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Estratégias para melhorar a auto-confiança

por oficinadepsicologia, em 19.08.12

Autora: Cláudia Almeida

Psicóloga Clínica (OP Nacional - Porto)

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Cláudia Almeida

Sente-se confiante no seu trabalho? Qual o grau de confiança que tem em si mesmo? Quando está com os seus amigos sente confiança em si? E quando está com a sua família? E com o seu namorado/companheiro? E em relação às diferentes atividades, como apresentar trabalhos, conversar com um desconhecido, ou falar em publico? Sente-se confiante na maior parte destas situações? Sente-se confiante independentemente das situações?

Quando falamos em autoconfiança referimo-nos à segurança que cada um sente independentemente da situação em que se encontra. Apesar de sermos bons, termos competências ou capacidade para um bom desempenho num determinado domínio, não sabemos tudo. É a forma como encaramos as nossas dificuldades que nos ajuda a desenvolver/ou não a nossa autoconfiança.

 

Posso não saber algo, mas sentir-me confiante para aprender!

 

A autoconfiança estabelece uma intenção face algo e a probabilidade de ser capaz de conseguir encontrar uma forma de ter êxito.

 

Como é alguém com baixa autoconfiança?

  • Desvalorizam a sua capacidade sobre o que são capazes de fazer, sendo excessivamente críticos;
  • Assumem uma postura secundaria, tímida e reservada face aos outros;
  • Ruminam situações com possíveis resultados negativos que aconteceram no passado;
  • Tendem a fazer tudo o que podem para agradar os outros:
  • Assumem uma culpa que muitas vezes não existe.

 

Assim, podemos dizer que a falta de autoconfiança é incapacitante e limita-nos nas oportunidades que vão surgindo ao longo da vida, pondo em risco as nossas possibilidades de conseguir ter sucesso. Isto é, quando estamos constantemente a pensar que o nosso resultado não vai ser o pretendido, isto leva a direcionarmos o nosso foco de atenção para fora do nosso objetivo. Por outro lado, se formos autoconfiantes as possibilidades de obtermos sucesso são mais e favoráveis. Quando temos confiança que é possível obter sucesso, faremos tudo o que é necessário para que tal aconteça.

Se não temos conhecimento, vamos aprender.

Se não temos competência, vamos tentar adquiri-las.

Se algo de inesperado acontece, vamos tentar encontrar uma solução.

 

                O ponto de partida é o mesmo para todas as pessoas, mas é o desenvolvimento da nossa autoconfiança que irá permitir que possamos chegar mais além do que alguém que n ão a tem.


A autoconfiança elevada é claramente um trunfo.

 

Como aumentar a autoconfiança?

  • Implementar o sentido de auto-crença positivo. A forma como comunicamos connosco mesmos tem um peso importante na construção da nossa autoconfiança;
  • Criar um pensamento positivo e visualizar os resultados positivos, focando os pontos fortes e não os fracos;
  • Verbalizar para nós próprios frases e afirmações motivadoras, orientadas para a solução da situação.
  • Dizer frases e palavras de incentivo para nós próprios;
  • Ouvir musica animada, ler e ver programas inspiradores.
  • Trabalhar as lacunas que fazem com que sintamos uma baixa autoconfiança.
  • A confiança não é uma garantia de sucesso, mas um padrão de pensamento que irá melhorar a probabilidade de sucesso, a busca insistente de formas de fazer com que as coisas funcionem. A competência em qualquer coisa ou área pode ser desenvolvida através da prática, preparação e experiência. A chave para o desenvolvimento de competências, é através do envolvimento na aquisição de conhecimento, aplicando-o várias vezes até que se torne eficaz. Baseando-nos nas experiências treinadas e trabalhadas, iremos paulatinamente sentirmo-nos mais preparados, o que nos conduzirá a uma sensação naturalmente mais autoconfiança.

 

Quando nos encontramos perante uma situação em que não nos sentimos autoconfiantes, é importante perguntarmo-nos: Porque não me estou a sentir auto-confiante? De onde é que esta incerteza vem? Ao que é que estou a associar a minha auto-estima?

Quando nos apercebemos ao que associamos o nosso valor pessoal, começamos a diminuir e a destruir a nossa crença negativa que é limitante. Só nos podemos sentir dignos ou confiantes face a determinados pré-requisitos. Quando fizermos isto, vamos encontrar-nos preenchidos por uma forma de pensar em que a autoestima está sempre presente, independentemente do que possa acontecer.

 

E porque não começar já hoje a aumentar a sua auto-confiança, sem esforço, apenas usando o poder da hipnoterapia sugestiva? Vá até à nossa loja e descarregue já o programa!

publicado às 11:15

O que nos diz a memória

por oficinadepsicologia, em 18.08.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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Pedro Diniz Rodrigues

Poderemos dizer que a memória nos diz quem somos, dá-nos uma noção de continuidade, confere-nos uma identidade que nos integra e realiza. Ao recordarmos, revela-nos e oculta-nos parte da nossa história. Olha por nós, organizando-se e zelando pelo nosso equilíbrio interno. Garante esta gestão, condicionando e orientando toda a nossa experiência pessoal.

 

Gostaria de reflectir consigo por alguns momentos, sobre a natureza dessa influência e de como é sentido em nós o efeito desta componente psicológica tão importante.

 

É provável que no decorrer da sua vida já se tenha deparado com pensamentos como:

 

Sinto-me assim e não sei porquê. Eu sei que não tenho motivo…

 

Reajo sempre daquela forma e não percebo a razão. Eu sei que não faz sentido, mas… Não consigo deixar de sentir ou pensar aquilo.

 

Quando falo com aquela pessoa, fico desconfortável... Não percebo, eu não sou assim.

 

Quando estou nervoso, fico a pensar no que pode acontecer… Isto faz-me lembrar quando era mais novo e fiquei muito muito nervoso numa dada situação.

