dúvidas, resistências, frustrações. É uma fase em que parece que o terapeuta quer expô-lo, voluntariamente, ao sofrimento. Muitas vezes dão-se rupturas na aliança terapeutica, justamente, nesta fase. Não é de estranhar que possa ficar zangado com o seu terapeuta e, seguidamente, abandonar a viagem que se propôs fazer.

 

Também fora da sessão é uma fase de consciência, muitas vezes trazida a partir de exercícios de auto-monitorização, em que lhe é pedido para estar particularmente atento a si próprio nos momentos em que apresenta o problema que o trouxe à terapia. Muitas vezes é, inclusivamente, pedido para registar os seus pensamentos, emoções e comportamentos antes e depois da vivência da situação problemática.

 

Esta é uma fase polémica, que gera desacordo. É natural que não queira ficar ainda mais em contacto com o seu problema. Não quer prestar-lhe mais atenção. Só o quer esquecer! Mas... para enfrentar o seu problema tem de o conhecer, para o enfrentar tem de o poder ver. Esse confronto só é possível com uma consciencialização no “aqui e agora” do problema nos seus três eixos já apresentados previamente.

 

A consciencialização também traz outros desafios inesperados e frustrantes. De repente, vai aperceber-se que o seu problema é transversal a muitas áreas. Não é algo circunscrito no tempo e no espaço, mas é algo que , de algum modo, sempre o acompanhou. Dá-se uma consciencialização da transversalidade existencial do problema. Não é situacional, mas sim estrutural. Não é novo, é antigo, mas talvez anteriormente se manifestasse de forma diferente.

 

Esta consciencialização também é penosa. De repente apercebe-se que o seu problema é um novelo com muitos nós e que não basta desatar o primeiro nó. Surgem dúvidas: « Então mas como é que eu vou desfazer este novelo?» Surgem frustrações e novas zangas com o terapeuta. Estamos em pleno na Lua de Fel.

Apercebe-se que o seu problema é um reflexo da forma como aprendeu a responder para se adaptar a um determinado contexto que, de algum modo o ameaçou. Essa aprendizagem ,na altura, foi adaptativa e funcional, mas agora já não o é.

 

Competência Consciente

Entramos na terceira fase. Uma fase mais solarenga, mais optimista, de repente vê-se a “luz ao fundo do túnel”. Existem soluções, estratégias, técnicas, respostas, insights, clarificações, sorrisos e esperança. Mergulhou dentro de si próprio e agora está a começar a sentir outro alívio porque percebe que se conhece, por confrontar-se, por reencontrar-se.

Esta é a fase da experimentação de novas estratégias. As mudanças interiores são operacionalizadas em estratégias comportamentais que agora serão postas em prática. É uma fase em que se poderá sentir algo artificial por estar a experimentar novas soluções. Parece forçado, rígido, pouco natural, artificial, mas é este o caminho.

 

Competência Inconsciente

Chegamos finalmente à última fase. O treino e a automatização de novas estratégias começa a conferir um carácter de naturalidade. Surge outra confiança, a estranheza e o desconforto dão lugar à cumplicidade, identidade e conforto. Estamos na “Lua de Mel”. Se conseguiu chegar aqui então vai sentir-se confiante. Reencontrou-se! Encontrou novas estratégias para ultrapassar os seus desafios.

Encontrou novas soluções. A viagem valeu a pena e levou-o a bom porto!

Agora penso que se percebe com outra clareza a ideia da “Lua de Fel” em primeiro lugar e depois, a “Lua de Mel”.

 

Boas viagens psicoterapeuticas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:51

Sobre os riscos de não escolher

por oficinadepsicologia, em 09.06.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

Joana Fojo Ferreira

Grande parte dos impasses com que nos deparamos na vida têm a ver com a dificuldade em fazer escolhas. É difícil tomar a decisão de escolher um lado, percebendo que isso pode implicar perder o que o outro lado nos poderia dar.

O que muitas vezes não contemplamos é o que perdemos neste impasse, como ficamos presos num ciclo em que, se poderíamos sentir que assim pelo menos não perdemos nenhum lado, a realidade é que também não ganhamos nenhum.

Porque também há riscos em “não escolher”, aqui vos deixo uma história citada no livro Deixa-me que te conte de Jorge Bucay:

 

Era uma vez um centauro que, como todos os centauros, era metade homem, metade cavalo.

Uma tarde, enquanto passeava pelo prado, sentiu fome.

