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Marés vivas da infância

por oficinadepsicologia, em 15.01.10

Autora: Irina António

Psicóloga Clínica

 

 

“Estou farta! Cada vez que vou a casa dos meus pais, saio dali irritada. Mas porque é que a minha mãe continua a tratar-me como se eu fosse uma adolescente de 12 anos, faz umas conversas que não me dizem nada, perguntas a que não tenho vontade de responder?” – lamenta a Teresa de 35 anos, funcionária do departamento de sinistros numa companhia de seguros, que mesmo em situações de maior stress consegue manter o domínio sobre as situações. Mas basta passar a porta da entrada da casa dos pais, e ela, como Alice no País das Maravilhas, começa a “diminuir em tamanho” e as perguntas da mãe entram nos seus ouvidos como intrusos ressuscitados dos tempos passados. A Teresa diz que começa a sentir-se invadida e desrespeitada e perde toda a capacidade de manter uma conversa de adultos.

As experiências como a da Teresa não são raras a surgir em conversas do consultório. Muitos de nós já passaram por sensações semelhantes, quando parece que o tempo dá uma volta e nos lança para o espaço que ficou longe, lá atrás, onde nós ainda éramos pequenos, e os pais eram grandes. Em contacto com os pais, às vezes, avivam-se os sentimentos e desejos que nós não conseguimos satisfazer quando éramos crianças. Dar-se conta destes sentimentos pode ajudar a compreender algo importante sobre nós que até agora estava guardado no “esconderijo das memórias perdidas”.   

Do ponto de vista da psicoterapia Gestalt, em relações entre pais e filhos destacam-se 4 etapas, conta-nos o psicoterapeuta francês Gonzague Masquelier, Director da escola da Gestalt em Paris,  

1. Dependência – a criança depende dos pais em todos os sentidos – financeiro, emocional, físico

2. Contra-dependência – na idade adolescente as decisões são tomadas em contradição aos pais – reacção contra. O adolescente aprende sobre autonomia através do conflito.

3. Independência – ganha-se a medida de maduração. Por volta dos 40 pode ser atingido o nível de total independência: a pessoa realiza os projectos próprios de acordo com seus desejos

4. Interdependência – mais perto dos 50. Quando os adultos se aproximam mais dos seus pais, descobrem o valor da ligação com as gerações mais velhas, chegam ao enriquecimento mútuo que proporciona uma nova forma de intimidade.

Às vezes, sentimo-nos incomodados pelo despertar das sensações “da criança”. “Sinto-me estranho ainda a procurar a aceitação do meu pai” – confessa o Rui, comercial de 38 anos, “Ainda hoje me preocupo se a minha nova namorada vai ser aprovada pelo meu pai. Tenho cuidado para que eles não se cruzem na minha própria casa”.  

Quando somos crianças temos direito a ter um amor incondicional, pelo simples facto de existir na vida dos nossos pais. Para a pessoa adulta torna-se mais difícil contar com sentimentos incondicionais do outro. O amor e o respeito têm de ser merecidos, ganhos quase como um trunfo, e a aprovação dos pais permite, nem que por uns minutos, esquecer a nossa “maturidade” e ganhar os momentos de fôlego contra as tensões do dia-a-dia, partilhar as preocupações com o outro, e esperar o seu cuidado. Mas, por outro lado, passando o direito de escolha para as mãos dos pais, coloca-nos numa posição dependente e vulnerável.

Os pais são às vezes, os únicos testemunhos da nossa infância, quem se recorda de nós ainda pequenos. E no momento do encontro com eles, podemos novamente sentir dentro de nós um menino ou uma menina que éramos há alguns anos atrás, reviver as sensações da infância. Algumas vezes muito ternurentas: “quando me sinto em baixo, vou a correr para a casa dos meus pais no Alentejo e fico dois dias a andar pela casa de pijama, e comer coisas feitas pela minha mãe”, conta a Filipa, de 46 anos.

Mas nem sempre estes encontros fazem lembrar um idílio quase perfeito. “Nem sei como descrever esta sensação tão dolorosa que sinto quando volto para a casa do meu pai e fico lá dois ou três dias, conta o Sérgio de 40 anos. Eu perco o norte, fico confuso entre a vontade de ficar e a nostalgia pelo passado, e a insuportável sensação de culpa perante ele, à mistura com a raiva de não poder dizer como estou farto de ouvir certas coisas que me magoam desde tempos da criança”.

Ao pé dos pais tornamo-nos pequenos, e tal como crianças, com toda a força da emoção, experienciamos as suas indignações, temos medo de incomodar e escondemos, à maneira infantil, as nossas novas compras ou problemas no trabalho, de saúde ou relacionais. Tal como as crianças, sentimo-nos perdidos, com dificuldade em defender a nossa opinião. Sentimos confusos em relação às emoções que marcam o contacto com próprios pais: raiva, medo, ternura, irritação, alegria, ressentimentos ou culpa. Tentamos evitar os conflitos ou entramos em confronto, e tudo, porque não nos conseguimos sentir ao pé dos pais como adultos iguais a eles, que podem cuidar de nós sem reprimir, enquanto permitem que cuidemos deles. 

Para alguns de nós a infância é um paraíso perdido, o período cheio de tranquilidade e alegria; para outros, um dos períodos mais perturbadores da vida. A infância não tem alternativa. Para cada um de nós é um mundo oferecido pelos nossos pais, seja ele belo ou monstruoso. E o único que nos foi dado conhecer. Este mundo não tem de ser aceite com esforço, ele surgiu como algo dado e aceitá-lo agora significa dar por terminadas as exigências e expectativas que já não fazem sentido existir.

 

publicado às 08:52



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