 

Que aspectos lhe parecem comuns aqui?

 

Posso sugerir alguns. Para além do possível desconforto associado às situações em que estas frases aparecem, está o desconhecimento da sua causa. Ou seja limitamo-nos a constatar o produto final, de algo que não percebemos como surgiu. É como se estivéssemos a dançar ao som de uma música, que não nos agrada particularmente e que nem sequer sabemos como começou a tocar.

 

Para compreendermos um pouco melhor sobre como se criam tais predisposições e a forma como exercem os seus efeitos na nossa pessoa, será útil estabelecer algumas relações entre a memória e outros aspectos da nossa experiência subjectiva.

 

Numa primeira análise, será importante considerar que a memória tende a ser concordante com o nosso estado de humor, ou seja escolhemos a informação da realidade ou vamos buscar selectivamente a informação que temos armazenada, quando esta é concordante com o estado de humor em que nos encontramos nessa altura.

 

Por exemplo, quando se sente feliz tenderá a seleccionar ou recuperar memórias, em que o seu conteúdo é efectivamente positivo (mais do que se for um material que tenha uma representação deprimente ou negativa). Aquilo que experienciamos é então melhor aprendido se o tom afectivo da informação a que temos acesso, está em harmonia com o que estamos a sentir naquele momento.

 

Outro aspecto importante a considerar, é que a memória pode ser dependente do estado de humor, ou seja, há uma elevada probabilidade de recordar material que foi aprendido num determinado estado de humor, quando voltamos a estar num outro momento, num estado de humor semelhante.

 

Simplificando, se ouvir uma história ou viver um episódio da sua vida enquanto se estava a sentir triste ou deprimido, essa história ou acontecimento terá mais probabilidade de ser recordada quando se encontra novamente num estado de humor idêntico aquele em que tinha quando viveu essa situação.

 

O que a investigação nos diz é que este fenómeno varia em função da natureza do material memorizado, sendo mais consistente quando o tipo de conteúdo memorizado é auto-referente, ou seja, quando tem mais implicações na nossa pessoa, ou se preferirmos, quando é emocionalmente mais significativo.

 

Isto leva-nos a reflectir sobre a forma como a nossa memória se organiza. Será importante ter em conta que as memórias de acontecimentos emocionalmente intensos são retidas de forma diferente das memórias de acontecimentos tidos como neutros. Uma vez que as primeiras têm maiores implicações no equilíbrio psicológico e na capacidade de mantermos a integridade da nossa estrutura interna, tal informação fica portanto codificada no nosso cérebro de formas mais complexas, com ligações mais densas. É no entanto curioso pensar, que as memórias que mais nos influenciam, são aquelas que temos mais dificuldade em aceder.

 

Se um determinado acontecimento das nossas vidas, desencadeia emoções extremas, ou se somos expostos a uma situação traumática intensa e repetida, tendemos a desenvolver vários tipos de reacções defensivas que vão desde a simples negação da realidade vivida até aquilo que chamamos de amnésia psicogénica.

 

Existe nestes casos, uma quantidade abundante de informação significativa que não estará acessível à consciência sem a ajuda de pistas contextuais adequadas. A nossa emoção, que embora possa inibir o processamento de detalhes que são irrelevantes ou secundários à situação que desencadeou a nossa resposta emocional, é responsável por revestir a memória de características centrais ou essenciais dos eventos traumáticos.

 

Enquanto aspectos factualmente neutros da nossa memória, requerem um processamento mais intencional no nível da recordação explícita, aspectos emocionais fortemente associados a detalhes perceptivos e sensoriais (audição, visão, olfacto, e outros) evocados na altura do acontecimento, são mais difíceis de serem recuperados com tentativas explícitas. Tais eventos são mais acessíveis sob condições de recordação implícita.

 

Resumindo, a nossa dificuldade em recordar eventos emocionais significativos, consiste parcialmente no acesso insuficiente à informação sobre a situação, armazenada a um nível explícito (ou consciente) da memória.

 

Esta aparente diferença na organização das nossas memórias, mas ao mesmo tempo interligada, dá assim origem ao fenómeno da dissociação da memória, ou seja, em que a emoção que esteve associada ao evento que a desencadeou, volta a ser experienciada na ausência desse evento. Esta dissociação de memória, pode-se também evidenciar de maneira oposta, quando recordamos a informação da situação, mas não conseguimos aceder ao impacto emocional que essa situação teve em nós. É uma memória sem emoção aparente.

 

Poderá perguntar-se sobre qual a utilidade de recuperar o que não nós é naturalmente acessível na nossa mente consciente? Porquê remexer em algo que a nossa memória não nos quer mostrar?

 

A possibilidade de ter acesso a tal movimento interno de procura, ajuda-nos a perceber a causa da nossa predisposição para agirmos num padrão que não nos satisfaz, de passarmos a ter a possibilidade de quebrar esse padrão, refinando-o e aprimorando a forma como ele se manifesta, tornando-o mais adaptativo e satisfatório.

publicado às 10:55

Era uma vez um manjerico mágico

por oficinadepsicologia, em 17.08.12

Autor: Luís Gonçalves

Psicólogo Clínico

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Luis Gonçalves

 

Era uma vez um manjerico como outro qualquer. Sim, leu bem… vim contar uma história sobre uma dessas plantas tão típicas dos Santos Populares. E uma pergunta fará já de seguida: mas que tem a ver uma planta com psicologia? Nada, aparentemente nada. Mas talvez esta o inspire, a minha ideia é essa.