“Que hei-de comer?”, pensou. “Um hambúrguer ou um fardo de alfafa? Um fardo de alfafa ou um hambúrguer?”

E como não conseguiu decidir-se, ficou sem comer.

Caiu a noite e o centauro quis dormir.

“Onde hei-de dormir?”, pensou. “No estábulo ou num hotel? Num hotel ou num estábulo?”

E como não conseguiu decidir-se, não dormiu.

Sem comer e sem dormir, o centauro ficou doente.

“Quem hei-de chamar?”, pensou. “Um médico ou um veterinário? Um veterinário ou um médico?”

Doente e sem conseguir decidir-se sobre quem chamar, o centauro morreu.

As pessoas da aldeia aproximaram-se do cadáver e ficaram cheias de pena.

– Temos de enterrá-lo – disseram. – Mas onde? No cemitério da aldeia ou no campo? No campo ou no cemitério da aldeia?

E como não conseguiram decidir-se, chamaram a autora do livro que, como não conseguiu decidir por eles, ressuscitou o centauro.

E serafim, serafim, esta história não tem fim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:59

Casamentos infelizes: reparar o "barco do amor"?

por oficinadepsicologia, em 03.06.12

Autora: Inês Mota

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

Inês Mota

O casamento ou a conjugalidade é um marco precioso nas nossas vidas. É sabido que é difícil manter o “barco do amor” em velocidade cruzeiro e todos sabemos também que por vezes a viagem contempla águas turbulentas ou agitadas.

No entanto, se lhe parece que de forma permanente não se sente feliz na sua relação, os dados a seguir podem ajudá-lo a motivar-se a investir a uma “inspecção” à mecânica do seu  antigo “barco do amor”.

 

Gottman, J., estudou 650 casais e seguiu o percurso dos seus casamentos por mais de 14 anos e revela que um casamento infeliz pode aumentar as probabilidades de ficar doente em cerca de 35% e mesmo diminuir a vida em 4 anos.

 

As probabilidades são melhor percebidas se atendermos ao facto de que as pessoas casadas que vivem infelizes experimentam um stress físico e emocional crónico com maior frequência o que pode determinar, por exemplo, tensão arterial elevada, doença cardíaca, ansiedade, depressão, abuso de substâncias e violência.

 

Num outro estudo conduzido pelo autor, dados significativos dizem-nos que nos casais infelizes com filhos os pais não são os únicos que sofrem, as crianças dos casais onde habita a hostilidade revelaram também níveis crónicos de hormonas de stress comparadas com as outras crianças estudadas. Estas crianças foram seguidas até idade de 15 anos e verificou-se que sofriam mais frequentemente de depressão, conflituosidade, rejeição pelos pares, problemas de comportamento, nomeadamente heteroagressividade, baixo rendimento escolar e mesmo insucesso escolar.

Desta forma fica claro que as consequências de, pelos filhos se manter um casamento onde a hostilidade é a regra, demonstram ser demasiado sérias e pesadas.

 

Gottman, revela-nos um achado valioso do decorrer da sua investigação: de que a maioria dos casais que mantiveram casamentos felizes, evidenciaram um casamento emocionalmente inteligente. Estes casais demonstraram ter atingido uma dinâmica que impede que os pensamentos e sentimentos negativos acerca um do outro se sobreponham aos positivos. Desta forma quanto mais um casal for emocionalmente inteligente mais é capaz de compreender, honrar e respeitar-se mutuamente e ao seu casamento. Segundo, o autor e felizmente para todos “os barcos do amor” que estão ancorados à espera de uma melhor maré, a inteligência emocional é uma capacidade que segundo o autor, pode ser ensinada a um casal. Com motivação, persistência e amizade conjugal poderá deixar-se navegar novamente em velocidade cruzeiro, e em marés tranquilas.

 

Fonte: Gameiro, J. (2007) Entre Marido e Mulher…Terapia de Casal, trilhos editora

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:08

Viva a vida de vez: o paradoxo do burro de Buridan

por oficinadepsicologia, em 02.06.12

Autor: Luis Gonçalves

Psicólogo Clínico

www.oficinadepsicologia.com

Facebook

 

Luís Gonçalves

Há uns anos atrás conheci uma história simples. Daquelas tão simples que mudam tudo. Comenta-se que vem até dos tempos do fabuloso Aristóteles, antes do também inspirado Jean Buridan, filósofo francês do século XIV. Independentemente das várias versões ou origens, a história que ouvi falava de um burro que, perante dois fardos de palha equidistantes e igualmente apetecíveis, acaba por morrer à fome por não conseguir decidir qual deles devia comer. Bem, aquilo fez-me sentido imediato! Não é que nos acontece o mesmo regularmente? Tantas e tantas vezes damos por nós sem conseguir escolher, ficando até totalmente paralisados e agitados. Acabamos por medir tanto as distâncias que perdemos o momento e as opções. Acima de tudo, perdemo-nos a nós próprios. Uma espécie de auto-sabotagem. E porquê?

