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A propósito do "coração partido"

por oficinadepsicologia, em 09.10.12

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

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Isabel Policarpo

E quando o nosso parceiro de longa data, de repente foge e se muda para casa da outra? Como sobreviver à saída inesperada e abrupta do marido, sobretudo quando se acreditava estar num casamento feliz e seguro?

 

Muito tempo depois desse “dilúvio” muitas são as mulheres que continuam a sofrer intensamente. Muitas perguntam: "Mas será que eles nunca sentem remorso?". É comum os maridos justificarem as suas escolhas, culpando as companheiras pelas suas ações – ou seja, listando tudo o que não estava certo no casamento como desculpa.

 

A mulher é capaz de examinar as explicações dele durante meses, vezes sem conta na sua mente, para mais tarde chegar à conclusão de que se ele ao menos conseguisse dizer "desculpa" e realmente o sentisse, isso contribuiria para a libertar do longo caminho da sua dor.

Poucos são os homens, que mesmo após a poeira baixar, são capazes de expressar remorso. O que não quer dizer que realmente não o sintam. Mas a perspectiva de uma conversa de coração a coração com a pessoa que tão gravemente se feriu, não é algo que ninguém aprecie, pelo que seria necessário uma alma muito corajosa para se voluntariar a fazê-lo. Mas esta incapacidade leva muitas vezes a mulher a sentir-se presa e incapaz de sentir alívio.

 

O ponto de viragem para muitas mulheres que vivenciam situações semelhantes, surge no entanto quando elas são capazes de arrancar a sua visão do passado, e se viram para olhar para o seu próprio futuro. Nem sempre é possível fechar o círculo, diria que é mesmo um luxo que não temos sempre a sorte de desfrutar. Mas é exactamente a busca contínua de fecho, que mantém a mulher presa.

É irrealista esperar por um tempo em que você não vai mais ter uma pontada de tristeza ou mágoa quando ouvir no rádio a “vossa música” e não importa quanto tempo passou. Isso é da natureza humana. Mas o objetivo é ter de volta a sua vida nas suas próprias mãos e lutar para se sentir bem e feliz, apesar da mágoa que experimentou.

publicado às 11:05

O homem é uma criança

por oficinadepsicologia, em 08.10.12

Autora: Tânia da Cunha

Psicóloga Clínica

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O homem é uma criança: o seu poder é o poder de crescer

(Rabindranath Tagore)

 

Tânia da Cunha

É verdade que a infância pode condicionar e prefigurar o nosso perfil de adultos, mas não menos verdade é que cada um de nós pode melhorar-se a si mesmo se acreditar que isso é possível e se se esforçar por consegui-lo. Não se deixa condicionar pelo passado!

 

Quando alguma criança não recebe afeto razoável para se sentir amada, poderá sentir injustiça e achar-se inferior comparativamente com outros, deste modo não aprende a relacionar esforço com recompensa, nem tem um limite claro do que lhe é permitido fazer, assim, são configuradas todas as condições necessárias para permanecer na infância, porque não está a ser preparada para a vida adulta.

 

Desafio-o que analise e reflita a propósito do seu processo de desenvolvimento, o caminho da maturidade. Para facilitar esta experiência referencio em seguida alguns traços básicos do comportamento infantil que devem atenuar-se ou desaparecer na idade adulta:

  • Procura de aprovação.
  • Comportamento egocêntrico.
  • Procura constante de afeto e de proteção.
  • Dificuldade em assumir responsabilidades.
  • Facilidade em estabelecer e interromper relações.
  • Procura de modelos de identificação.

Partilhe connosco a sua reflexão: é um adulto que renuncia a crescer para satisfazer as suas necessidades de criança (necessidade de se sentir amado e admirado a toda a hora, com dificuldade em manter relações estáveis porque isso significaria agir a um nível de responsabilidade que não desenvolver); OU reconhece que isso não se consegue de forma gratuita porque, no mundo dos adultos, as coisas não se ganham sem esforço e o amor não é incondicional.

publicado às 14:24

Desejo, paixão, amor e... cérebro!

por oficinadepsicologia, em 07.10.12

Autor: André Viegas

Psicólogo Clínico

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André Viegas

Vários são os panos de fundo que remetem para as relações humanas, para aquilo que une, desune, para o que agrada e desagrada, para o que dói e para o que dá prazer.