Certo dia, um rapaz comprou um manjerico por altura do Santo António. Depois de ouvir e ver histórias sobre a sua grande sensibilidade e curto período de vida, decidiu abraçar este ambicioso projeto. Juntou então a sua grande ligação à Natureza ao gosto por desafios e decidiu tentar manter a planta viva e facilitar o seu crescimento. Não arranjou o manjerico por uma questão de ser habitual as pessoas terem-nos por esta altura. Nem tão pouco pela quadra tão típica que ele trazia, por muito cativante que fosse como prenda amorosa seguindo a tradição popular. A sua intenção era apenas cuidar atenciosamente dele, fazendo-o sobreviver e reproduzir-se. Mas sem sequer pensar que o desafio se iria tornar muito maior do que ele alguma vez supôs…

E os primeiros dias revelaram-se promissores. O manjerico parecia estar a corresponder muito bem à atenção que lhe era dada. Parecia saudável e o contentamento do rapaz crescia de dia para dia. Afinal de contas, tinha feito uma “aposta” com a sua mãe. Havia sido ela que, em tempos distantes, lhe tinha dado a conhecer este ser vivo tão lisboeta e bem cheiroso. Na sua infância, lembrava-se dela comprar sempre um para festejar o Santo António e alegrar a casa. Mas eles não duravam muito, havia ali qualquer coisa que falhava. E o rapaz decidira agora que estava na altura de tentar inverter a tendência. Tudo parecia apontar para o sucesso, à medida que o manjerico se mostrava cheio de vitalidade e pronto para crescer. Até que um dia…

Até que um dia surgiu uma corrente de ar em casa que fez tombar o vaso, criando um cenário desolador. Em segundos, havia bocados de barro cozido, terra e de manjerico por todo o lado. O rapaz ficou desolado porque não gostava de ver nenhum ser vivo naquele estado. E claro que se sentiu frustrado por, mais uma vez, assistir ao fim de um manjerico. A tal planta que era suposta dar alegria.

Manjerico da OP



Mas ele não se deu por vencido: pegou meticulosamente nos pedaços que sobraram, improvisou um vaso e juntou-lhe alguma terra. Não havia tempo a perder! Acreditou ser possível fazer renascer este resquício de vida apenas com o seu afeto. Houve até momentos em que achou que não ia conseguir, a tarefa tinha-se tornado gigante. Dia após dia manteve o seu cuidado pelo que sobrava do manjerico outrora vistoso e jovial. E à medida que o tempo passava, havia algo nele que lhe dizia para continuar. Para persistir. Para acreditar.

Chegou então um dia em que o rapaz olhou com maior detalhe para o seu manjerico sobrevivente, como se procurasse secretamente um sinal do desfecho desta história. E tal não foi o seu espanto quando reparou que a planta estava de ótima saúde, verde e cheia de vitalidade. Mas não era tudo, o melhor vinha a seguir. Observou que pequenas folhas despontavam por todo o lado, num fenómeno de vida simplesmente notável. O desafio que era grande e que, mais tarde, se tornou quase intransponível, havia sido vencido com um grande sorriso à mistura!

O que tirei desta história foi que devemos sempre lutar por aquilo em que acreditamos. Aconteça o que acontecer, há que manter a fé e a determinação. Devemos continuar sensíveis à sensibilidade que nos rodeia, mesmo quando a desilusão toma conta de nós e nenhum resultado vemos do nosso esforço. Seremos até resilientes ao ponto de transformar obstáculos em momentos de superação e energia, ressignificando-os como recursos positivos. E que nunca devemos esquecer o mundo natural. Devemos aprender a lê-lo e respeitá-lo: ele tem chaves que mudarão a nossa existência.

E no final disto tudo, olharemos para trás e sentiremos que valeu a pena. Que nos tornámos mais e melhor. Que conseguimos.

(Já agora, o rapaz da história sou eu e o manjerico valente é este!)

publicado às 10:36

Olhar o luto

por oficinadepsicologia, em 16.08.12

Autora: Ana Beirão

Psicóloga Clínica

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Ana Beirão

Há quem diga que a única certeza na vida é a morte, vista como o fim de um percurso natural. É sem dúvida uma certeza apesar de ser uma verdade que a maior parte de nós custa a aceitar, principalmente quando a pessoa que se perde é muito importante. Desde sempre que o Homem tem tentado lidar com  a ideia da morte, na mitologia grega, por exemplo, a alma do defunto era levada, em segurança pelo barqueiro Caronte, através dos pântanos do Aqueronte para a margem do Rio dos Mortos. Como parte do ritual funerário, os familiares da pessoa falecida, colocavam na sua língua uma moeda de forma a pagar o transporte para o outro lado do rio. Havia a necessidade de sentir que o falecido era protegido e que poderia depois descansar.

 

Tratava-se a pessoa que falecera com o cuidado necessário, mas e os que ficaram? Como é que se tratam aqueles que ainda vivem e que sofrem com uma perda. A maneira como enfrentamos a morte e o luto é influenciada pela sociedade em que vivemos, pela religião e cultura, assim como pelas nossas percepções pessoais. Todos vivemos separações e perdas mas o luto é um processo pessoal de cada um, tendo em conta a importância da pessoa que se perde, a maneira como olhamos e lidamos com essa perda e o modo como nos adaptamos a essa ausência. O luto é visto como um conjunto de reacções diante de uma perda significativa que provocará alterações na vida da pessoa, como na actividade do quotidiano, na segurança, no contacto, na percepção do futuro, no relacionamento com os outros. O processo de luto prolonga-se no tempo, é individual, mesmo quando se trata de uma perda em contexto familiar, e implica reajustar a vida. Pode desenvolver-se de uma maneira normal ou patológica (por exemplo, quando o luto é negado durante muito tempo). Se o processo for normal, este toma o seu próprio ritmo, evoluindo naturalmente, com uma duração aproximada de seis meses a um ano. As reacções passam pela falta de vontade para viver o dia-a-dia, grande desinteresse pelo mundo exterior, sentimento de incapacidade de voltar a amar de novo, dificuldade em desenvolver toda e qualquer actividade que não esteja associada à memória de quem se perdeu. Os sentimentos são diversos e podem passar pela tristeza profunda, angústia, descrença, raiva, sentimento de culpa, depressão, ansiedade, recriminação, fadiga mental, confusão, a sensação que a pessoa que se perdeu continua presente, entre outros.