 

Porque não é a razão que nos faz felizes, é a EMOÇÃO. A racionalidade serve apenas, e acima de tudo, para questões materiais. A emoção é a sabedoria de milhares de anos de evolução que habita o corpo de cada um de nós. O brilho dos nossos olhos, o calor do nosso corpo e a vitalidade que sentimos perante um caminho de vida, perante um local ou uma pessoa são tudo o que precisamos para saber que rumo escolher. Relembre agora alguns dos eventos mais importantes da sua vida. Repare quantos deles aconteceram porque, precisamente, correu riscos, porque saiu da sua zona de conforto e quis ir mais além. Experimente até fechar os olhos e focar-se no mais intenso deles, neste preciso momento... e repare como o seu corpo começa, a pouco e pouco, a responder e a fazê-lo sentir tão vivo! Ah pois, o seu corpo é sábio. Lembro-me do meu primeiro salto de paraquedas num evento que organizei de coaching. Olhar lá para baixo metia-me medo, muito medo. Era natural, nunca tinha feito tal coisa! Mas se ensaiasse o salto mais me iria paralisar, mais me sentiria incapaz e pequeno. E assim, mais dificuldades surgiriam na minha cabeça, consumindo-me nesse processo e impedindo toda a satisfação que o momento me podia dar. Mas a adrenalina era tanta que saltei determinadamente e para um dos mais excitantes momentos que vivi até hoje. Foi brutal!

 

Mas de onde vem a nossa capacidade e confiança para fazer opções? Da nossa educação, socialização e história de vida. Ora vejamos! Será que fomos cuidados e encorajados a validar e expressar as nossas emoções e necessidades desde pequenos? Será que nos fizeram sentir fortes e capazes ao longo dos anos? Será que nos fizeram sentir que o erro faz parte da aprendizagem e que o nosso valor não ficava posto em causa se falhássemos uma vez ou outra? Ou será que nos incutiram que a opinião dos outros sobre nós é muito importante, até mais do que a nossa própria? Será que fomos tão protegidos (fazendo-nos, com isso, sentir frágeis e/ou dependentes)  que não caímos vezes suficientes para aprender a andar cedo e bem? Será que nos fizeram sentir culpados de cada vez que tentámos ser autónomos e crescidos? Pois é, acredito que se possa rever em algumas destas opções. São apenas alguns exemplos do que decide a nossa capacidade de escolher. E, portanto, de viver!

 

Infelizmente, podemos não conhecer, acarinhar e viver as nossas necessidades e desejos. Podemos viver tão centrados nas dos outros que vivemos uma vida que julgamos feliz e plena. Até que algo acontece. Subitamente a vida como a conhecemos começa a perder o encanto. Falta-nos qualquer coisa mas (ainda) não sabemos o quê. Pensamos, analisamos e voltamos a analisar para a descobrir. Nada de novo: apenas estamos a repetir formas passadas e intelectualizadas de gerir o desconforto e a novidade! E nesse processo em que o medo é uma constante, ficamos como o burro de Buridan. Definhamos e ficamos frágeis e indecisos. E quanto mais frágeis nos sentimos, mais usamos a razão para “tentar” ter certezas da “melhor” decisão. Pura ilusão! É que os dias passam e sentimos uma parte “nova” de nós a irromper do nosso peito, já não a conseguimos esconder mais. Ela é feita da nossa essência, do nosso verdadeiro eu. Tem tanta emoção que vibra apaixonadamente por vida, por fusão, por plenitude. É, afinal, um grito de mudança. Talvez a vida que temos vivido não fosse realmente a nossa. Precisamos agora de mais e melhor. E mesmo que o receio do desconhecido nos possa levar a abafar essa voz, ela não se calará jamais. Porque se iniciou um processo irreversível e é agora uma questão de dias até que volte outra vez e com maior fervor. Voltará até ao dia em que a abrace definitivamente, reorientando a sua vida como ela tanto lhe pede.

 

E aí sim, você será verdadeiramente feliz!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:38

Pág. 2/2



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D