 

Bastantes casos em psicoterapia traduzem vivências de sofrimento psicológico inerente a desligações relacionais; outros, traduzem alguma frustração pelo sentir do enfraquecimento da intensidade da ligação que, muitas vezes é perfeitamente natural.

Fazendo um enfoque nas relações amorosas, uma vez que é comum ouvir-se frases como:  ”(…) já não era como no início…estou preocupado(a), com medo que acabe (…)”, introduzirei uma justificação psico-biológica para tais sentimentos.

 

As várias posições científicas na área convergem no considerar que o amor acontece no cérebro através de um conjunto de reacções de índole química.  

 

A primeira fase é chamada “fase do desejo” e é desencadeada pelas nossas hormonas sexuais, a testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres.

 

Quase paralelamente, “fase da paixão”, uma das primeiras reacções é a secreção de um neurotransmissor chamado feniletilamina que provoca sentimentos de excitação, prazer, gerando sentimentos de alegria (“estou apaixonado(a)”). A feniletilamina controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e é um composto químico com um efeito poderoso sobre nós, tão poderoso, que pode tornar-se viciante. O nosso corpo desenvolve naturalmente a tolerância aos efeitos da feniletilamina e cada vez é necessário maior quantidade para provocar o mesmo efeito (Ribeiro-Claro, 2006). Ao mesmo tempo são libertados outros agentes químicos como a dopamina. Por outro lado, as glândulas supra-renais libertam adrenalina que justificam a sensação de nervosismo, como a falada “borboleta na barriga”, aceleração do ritmo cardíaco e outros sintomas que sucedem quando um pessoa está posicionada perante situações de ansiedade (e.g. mãos suadas).

 

Posteriormente, “fase de ligação”, uma das hormonas produzidas é a oxitocina, conhecida como a hormona do carinho, essencial na ligação mãe-bebé (produção de leite para a amamentação).

Estabelecida uma relação amorosa, o cérebro liberta endorfinas que tem um efeito de relaxamento que provoca os sentimentos de segurança e confiança.
Quando tal sucede, os níveis de feniletilamina descem e os seus efeitos vão enfraquecendo, o que leva a muitas pessoas considerarem que a relação perdeu o interesse e a direccionarem-se para outra relação.

Aparentemente, a feniletilamina é degradada rapidamente no sangue, pelo que não haverá possibilidade de atingir uma concentração elevada no cérebro por ingestão (Ribeiro-Claro, 2006).

 

De forma sucinta, quando conhecemos uma pessoa, assim como quando estamos perante um novo estímulo, desconhecido, o nosso cérebro reage de forma a apreender o novo como um todo, integrando-o numa espécie de base conhecida. Com o decorrer do tempo, perante o mesmo estímulo, como é o exemplo duma relação, adaptativamente o nosso cérebro despende gradualmente menos energia para poder estar disponível para todos os novos estímulos do dia-a-dia, essencial de serem processados. Não seria “económico” para o nosso cérebro gastar sempre a energia máxima perante um único estímulo continuadamente.

 

É interessante pensar nisto!

publicado às 18:55

Navegue pela incerteza

por oficinadepsicologia, em 07.10.12

Autora: Cristina Sousa Ferreira

Psicóloga Clínica

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Cristina Sousa Ferreira

Vivemos num mundo de informações incompletas, surpresas garantidas e ocorrências imprevisíveis. As tempestades, quer sejam reais ou metafóricas, têm vindo a acontecer. Tentar prever a sua chegada nem sempre resulta e tentar eliminar o seu risco é pura fantasia. Mesmo com uma preparação meticulosa, pensar que estamos preparados para qualquer coisa que o futuro nos traga é irreal. As pessoas mais bem sucedidas são as capazes de “navegar pela incerteza”. Se não é possível  saber o que nos espera amanhã como nos podemos preparar?