 

O luto passa por um ciclo que se divide em três fases complexas, que nem sempre são evidentes: a Fase da Crise, a Fase da Desorganização e a Fase da Organização.

Na primeira fase a pessoa tenta processar o choque da notícia, que vai depender da morte ter sido esperada ou súbita. As expressões emocionais podem ser intensas e por vezes inclui-se uma negação emocional, rejeitando o que é dito. Os sentimentos passam por insegurança, desejo de vingança, raiva, culpa. Na segunda fase, é se invadido por um sentimento de vazio e desorientação, como que se a vida perdesse o sentido. Aqui manifesta-se o desespero, a inquietação, as insónias, as preocupações e a saudade do outro.  Na terceira fase, começa-se a processar a aceitação da perda definitiva e o equilíbrio físico e psicológico começa a surgir. O recordar já não é doloroso, a pessoa perdida é incluída na nossa memória e história de vida e a perda ultrapassada.

 

O luto pode ser muito doloroso e apresenta uma série de mudanças psicológicas e psicossociais, alterando os comportamentos e padrões normais de funcionamento. Se sentir que este é um processo difícil de superar sozinho ou a situação que enfrenta é mais complexa do aqui relatada, então peça um aconselhamento especializado e partilhe a sua dor e preocupações. Poderá sair deste processo com uma maior confiança em si e uma maior aptidão para lidar com novas situações de luto.

publicado às 15:07

Menopausa e vida sexual

por oficinadepsicologia, em 15.08.12

Autora: Joana Florindo

Psicóloga Clínica

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Joana Florindo

A menopausa, por definição, traduz o fim da capacidade reprodutora feminina, com a cessação da produção hormonal nos ovários e a consequente extinção da menstruação. Sendo a última etapa do climatério, encerra um período de modificações no ciclo menstrual, que embora possa manifestar-se de forma distinta de mulher para mulher, conduz em todas elas uma série de sintomas e importantes transformações físicas e psicológicas. Estas, sentidas com maior ou menor intensidade e duração, representam novidade e mudança na vida da mulher, assim como na vida de com quem ela vive, e requerem como tal, ser conhecidas por todos, para melhor poderem ser integradas e vividas.

 

Os “calores súbitos” ou “afrontamentos” são possivelmente os sintomas mais frequentemente descritos, e surgem com maior frequência durante o primeiro ano após a última menstruação. São relatados como “ondas de calor inesperadas e repentinas”, geralmente acompanhadas por um rubor da pele do rosto, pescoço e peito e por uma desconfortável sensação de suor e transpiração. Podem ser bastante inquietantes, interferindo com o sono do casal quando ocorrem durante a noite

 

A nível sexual, a “diminuição do desejo” ou o “desinteresse” apresentam-se como as queixas mais escutadas em consulta, sendo amplo motivo de sofrimento e mal-estar para o casal. Estas queixas, na sua maioria, encontram proveniência nas alterações físicas e fisiológicas que ocorrem durante e após a menopausa. Ora vejamos:

Secura vaginal – Devido a uma baixa capacidade de lubrificação, consequente da diminuição da produção hormonal, a secura vaginal leva a que as relações sexuais possam ser muito incómodas, ou mesmo bastante dolorosas para a mulher, podendo até em algumas situações provocar sangramentos. Associado à secura, ocorre ainda a diminuição do espessamento das paredes vaginais, podendo intensificar a dor sentida. O sexo passa a ser sinónimo de dor, o que faz com que seja evitado a todo o custo.

 

Alterações de Humor – Em consequência das alterações hormonais, a ansiedade, a irritabilidade e mesmo a depressão são companheiras habituais da mulher em menopausa. Estas acabam por interferir com a disponibilidade emocional que a mulher tem para se envolver sexualmente, assim como com o seu desejo.

Muitas mulheres, nesta fase das suas vidas, encontram-se deprimidas e a tomar medicação anti-depressiva, o que pode asfixiar ainda mais o seu desejo sexual.

 

Auto-imagem – Sabendo que a auto-imagem é um factor determinante no bem-estar da mulher, não é de espantar que tenha uma interferência tão importante no seu desejo sexual. Ela encontra-se numa distinta fase da sua vida, num período claro de transformações que ocorrem naturalmente e para lá do seu controlo, e que exigem muito de si. As alterações corporais como o aumento de peso, a possível incontinência, a perda de elasticidade da pele, entre tantas outras, afectam amplamente a forma como ela se vê e se sente a nível sexual. Não se sentido bem com o seu corpo em mudança, evita qualquer tipo de exposição, acabando por não se conseguir entregar sexualmente. O desejo sexual acaba assim por ser comprometido.

 

Embora se assumam como agentes condicionantes do desejo sexual, os factores mencionados não devem ditar o fim de uma vivência sexual satisfatória. Existem, nos dias de hoje, inúmeras respostas que podem ajudar a mulher e/ou o casal a superar estas dificuldades. Um acompanhamento médico e psicológico imediato e próximo, ajustado às necessidades particulares de cada caso, poderá ajudar a obter uma vivência sexual mais satisfatória.

publicado às 16:20

A dupla face da ansiedade

por oficinadepsicologia, em 14.08.12

Autora: Marta Gonçalves Porto

Psicóloga Clínica

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Marta Gonçalves Porto

A ansiedade pode ser definida como um estado emocional em que a pessoa se sente de forma desagradável, alarmada e tensa, na expectativa de que qualquer coisa desagradável e indefinida lhe vai acontecer. O indivíduo sente-se inseguro e indefeso perante uma ameaça que não consegue identificar. Por outras palavras, é um estado de alarme e medo relativamente a algo que é percepcionado como perigoso.

Assim, a ansiedade resulta de uma antecipação do futuro, impedindo o sujeito de experienciar o presente.

 

A inquietação psíquica característica dos estados ansiosos é acompanhada por uma inquietação motora (tiques ansiosos) e sintomas físicos (taquicardia, palpitações, dificuldade respiratória, tremores, sudação, náuseas e vómitos, entre outros).

 

Quando estamos a abordar a temática da ansiedade, podemos verificar a existência de duas formas deste estado emocional: ansiedade normal e ansiedade patológica. A primeira, que é uma resposta natural à percepção de ameaça, encontra-se associada a acontecimentos e é explicável em função do estímulo que a desencadeia. Outra das características da ansiedade normal prende-se com o seu carácter reactivo e esporádico, não acarretando repercussões na eficiência cognitiva e no funcionamento corporal. Possui uma função mobilizadora e adaptativa que permite criar estratégias de resposta perante os problemas. Neste sentido, podemos dizer que a ansiedade normal não requer tratamento, dada a sua natureza lógica e cronológica.

 

Já no que se refere à ansiedade patológica deparamo-nos com uma desproporção intensa entre o estado emocional do sujeito e a importância do acontecimento, ou, então, com uma resposta sem relação com estímulos externos, sendo persistente e repetitiva. A ansiedade patológica, contrariamente à ansiedade normal, afecta a eficiência cognitiva (diminuição no rendimento da memória, atenção e pensamento), faz reviver situações passadas também vividas como ameaçadores na altura e acarreta repercussões corporais significativas.

 

Tendo em consideração as diversas repercussões desorganizadores do mundo interno e relacional do sujeito, a ansiedade patológica requer tratamento psicoterapêutico, sendo que quanto mais precoce for a intervenção, menos consequências negativas provocará na vida do indivíduo.

publicado às 16:41

Conjugalidades - Parte 2

por oficinadepsicologia, em 13.08.12

Autora: Inês Franco Alexandre

Psicóloga Clínica

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Inês Franco Alexandre

Em terapia de casal, as crenças de cada um dos elementos sobre a relação tornam-se visíveis,  através do conteúdo do que me dizem – como quando explicitam o que desejam da relação ou o que acreditam serem os factores de (in)satisfação – e também através da forma que a relação assume, mesmo em sessão – se há um dos elementos que fala mais, se os dois têm igual espaço, se existem lutas ou competição na tomada da palavra . Através da observação destas dinâmicas vamos entendendo quando um dos elementos está, naquele momento, mais centrado na relação – no nós – e menos em si (quando, por exemplo, propõe passar mais tempo em casal ou lhe é imprescindível ter projectos a dois) enquanto o outro elemento está mais focado nos espaços de diferenciação (quando propõe mais tempo individual, fala mais sobre si e das coisas de que gosta, fala mais sobre o outro enquanto indivíduo separado de si, apreciando-lhe a individualidade). Este tipo de dinâmicas, resultante de uma diferença na perspectiva que cada um adopta sobre a relação entre o eu o tu e o “nós” (ver parte I), pode facilmente causar conflito. Quando sinto que o outro não age de acordo com o mesmo modelo que eu, surgem muitas vezes medos e inseguranças – se não está tão centrado em “nós” é porque já não gosta de mim, porque esta relação não lhe faz sentido, porque não retira prazer do tempo comum, porque não lhe basto – medos estes que também estão, na maior parte das vezes, relacionados com a nossa história individual.

 

Alguns casais dizem-me, com alguma surpresa, que a relação entre eles é diferente na sala de terapia do que quando estão sozinhos, ainda que discutindo os mesmos assuntos. Falam-me da importância de um árbitro, que tem como função a mediação entre eles. Talvez tenham razão, porque julgo que um dos factores de sucesso da terapia seja a maior consciência dos casais de que podem e sabem fazer diferente, e que o poderão fazer também sem a presença de um terceiro elemento. No entanto, não me coloco no papel de um árbitro, porque não considero que seja minha função a de impor regras e faltas. Perguntei-me então várias vezes o que faria com que os casais conseguissem discutir, na minha presença, de uma forma que lhes trouxesse menos sofrimento. Julgo que uma das razões será o facto de, apesar de não ser neutra relativamente aos temas que me trazem (desengane-se quem imaginar que a neutralidade é uma possibilidade para algum ser humano, ainda que terapeuta), permanecer sempre disponível para conhecê-los, individualmente. Ou seja, tendo a adoptar uma postura de curiosidade e compreensão em relação a estas três entidades – os dois “eus” e o “nós” – dando espaço a cada um deles e tendo em atenção os modelos relacionais que cada um dos elementos terá como base, quais as suas crenças, o que acreditam dar-lhes significado à vida e à relação. Isto permitirá que os casais redescubram que diferentes perspectivas não implicam que o outro não nos valida ou não gosta de nós, mas simplesmente que isso resulta de uma forma diferente de olharem para si e para a relação naquele momento das suas vidas, o que por sua vez depende em grande medida da história individual de cada um. E, claro, poderão também descobrir que o modelo do outro não se coaduna com as suas necessidades e crenças fundamentais sobre o que querem para si e para a relação.

 

A minha presença parece então permitir que cada um dos elementos entenda que é possível que as duas perspectivas coexistam, porque eu mesma entendo que as duas podem coexistir, sem que uma invalide a outra. Para isso, tento manter uma postura de abertura e curiosidade, dando-me espaço para ouvir e compreender cada uma das pessoas. Tento por um lado colocar-me no lugar do outro, e por outro lado entender como é que a perspectiva de cada uma das pessoas me faz sentir, enquanto indivíduo. Este exercício dá-me alguma flexibilidade que me permite compreender as duas perspectivas. Por último, tento colocar mais questões e fazer menos afirmações.