Precisamos de nos preparar para o facto de nunca estarmos preparados para tudo.

 

Então como podemos lidar com os imprevistos, com o inesperado? Deixo-lhe aqui algumas dicas:

 

1-      PARE – se o momento exige de si uma resposta rápida, faça uma pausa breve. Se está numa reunião, faça um intervalo para ir à casa de banho, se está no escritório levante-se e caminhe um pouco.. por outras palavras, faça aquilo que muitas vezes não se dá oportunidade de fazer, PENSAR.

 

2-      Avalie as suas opções actuais- não perca tempo a pensar como gostava que as coisas fossem diferentes, ou a tentar encaixar o seu plano anterior no novo contexto. Comece com uma folha em branco.  Pense no resultado que pretende alcançar tendo em conta a nova situação, a informação disponível e os recursos disponíveis. Depois desenhe as suas opções.

 

3-      Navegue – baseado na nova avaliação, tome uma decisão e comprometa-se. Mesmo que a decisão não seja a ideal, mesmo que não lhe dê todos os resultados que estava à espera pense que foi a melhor possível perante as circunstâncias. Siga em frente e enfrente a tempestade sem hesitações.

 

O actual contexto tem-nos confrontado com “tempestades” económicas, pessoais, profissionais. Queremos estar bem preparados para qualquer eventualidade mas somos frequentemente surpreendidos  com novos e inesperados acontecimentos. Ser capar de lidar com o imprevisto,  de não paralisar e de não sofrer demasiado perante a incerteza é um enorme trunfo. Devemos planear, mas estar preparados para desistir, reformular, ou recomeçar do zero se o imprevisto o exigir. Não é fácil, mas é necessário.

 

“If you really want to do something, you will always find ways. If you don't really want to do something, you will always find excuses"

publicado às 15:25

Afirmação pessoal

por oficinadepsicologia, em 06.10.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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Pedro Diniz Rodrigues

Como acha que se expressa habitualmente para os outros ?

 

E para si mesmo?

 

O sentirmo-nos mais contentes e realizados ou mais tristes, irritados e sozinhos,

está normalmente relacionado com a forma como interagimos uns com os outros e dizemos o que nos vai cá dentro. A qualidade da nossa expressão pessoal parece assumir-se como um factor determinante sobre o qual será interessante refletir.

 

Sugiro-lhe que se imagine nas seguintes situações:

 

Está numa fila para o cinema e chega uma pessoa que se mete na sua frente.

 

Não consegue dormir, porque o seu vizinho do lado tem música a tocar com o volume muito alto.

 

Um amigo seu pede-lhe emprestado o seu carro novo (que não quer emprestar) para fazer uma viagem.

 

Numa reunião de trabalho com toda a equipa, um dos seus colegas diz-lhe algo com que não está de acordo.

 

Tendo em conta a forma como cada um de nós se afirmaria nestas situações, são identificáveis 3 tipos de atitudes ou posturas que potencialmente adoptamos:

 

Podemos adoptar uma atitude submissa, utilizando neste caso, um volume de voz baixo, hesitante, gaguejando, com bloqueios, silêncios, não olhando diretamente nos olhos, o nosso rosto tem uma expressão forçada e o corpo está tenso. Não queremos incomodar o outro, temos medo de o magoar, preferimos sacrificar-nos abdicando do que precisamos. Sentimo-nos normalmente impotentes, culpabilizando-nos e somos pouco tolerantes connosco mesmos, por sermos demasiado críticos. Não aceitamos as nossas emoções e acabamos sentindo frustração e ressentimento.

 

Podemos também adoptar uma postura agressiva, que nestas situações se traduz normalmente num volume de voz alto, numa fala precipitada e pouco fluída, em que interrompemos constantemente o outro, recorremos a insultos e ameaças para fazer valer o nosso direito. Naquele momento, pensamos que só nós interessamos, achamos que “ganhamos” se o outro não expressar o seu ponto de vista. Pensamos que dessa forma não ficamos vulneráveis. Se adoptamos predominantemente esta atitude, é possível que possamos ter algumas ideias interiorizadas de que há gente “má” e que o mundo não é como gostaríamos que fosse. Acabamos por nos sentir irritados e ansiosos, sozinhos e incompreendidos.