 

Para os casais torna-se difícil, é claro, fazer este tipo de exercício, sobretudo em alturas de conflito, quando os medos e as inseguranças emergem. Ao longo do tempo fui também entendendo que, para haver este movimento de abertura e compreensão de parte a parte, que implica descentrarmo-nos e entendermos que as nossas reacções imediatas são grande parte das vezes causadas por inseguranças nossas, seria importante ter sempre presente o amor que temos pelo outro e que ele tem por nós. Por mais banal que pareça, este é o grande reservatório de energia para lidar com o conflito e que permite aos casais não colocar uma grossa armadura quando discutem. Para que esse amor esteja presente, torna-se imprescindível promover o conhecimento mútuo, estimulando a curiosidade sobre a pessoa que temos ao lado, perguntando-lhe sobre si, sobre os momentos mais importantes da sua vida, os seus sonhos, projectos, ambições, princípios de vida. Não menos essencial, será lembrarmo-nos do que nos apaixonou no outro, nos momentos bonitos da nossa história comum. Centramo-nos com frequência no que corre menos bem na nossa relação, e esquecemo-nos de relembrar e de manter o que gostamos tanto nela. E por último, não posso deixar de mencionar a necessidade de nos focarmos nos detalhes – nos bilhetes, nas mensagens, nos abraços inesperados, nos sorrisos, nas surpresas. O essencial pode estar contido num detalhe.

publicado às 10:15

Conjugalidades - Parte 1

por oficinadepsicologia, em 12.08.12

Autora: Inês Franco Alexandre

Psicóloga Clínica

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Inês Franco Alexandre

Num casal, existem três elementos: o eu, o tu e o nós (Caillé, 1991). Existem duas pessoas, cada uma com a sua história de vida, os seus sonhos e projectos, as suas alegrias e os seus fracassos, os seus medos e fantasmas, a sua forma própria de olhar para o mundo, e uma entidade relacional, também com uma história e uma identidade própria. Em consonância com esta ideia, existirá então um espaço próprio para estas três entidades: um espaço de diferenciação de cada uma das pessoas – do eu e do tu - e um espaço de comunhão – do nós – que resulta da intersecção dos outros dois.

 

A conjugação destes três elementos e dos respectivos espaços nem sempre é fácil. Num casal existem, por vezes, perspectivas diferentes entre as duas pessoas sobre os espaços que a diferenciação e a comunhão devem ocupar. Isto acontece, por exemplo, quando uma das pessoas julga que o nós deverá ocupar muito espaço e exigir naturalmente disponibilidade e energia de cada um, e a outra pessoa imagina que deve existir mais espaço individual e menos de casal. Nestes casos, existe uma dificuldade na conjugação das duas perspectivas sobre o casal. É a diferença de perspectivas, e não o facto de haver uma mais válida do que a outra, que cria o conflito.

 

As perspectivas ou modelos que criamos sobre as relações dependem de muitos factores: da sociedade em que estamos inseridos, que dita quais as regras de funcionamento numa relação (um relacionamento com sucesso no mundo ocidental e no mundo oriental terá, com alguma certeza, contornos diferentes); dos modelos que tomamos como referência de sucesso - pais, avós, familiares, amigos – que nos levam a tender a perspectivar as relações da mesma forma; dos modelos que tomamos como referência de insucesso - pais, avós, familiares, amigos - e que nos fazem ter medo de repetir outras histórias e nos levam a comportar-nos de forma inversa.

 

Estes modelos de relação são muitas vezes inconscientes, e consistem em crenças que vamos construindo sobre como devem ser as relações para que tenham sucesso, funcionando como um guião de actuação. Como este guião é, na maior parte das vezes, inconsciente, o que sentimos, os comportamentos que adoptamos e a forma como reagimos aos comportamentos do outro também são, muitas vezes, automáticos. Ou seja, não temos consciência de que sentimos e agimos com base nesses modelos. Mais ainda, temos tendência a confirmar os nossos modelos, através do mecanismo de atenção selectiva, o que quer dizer que nos focamos nos sinais, internos e externos, que nos dizem que o nosso modelo está certo. E porquê?

 

Todos nós precisamos de crenças sobre as quais assentamos o nosso comportamento. Por exemplo, acreditamos que num mundo justo não devemos roubar, o que faz com que não roubemos. Estas crenças são-nos essenciais, porque são elas que nos permitem explicarmos, a nós e aos outros, o nosso comportamento, uma necessidade presente em todos os seres humanos e que parece estar relacionada com a questão da confiança: confiamos mais em quem sabe explicar melhor o seu comportamento, porque poderemos prever com maior confiança qual o comportamento que irá adoptar em circunstâncias semelhantes.

 

Do mesmo modo, acreditamos que para sermos felizes num relacionamento deve haver respeito, simpatia, amor, paixão, cordialidade, que devemos reservar mais ou menos tempo para o casal, mais ou menos tempo para cada uma das pessoas, devemos dar-nos com amigos ou não, sermos mais ou menos fechados, etc. E, uma crença que creio fundamental, acreditamos que é mais ou menos fácil conjugarmos quem somos, a nossa individualidade, com a criação do nós.

 

Construímos então teorias: sobre nós, sobre o outro e sobre as relações. Tendo como base algumas crenças, tendemos a comportar-nos de acordo com estas, e tendemos também a confirmá-las e reconfirmá-las. Por exemplo, se acredito que o outro gosta de mim, tenderei a procurar sinais que mo confirmem – o meu companheiro diz-me muitas vezes que gosta de mim, está alegre quando está comigo, envia-me mensagens carinhosas a meio do dia – e a desvalorizar sinais do contrário – não agiu como de costume, anda mal disposto há muito tempo, não faz o que lhe peço o que quer dizer que não me ouve.

 

Sendo incontornável termos crenças, não é incontornável que elas se mantenham as mesmas a vida inteira, e sobretudo que não as possamos flexibilizar. Ao longo do tempo os nossos modelos de actuação tornam-se rígidos, como se fossemos engrossando as paredes da nossa sala e se tornasse cada vez mais difícil comunicar entre compartimentos.

 

Num casal, os modelos individuais podem funcionar em determinado momento da vida, sendo fácil a conjugação de perspectivas, e não funcionar noutras, sendo necessária alguma mudança ou flexibilização. As diferentes etapas do ciclo de vida do casal, o crescimento individual, os acontecimentos por que vão passando, são elementos que vão obrigando, naturalmente, cada uma das pessoas a rever os seus modelos e o casal a mudar o seu funcionamento. Por exemplo, é provável que a conjugação dos espaços individuais numa fase inicial de paixão não seja semelhante à que acontece quando nasce um filho. Como conjugar, então, a influência de tudo isto na forma como cada uma das pessoas se vai construindo e reconstruindo, na forma como olha para o mundo e para a relação, mantendo um relacionamento satisfatório?

 

Nestes momentos de alguma crise, torna-se essencial transformá-la numa oportunidade de crescimento a dois. Muitos dos casais que acompanho em terapia e que ultrapassam períodos mais difíceis relatam como muito importante a sensação do esforço ter valido a pena, no sentido de fortalecimento da relação. Na parte II deste texto abordarei alguns dos aspectos que considero relevantes na gestão conjugal destes períodos.

publicado às 13:52

Diagnósticos, para que vos quero?

por oficinadepsicologia, em 11.08.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Mais importante do que aquilo que tem é aquilo que é

António Branco Vasco

 

Joana Fojo Ferreira

 

Habitualmente, num registo médico mais tradicional, quando temos um problema de saúde procuramos um diagnóstico que nos ajude a identificar o problema e nos oriente para o tratamento adequado. O problema, apesar de afectar o paciente, é visto como exterior a ele e o tratamento é dirigido ao problema e não à pessoa.

 

Num registo psicológico as coisas são um bocadinho diferentes, não deixa de fazer sentido procurar “diagnósticos”, mas são tendencialmente diferentes dos a que estamos habituados num registo médico; num registo psicológico muitas vezes parte do problema está relacionado com a nossa forma de ser e estar na vida, estamos portanto muito mais implicados nele, não é simplesmente algo exterior a nós do qual facilmente e recorrendo a meios exteriores nos possamos livrar, e consequentemente a intervenção é dirigida menos ao problema mais visível (os sintomas) e mais à pessoa que o manifesta.

 

Enquanto muitas vezes num registo médico a ênfase é dada à identificação dos sintomas e o tratamento é a eles dirigido, apesar de progressivamente se contemplarem hábitos e estilos de vida do paciente, num registo psicológico, mais importante do que o sintoma que a pessoa tem é aquilo que a pessoa é, ou seja, o sintoma não é o problema mas o reflexo do problema e é na pessoa em si que podemos identificar tanto o problema como a solução. Num diagnóstico psicológico, além da identificação dos sintomas, entram então factores como o modo de funcionamento da pessoa, a sua história de vida e de desenvolvimento com realce para memórias marcantes ou por intensidade ou por frequência, e situações presentes que possam ter despoletado o problema ou tê-lo intensificado.

 

Habituados que estamos ao registo médico mais tradicional, é frequentemente difícil sair dele e, por um lado, reconhecer a necessidade de identificar e trabalhar os factores psicológicos que estão a intervir na manifestação do problema e, por outro, reconhecer progressos, que muitas vezes começam a surgir antes do sintoma que o trouxe a terapia desaparecer.

 

Dada a preponderância da pessoa sobre o sintoma, o trabalho psicoterapêutico passa muito por reconhecer de que forma é que a maneira como vivo a minha vida, fruto do que a minha história incutiu ou determinou, e influenciada pelas minhas circunstâncias actuais de vida, contribuiu para o surgimento ou exacerbação da sintomatologia. Esta consciência permite progressivamente abrir mão de velhos hábitos, questionar “heranças psicológicas” que nos foram incutidas como necessárias mas que nos apercebemos que no presente de nada nos servem e contribuem mais para o problema do que para a solução, e reconhecer necessidades fundamentais que precisamos procurar satisfazer para nos sentirmos bem connosco e com a nossa vida.

 

Pode parecer estranho, mas são estas conquistas que permitem de facto que no final da linha os sintomas que apresentávamos já não tenham problemas para sinalizar e que gradualmente, quase sem nos darmos conta, deixem de estar presentes ou ter um impacto tão forte nas nossas vidas.

 

No que a problemas de foro psicológico diz respeito, não procure a solução no sintoma, procure-a em si. Cuide de si!

publicado às 14:20

Sim, podemos desligá-lo!

por oficinadepsicologia, em 10.08.12

Autora: Catarina Mexia

Psicóloga Clínica e Terapeuta familiar e conjugal

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Catarina Mexia

Quando, em 1876, Alexander Graham Bell usou a sua mais recente engenhoca para chamar o assistente do último andar da estalagem em Boston, não sonhava o desenvolvimento ou a importância que tal descoberta viria a ter nos dias de hoje.

 

O telefone tornou-se o companheiro fiel das mulheres, adolescentes e profissionais. Chega a ser utilizado como um terapeuta, um confidente e até uma arma contra o aborrecimento ou a insegurança. Na sua versão mais moderna, o telemóvel fica mais complexo a cada novo lançamento, enquanto as suas funções e a sua influência na vida moderna aumentam a uma velocidade vertiginosa. Se há poucos anos este aparelho era considerado um sinal exterior de riqueza e de status, hoje é quase indispensável na vida pessoal e profissional de cada um de nós, transformando- se em pouco tempo numa necessidade quase básica.