 

Finalmente existe um terceiro tipo de atitude, a assertiva, que será a mais recomendável. Ao sermos assertivos, nas situações descritas falamos de forma fluída, segura, sem bloqueios, olhamos diretamente nos olhos (sem desafiar), o nosso corpo está relaxado e com uma postura confortável. Sabemos quais são os nossos direitos e os direitos dos outros. Expressamo-nos sem agressão, discordando abertamente, manifestando interesses próprios. Somos emocionalmente honestos, aceitando e manifestando as nossas emoções agradáveis ou desagradáveis. Não nos sentimos superiores nem inferiores aos outros. Com esta postura, acabamos por nos sentir mais satisfeitos nos nossos relacionamentos e de uma forma geral, mais realizados.

 

Se acha que adopta predominantemente o terceiro tipo de atitude (assertiva), estará no bom caminho. Se concluiu que se encaixa mais nas duas primeiras (passiva ou agressiva), reserve a si mesmo alguns momentos do seu dia, no sentido de refletir sobre o que poderá precisar para que se possa auto-afirmar sem se sentir subjugado, manipulado ou culpado, e para que não o imponha aos outros. Procure esse equilíbrio. Isso é assertividade.

publicado às 13:58

A zanga dos mais aptos

por oficinadepsicologia, em 05.10.12

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

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Francisco de Soure

A evolução abençoou-nos, Homem, com uma capacidade fantástica. Algo que assegurou a continuidade da nossa espécie, que nos permitiu sobreviver. Não falo do polegar oponível, da linguagem, nem tão pouco da capacidade de simbolizar pensamentos complexos. Falo de algo muitíssimo mais elementar, que partilhamos com tantos outros mamíferos: a capacidade de sentir e expressar emoções. Cada uma delas tem uma função específica, que permite assegurar a satisfação das nossas necessidades e assegurar o funcionamento dos grupos que nos permitiram sobreviver. A alegria permite-nos fortalecer laços, o afecto assegura que somos cuidados e permanecemos unidos. Por razões que não discutirei aqui, no entanto, parece que algumas destas emoções passaram a ser consideradas por nós como negativas. Talvez por não serem tão agradáveis de experienciar, emoções como o medo, a tristeza ou a zanga foram rotuladas desta forma e são algo que tendemos a evitar. Na verdade, serão tão ou mais importantes que as que chamamos positivas.

 

Para efeitos deste texto, e como resposta a vários pedidos, focar-me-ei na zanga. Esta parece ser a que mais reprovamos no contacto uns com os outros. Se vemos alguém zangar-se, quase todos tendemos a prontamente intervir no sentido de aquietar a situação. Diria mesmo mais: é muitíssimo frequente ver confundidas a zanga com o ódio e a violência. Como consequência muitos de nós somos ensinados a reprimir a expressão da emoção. A acreditar que seremos punidos se nos zangarmos, que perderemos o afecto dos outros, que seremos vistos como tendo uma personalidade difícil, ou mau feitio. É lamentável que assim seja. A zanga é uma emoção muitíssimo útil! É a zanga que nos permite estabelecer limites. Imaginemos os nossos antepassados, homens das cavernas, reunidos em torno de uma fogueira. Imaginemos que um elemento deste grupo tenta apoderar-se do quinhão de carne pertencente ao seu antepassado directo que ali se encontra. No meio selvagem, na ausência de uma estrutura social que o protegesse, a carne que tinha conseguido assegurar poderia representar a diferença entre a vida e a morte: a energia e proteínas que dela obtivesse poderia ser o que determinaria a sua capacidade de escapar a um predador ou elemento de um grupo rival, a sua capacidade de resistir ao frio ou a um ferimento. Na verdade, o momento em que desse por si a ser privado da sua carne poderia determinar a sua morte muito em breve. Apanhado desprevenido, a ausência de reacção permitiria que o ladrão o dominasse fisicamente, ou escapasse rapidamente. A situação exigiria a contracção de músculos e disponibilidade energética imediatas que lhe permitissem dominar o seu adversário. Que emoção lhe parece produzir este efeito no nosso corpo? Qual a emoção que geralmente associamos à contracção forte da musculatura e à predisposição para a luta física?