 

Atualmente é uma visão vulgar, normal e aceitável o comportamento de pessoas gesticulando, parecendo que falam sozinhas, quando usam o auricular, enquanto conduzem ou andam na rua. Da mesma forma que também é vulgar encontrar um grupo de amigos reunidos num jantar ou à volta de uma mesa sendo que alguns deles estão entretidos em conversas distintas através dos seus aparelhos, ou fixados nos ecrãs dedilhando mensagens ou navegando no mundo da net. A dependência com os telemóveis é quase patológica, ou como diz o escritor italiano, Umberto Eco, estes tornaram-se numa "extensão das mãos".

 

Ao telemóvel com os pais. Grande parte dos utilizadores dos telemóveis são crianças e adolescentes, apesar de o seu uso nem sempre estar relacionado com a sua principal função, que é a da comunicação, mas sim com a utilização de uma multiplicidade de características acessórias, como os jogos, as câmaras fotográficas e de filmar, as SMS's, etc. No entanto, por vezes nem são os adolescentes ou as crianças que precisam por si só dos telemóveis, mas sim os seus pais: este aparelho consegue cumprir uma necessidade dos pais que é a de terem uma ama à distância, pois permite-lhes estar em contacto com os filhos sempre que precisem.

Esta parece ser uma das mais valias de tal aparelho, na medida em que aumentou a sensação de segurança daqueles que o possuem. O envio de um SOS ou apenas o pedido de prolongar a noite para além do combinado são facilidades únicas que o telemóvel proporciona.

No entanto, a facilidade e a impessoalidade de um contacto telefónico não promove a gestão/negociação de situações que necessitariam de uma conversa calma, face a face, com ambos os pais. Para não falar das famosas quebras de rede que permitem que o telefone não seja desligado, mas que impedem a continuação de uma conversa que não estava a agradar.

 

Dependência. Existe um desencontro entre os psicólogos e os utilizadores na forma de encarar tal instrumento. Se para os primeiros pode ser considerado a febre do século, já para os segundos é apenas uma necessidade muito premente.

 

É frequente sentirmo-nos completamente perdidos, quase isolados do mundo, como se mais nenhum outro meio de comunicação existisse, quando somos surpreendidos por uma bateria que acaba. Para alguns, e porque muitos destes aparelhos nos permitem guardar informações preciosas que vão desde a nossa agenda diária, agenda de contactos, entre outras coisas, o dia entra em stand by. Ficamos como loucos tentando encontrar uma forma de recuperar a nossa vida, recuperando a carga da bateria.

 

Um outro fenómeno associado aos telefones móveis, são as SMS's. Milhões de mensagens são enviadas por ano, especialmente por adolescentes. Se estivermos atentos verificamos que a maioria deles adquire competências extraordinárias na utilização do teclado, que lhe permite escrever sem olhar, independentemente da marca do telefone, a velocidades alucinantes.

 

Nova linguagem. Esta nova tecnologia tem originado a organização de conferencias e debates acesos junto de linguistas, pois criou-se quase que um novo código linguístico próprio deste tipo de comunicação: "Kiduxo, hj keria mm star ctg. Xts sp cmgo.dec kk csa. Axu k gxto mt d ti perxebs. Bjs Sónia" (In"compreender os adolescentes", Helena Fonseca). Tradução: "Queriducho, hoje queria mesmo estar contigo. Estás sempre comigo. Diz-me qualquer coisa. Acho que gosto muito de ti percebes. Beijos Sónia".

 

Entre outras razões, nas quais se inclui um menor custo, a utilização das SMS's permite ultrapassar situações de timidez e dificuldades na expressão adequada de sentimentos, tão características na idade da adolescência. Também os adultos já descobriram essa qualidade das SMS's: quantas relações escondidas são alimentadas pelas mensagens escritas que permitem maior privacidade numa sala cheia de gente, em comparação com uma tradicional conversa telefónica.

 

Novos hábitos. Se por um lado os telemóveis aproximaram pessoas, facilitaram contactos, por outro alteraram e até prejudicaram algumas características únicas dos relacionamentos.

 

A incapacidade de adiar o prazer ou desprazer de comunicar uma notícia, boa ou má, parece ser uma das consequências. A facilidade com que pegamos num telemóvel para comunicar, por exemplo, uma situação desagradável, encurtou e não promove o tempo de reflexão necessário para que, muitas vezes o caminho até a casa ou a um local com um telefone fixo, permitiam e nos ajudava a estruturar uma conversa filtrando aquilo de facto precisava ser dito. Quantas vezes o telemóvel é usado para descarregar a nossa fúria, para alguns minutos depois nos darmos conta que teria sido mais proveitoso "dormir sobre o assunto".

 

Verificamos com frequência que parece haver um alargamento da noção de intimidade. O onde e como falar de certos assuntos, parece ter sido esquecido, pois muitas vezes somos confrontados, em locais dos quais dificilmente nos podemos ausentar, como um transporte público ou uma sala de espera de consultório médico ou serviço público, com pessoas que utilizam esse tempo para falar daquilo que anteriormente só teríamos coragem de o fazer na privacidade da nossa casa, ou mesmo do nosso quarto. Esta violação da intimidade não é só para aqueles que estão envolvidos na conversa, mas também daqueles que têm de a ouvir. Curiosamente a primeira pergunta que surge numa chamada deste tipo, não é um cumprimento, o interesse pela saúde do interlocutor, mas "onde estás? ". Invariavelmente, mesmo que esta não seja uma informação pertinente para o desenrolar da conversa, esta questão vai surgir.

 

Como muitas coisas que são introduzidas a uma velocidade alucinante no nosso dia-a-dia do século XXI, o telemóvel tem aspectos positivos e negativos e outros aos quais é necessário habituarmo-nos. A reflexão individual, para além das regras exteriores que já nos vão sendo impostas ajudar-nos-ão a tirar partido das vantagens, mantendo- nos atentos de forma critica, questionando-nos continuamente como queremos posicionarmo-nos perante tais melhoramentos

publicado às 09:40



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