 

Pois é, caro leitor, é a zanga. Sem zanga, tornar-se-ia francamente mais provável que este seu antepassado se visse privado da sua carne e, quem sabe, da sua vida. Estranho imaginar que entre as centenas de milhares de acontecimentos mais ou menos determinados pelo acaso que resultaram no seu nascimento, muitos deles terão tido a resolução necessária à sua existência graças à adequada expressão de zanga no momento certo, não é? Tomemos este como um exemplo extremado pela simplicidade do meio no qual o observamos. Na verdade, a nossa sociedade revestiu-se de camadas sucessivas de complexidade e sofisticação. Esta sofisticação, felizmente, resultou num estado de coisas no qual serão raras as situações no nosso contexto social (embora não seja o caso em muitos países, infelizmente) nas quais nos vejamos a servir-nos da expressão física da zanga para assegurar a nossa sobrevivência. Mas as manifestações adequadamente mais sofisticadas de zanga continuam a ser absolutamente necessárias para determinar a nossa sobrevivência em planos diferentes: social, económico, profissional, familiar. Perguntar-se-á, e bem, a que manifestações mais adequadas me refiro. Imagine-se no contexto do seu emprego. Um colega dirige-se a si e diz-lhe que, por uma qualquer razão que imediatamente descarta como desculpa esfarrapada, vai ter que sair mais cedo. A implicação desta saída precoce é que, de forma a cumprir um prazo num projecto comum, terá que ficar até mais tarde no trabalho.

 

Naturalmente, com todas as implicações que daqui decorrem: vai chegar mais cansado a casa, ter menos tempo de lazer e repouso, ter problemas com a sua família, e ficar naturalmente frustrado e menos disponível para trabalhar e manter boas relações com os outros colegas no dia seguinte. Imagine as consequências da repetição ao longo dos anos de situações destas. Consegue imaginar o impacto que pode ter na sua saúde (física e mental)? Consegue imaginar que efeito pode ter nas suas relações? O resultado na sua carreira profissional? Posto assim, parece-me evidente tratar-se de facto de uma questão de sobrevivência! Muitos mais exemplos podemos conceber: o familiar que regularmente abusa da sua boa vontade e recursos para os seus próprios objectivos, sem qualquer reciprocidade; o indivíduo que se atravessa à sua frente na fila das Finanças, forçando-o a perder tempo e paciência; o “amigo” que se aproveita dos seus contactos para passar à sua frente numa oportunidade profissional.

 

Contextos muito diferentes, com graus de complexidade muito diferentes do que deparava o seu antepassado, mas com um processo semelhante: a transgressão dos limites pessoais do indivíduo, com claro prejuízo para si. Nenhuma destas situações seria bem resolvida com agressão física, isso parece ser evidente! De facto, se decidisse esmurrar qualquer uma destas pessoas as consequências para si poderiam ser bem mais negativas do que as provenientes da inacção, com o resultado óbvio de que tudo o que perderia se continuaria a perder, com agravantes sociais e, quem sabe, legais. A sofisticação das situações, bem como os limites que a sociedade em si impõe, requerem mais engenho e auto-controlo na expressão da zanga. Um não redondo aplicado no momento certo não é senão a aplicação controlada e calculada de zanga. Uma calma chamada de atenção, suficientemente clara e cortante para que o outro perceba que errou sem sentir ter margem para ripostar de forma agressiva, coloca o outro no seu lugar de uma forma que nos assegura que não existe abuso, nem represália. Deixar clara a nossa insatisfação sem agredir o outro é uma forma sublime de expressar zanga, e uma ferramenta inexcedível para a sobrevivência do Homem moderno. Na verdade, é aquilo a que comumente se chama assertividade, uma palavra bem badalada nos tempos que correm.

 

É, também, uma disciplina. A nossa capacidade para conter a zanga é um recipiente com lotação limitada. De cada vez que “dobramos a língua”, zangamo-nos de qualquer forma, sofremos as consequências, e ainda nos zangamos connosco. Não nos esquecemos da afronta. Acumulamos zangas caladas, depositamos ressentimento. Até ao dia em que a panela de pressão não aguenta mais, e rebentamos de forma desadequada. Nessa altura, explodimos a zanga, queimando tudo à nossa volta. Potencialmente, ferindo relações importantes, prejudicando a nossa imagem, e deixando-nos ainda mais convictos da inconveniência e inutilidade da nossa zanga. Por isso, usemos a zanga como qualquer ferramenta que requer disciplina: de forma consistente, imediata, e regular. Se não a deixarmos acumular, seguramente ser-nos á útil!

 

Será que nos consegue deixar um testemunho de situações em que utilizou, ou viu utilizar, esta ferramenta com sucesso?     

publicado às 10:56

Quando somos emocionalmente dependentes

por oficinadepsicologia, em 04.10.12

Autora: Cristiana Pereira

Psicóloga Clínica

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Cristiana Pereira

Como todos já ouvimos dizer, “o que é demais faz mal” e não seria diferente em relação às nossas relações interpessoais. A dependência emocional funciona da mesma forma que as outras dependências (álcool, drogas, comida, etc.) e, por isso, merece a mesma atenção.

 

Alguém dependente a nível emocional tem medo da liberdade e caracteriza-se por comportamentos submissos, falta de confiança, dificuldade em tomar decisões, dificuldade em expressar os seus pensamentos, medo da separação, de ser abandonado e, principalmente, da solidão. A dependência emocional não se manifesta apenas no comportamento afectivo, mas em todos os contextos vivenciais (sexual, profissional, social e económico).

 

A dependência pode surgir durante o período da infância, quando a criança não tem as suas necessidades emocionais satisfeitas. Assim, esta criança cresce com a sensação de vazio, que lhe falta algo e vai em busca desse algo que a complete. Pode fazê-lo nos relacionamentos, na comida, no sexo, nas drogas, etc. Por se sentir incompleta, poderá apresentar alguma tendência para ser um adulto com pouca auto-estima e com uma necessidade excessiva de aprovação pelos demais.

 

Na dependência emocional, por norma a pessoa é extremamente prestável, criando a falsa sensação de controlo nos seus relacionamentos.

Como em qualquer outra dependência, a recuperação é um desafio, pois aparentemente é mais fácil continuar a procurar a felicidade em factores externos do que construir recursos internos para preencher o vazio.

 

O primeiro passo é procurar ajuda. Partilhar com outras pessoas as suas dificuldades facilitará o processo de independência. Como tantas grandes caminhadas, todas elas começam com um pequeno passo.

publicado às 15:41

Desafiaram-me a mim - vou desafiá-los a vocês!

por oficinadepsicologia, em 03.10.12

Autora: Cristina Sousa Ferreira

Psicóloga Clínica

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Cristina Sousa Ferreira

Em equilibrio pela linha do tempo passe pelas memórias do passado, pela natureza presente e pelo futuro do seu dia a dia.


Faça uma rápida viagem no tempo.

Recorde algumas das  situações hilariantes que viveu,  no passado, com amigos. Revisite as suas memórias. Nada como as “palermices” e momentos divertidos da infância, adolescência ou juventude para nos lembrar pequenos prazeres do nosso dia a dia. Aquelas memórias podem levá-lo a aproximar-se dos que o rodeiam e a tentar criar novas memórias agradáveis.

Outro desafio...

 

Dê um passeio e observe de mais perto as árvores.

Ao longo do caminho olhe com atenção as árvores. Repare nos troncos e ramos, nas suas diferentes cores e texturas. Observe as diferentes formas das folhas, veja se há  flores a desabrochar ou frutos a nascer. Será que que existem alguns bichinhos a subir pelos ramos ou a zumbir pelas folhas?  Se está a reparar nisto tudo significa que saiu de casa, que está a caminhar  e que está, sem esforço, a cuidar da sua  saúde física e mental. As árvores para que olha todos os dias, sem ver, são uma importante parte do seu meio ambiente e enriquecem o seu passeio. Tome consciência do que a rodeia e deixe-se envolver pelo sons, pelo cheiro e pelas cores da natureza.

E mais um..

 

Escreva uma palavra que descreva como quer que seja o seu dia.

Numa folha de papel escreva uma só palavra,: “fantástico” , “sem problemas”,  “com força de vontade”... .  Pense nisto com convicção e de forma positiva. Coloque a palavra onde a possa ver ao longo do dia: ao pé da secretária, na carteira, ou ... Que tal colada num post-it no espelho da casa de banho? Decidir sobre que tipo de dia quer ter vai-lhe  dar   “força” e estímulo para criar o tipo de dia que quer. Não acredita, experimente!

Há uma linha que separa os que enfrentam desafios dos que preferem a sua zona de conforto. De que lado está? Atreva-se a mudar e aceite estes desafios.

 

publicado às 09:53

Reflexões em torno da auto-estima

por oficinadepsicologia, em 02.10.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

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António Norton

Hoje em dia cada vez mais se fala em auto-estima e em problemas de auto-estima.

Numa sociedade cada vez mais competitiva, mais arrogante, mais fria e distante nunca se sentiu, como agora, a importância vital da auto-estima.

 

Na minha prática clínica recebo, diariamente, pacientes que dizem ter baixa auto-estima.

 

Mas afinal o que é a auto-estima?

Dito por palavras é algo muito simples. É simplesmente gostar de si, ter afecto e amor pela sua pessoa.

As palavras são simples, mas, efectivamente, muitas vezes não é nada fácil gostarmos de nós mesmos.

 

Gostaria de acrescentar outra ideia fundamental à questão da auto-estima: Ter auto-estima é, simplesmente, gostar de si porque sim, porque existe e porque é! Não é por ter um bom carro, um bom emprego, um corpo bonito ou um rosto bonito ou o que for. Para ter auto-estima, simplesmente basta sentir amor e aceitação por si. Apenas.  Nem mais nem menos do que isto.

 

Essencialmente, não precisa de Ter, mas sim de Ser. E, para Ser, não precisa de nada, uma vez que simplesmente já o é.

 

Quando um bebé é desejado e nasce, é apenas um ser minúsculo cujo cabelo muitas vezes muda de cor, cujos olhos podem mudar de cor, cujo tom de pele, por vezes, também muda. Este bebé não tem um corpo pelo qual se destaca, ou um emprego, ou um carro, ou conhecimentos e não precisa de nenhum destes requisitos para ser amado. Ele simplesmente é amado porque existe  e assim recebe o amor dos seus pais. E essa é talvez a maior riqueza sem preço que os pais podem dar aos seus filhos – o seu amor - simplesmente pelo facto de serem seus filhos.

 

Quando um bebé nasce e sente-se amado e aceite começa a amar-se a si mesmo. É nessa base de aceitação e amor que irá construir a sua identidade.

 

E quando este amor, normalmente dado pelos pais, não existe?

 

Entramos, pois, em dinâmicas condicionais de aceitação. Quando os pais apenas valorizam os êxitos, os sucessos, os objectivos cumpridos, a beleza, a inteligência então a criança vai esforçar-se sempre por agradar os pais, de modo a receber a sua atenção, reforço, afecto e amor. Aprende que, para merecer ser amado, tem de ter boas notas, ou um bom comportamento, ou ser bonito e entra numa espiral de condicionamento.

 

Passa a querer Ter, para sentir que pode Ser. Passa a viver a equação existencial de  - para eu Ser tenho de Ter - e é um forte candidato a desenvolver problemas de auto-estima. Convém não esquecer que nem sempre é possível Ter.

Então, quando não Tem, abre feridas no seu Eu vulnerável e surgem problemas de auto-estima. Aparece um sentimento de culpa, como que uma voz interior muito crítica que diz: “Tu não mereces Ser porque não Tens.

 

Outro candidato a ter problemas de auto-estima é a criança que vai crescendo com pais que por mais que ela se esforce nunca é valorizada, reconhecida, aceite e amada e aí também entramos em espirais condicionais de Ter para poder Ser.

 

O problema da auto-estima é o problema do Ser. Para se amar a si mesmo não precisa de Ter um rosto bonito, um corpo fantástico, ser inteligente, ter um carro, uma boa casa ou o que for. Precisa simplesmente de Ser.

 

Pense nisto e goste de si porque, essencialmente, é!

publicado às 10:30

Salte! E agarre a vida com as duas mãos!

por oficinadepsicologia, em 01.10.12

Autora: Filipa Jardim Silva

Psicóloga Clínica

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Filipa Jardim Silva

Quantas vezes demos por nós num enevoado de dias uns a seguir aos outros, em que se perde a noção do tempo, em que o corpo mexe-se por si mesmo, em que o paladar se fica pelos rótulos das embalagens? Muitas vezes o ritmo dos dias, a pressão dos “devos”, a intolerância dos “tenhos”, a insegurança dos “não consigo” faz-nos entrar numa espécie de piloto automático, em que nos enchemos de tudo que depressa fica em nada, quase como que se nos anestesiássemos e deambulássemos por semanas e meses entre compromissos, espaços e pessoas mas sem tempo para sentir. O tabaco é um escape, a comida é um substituto, o ansiolítico é uma pausa, o isolamento é um silêncio. Andamos com um pacote de críticas e desculpas no bolso para fácil acesso, uma tesoura numa mão a recortar o tempo em fragmentos e um lápis preto na outra a sublinhar o que não corre bem, o que está por fazer, o que foi mal feito, o que não temos.

 

E de repente, subitamente ou de forma algo prevista, paramos ou somos forçados a parar, sustemos o ar, olhamos para dentro de nós e à nossa volta e não sabemos bem onde estamos nem como aí chegámos. Predomina uma sensação de atordoamento a par de uma tentativa de encadear um conjunto de acontecimentos, à procura do sentido lógico que nos levou ali, das supostas razões tão justificativas de tudo, das perguntas encaixotadas e agora desembrulhadas, uma a seguir à outra, na expectativa de resposta. O ar brota como se tivéssemos estado a suster a respiração durante muito tempo, e agora inspirássemos pela primeira vez, profundamente.

 

E naquele instante sabemos que não será mais possível voltar a viver da mesma maneira. Sentimos a urgência de acordar o corpo e experienciar na pele tudo o que nos rodeia, encher cada palavra de sentido, escolher cada pessoa com intenção, degustar cada alimento à procura da descrição perfeita da mistura de sabores e texturas. Olhamos para o relógio e lembramo-nos do seu peso, sabemos que este tempo de lucidez pode ser curto se não nos mantivermos acordados e conscientes de que não queremos mais voltar a ser zombies nas nossas vidas. Acesso de lucidez, clarividência, insight… muitas serão as designações disponíveis para apelidarmos aquele momento em que o tempo se congela, o ruído se afasta, os outros se calam e ouvimo-nos, pura e simplesmente, ouvimo-nos.

 

Uma segunda oportunidade de quase renascermos. Depois de nos sentirmos não quereremos voltar a nos anestesiar, seja com o que for, de que forma for. Antecipamos a força da tentação do automatismo das acções, da repetição de palavras habituais e de padrões conhecidos. Mas se nos empenharmos em fomentar esta atitude de observadores de nós de forma plena e consciente, numa postura de aceitação e sem julgamento, conseguiremos nos sintonizar cada vez mais com o que realmente somos e não com o que achávamos que eramos, conseguiremos nos focar no que queremos de verdade e não no que já tínhamos decidido que era bom, conseguiremos nos permitir sentir quem é especial e não quem é indicado.

 

Agarrar a vida com as duas mãos às vezes pode implicar saltar rumo ao desconhecido, deixarmo-nos ir confiando em nós, sentindo a mudança de ventos em tempo real. No momento do embate inicial o corpo pode doer, a visão pode não devolver o que esperávamos, a mente pode acusar confusão mas o prazer de sentir o mundo com lucidez e agarrar com firmeza no leme das nossas vidas compensará. Salte!

publicado às 12:04

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