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Quando os manos se zangam

por oficinadepsicologia, em 02.04.10

Autora: Patrícia Aguiar

Psicóloga Clínica

 

Todos os irmãos, independentemente do tamanho, feitio, diferença de idades, e personalidades, brigam e zangam-se, ocasionalmente ou frequentemente.

 

Mas não é com este comportamento que estou preocupada, mas sim com o comportamento dos pais em resposta a estas zangas. Se as zangas entre irmãos se tornam frequentes e invariavelmente um deles sai a chorar do conflito, pode surgir um clima de ansiedade, tensão e culpabilização que, esse sim, pode ser difícil de controlar. Este clima pode chegar a um ponto em que os pais se sentem incapazes de lidar com a situação, criando um efeito de “boomerang” que afecta toda a família.

 

Mas na verdade a maior parte das zangas entre irmãos, se vistas por um prisma correcto e informado acerca do desenvolvimento das crianças, não passam de uma “tempestade num copo de água”.

 

Decidi nesta altura de falar acerca deste tema na sequência de uma entrevista ao Pediatra Paulo Oom, que falava deste assunto numa rubrica do programa “Mundo das Mulheres”. Tendo concordado em absoluto com as opiniões deste médico, que admiro, resolvi pegar nessas mesmas ideias, preenchendo aqui e ali com algumas clarificações, esclarecimentos e exemplos da prática de Aconselhamento Parental que tenho desenvolvido na Oficina de Psicologia.

 

 

1. Desenvolva um novo olhar sobre as zangas, brigas e discussões entre manos

 

Lembro-me de uma mãe que me pediu ajuda para lidar com os dois filhos, de 2 anos e meio e 5 anos, rapazes, que estavam a deixá-la “esgotada e à beira de um ataque de nervos”. Após uma avaliação cuidada com pai e mãe, bem como uma observação em casa da família, um dos comportamentos-alvo que foi seleccionado para intervenção foram as constantes brigas, discussões e zangas entre os dois irmãos. Os pais já haviam tentado de tudo para resolver os conflitos entre os filhos e não sabiam mais o que fazer, sentindo-se sem ferramentas adequadas para lidar com o problema.

 

Lembro-me ainda do espanto que causei com as primeiras reflexões e indicações que dei a estes pais. O Prof. Paulo Oom alertava também para este aparente paradoxo.

 

É preciso começar a olhar para as brigas entre irmãos por uma outra perspectiva, que por vezes é difícil de aceitar, principalmente para os pais, que querem ver os irmãos a darem-se bem, a cuidarem um do outro, etc. Mas na verdade as brigas entre irmãos são:

 

  1. NORMAIS
  2. INEVITÁVEIS
  3. ACONSELHÁVEIS

 

Muito bem, se lhe é difícil aceitar as duas primeiras formulações acerca das zangas entre irmãos, então quanto à terceira, já lhe começa a parecer que tanto o pediatra como a psicóloga se “passaram dos carretos”.

 

Se pensa assim, então acompanhe-me em alguns argumentos que podem fazê-lo(a) mudar de ideias, ganhar uma nova perspectiva sobre este assunto, perspectiva essa que pode constituir por si só uma grande ajuda para ultrapassar o problema.

 

Todas as investigações mostram que as zangas entre irmãos são relativamente frequentes, independentemente da idade, sexo, personalidade e estado de desenvolvimento das crianças, sendo um comportamento NORMAL no repertório dos miúdos. Muitas destas investigações mostram também que são particularmente frequentes entre irmãos com alguma diferença de idades, surgindo muitas vezes pela não compreensão das limitações e avanços inerentes aos diferentes estados de desenvolvimento.

Dou-lhe aqui um exemplo simples que ajudará a compreender esta questão. É normal que um irmão mais velho, de uns 4 ou 5 anos, se irrite com o irmão mais novo, digamos de 2 anos, pelo facto de este estar constantemente a tirar-lhe os brinquedos sem pedir e que, por seu lado, o mais novo se irrite por o mano mais velho não o deixar participar algumas vezes nas suas brincadeiras. Ora, se pensarmos que o mais novo ainda não tem competências suficientes para pedir emprestado e que o mais velho por vezes precisa de exercitar competências já adquiridas, como fazer um puzzle, que o mais novo ainda não possui, compreende-se perfeitamente que o conflito surja de forma natural.

 

Para além de normais, estas brigas são também INEVITÁVEIS, ou seja, por muitas estratégias que utilize para eliminar as zangas, elas vão continuar a acontecer aqui e ali. Atenção que o carácter de inevitabilidade só se aplica ao facto de as brigas acontecerem! A forma como se lida com o conflito, essa sim, pode e deve ser trabalhada, ensinada e modelada pelos pais e educadores, como veremos mais à frente.

 

Provavelmente nesta altura, a perplexidade com que encarou a ideia de as zangas entre irmãos serem na verdade altamente ACONSELHÁVEIS, dentro de certos limites, já diminuiu consideravelmente. Pois é, as brigas e zangas entre irmãos são extremamente importantes, no desenvolvimento da criança e na formação do seu carácter.

 

O surgimento de conflitos entre os manos são um excelente laboratório onde desenvolver, experimentar e treinar diversas competências essenciais à formação do futuro adulto, nomeadamente:

 

  • competências sociais
  • competências de comunicação
  • competências de resolução de conflitos
  • afinação dos graus de flexibilidade-rigidez, assertividade, tolerância e aceitação do outro.

 

Lembre-se que o seu filho está a crescer e a aprender constantemente. Com os pequenos conflitos com os seus manos, as crianças podem treinar várias estratégias para os resolver, que vão depois incluí-las no seu repertório de comportamentos futuro. Este treino é essencial para que a criança utilize estas competências mais tarde na resolução de conflitos na escola, com colegas e professores, nas relações pessoais com familiares e amigos e no ambiente de trabalho.

 

2. O que fazer? Como lidar com os conflitos entre irmãos?

 

Apesar de os conflitos serem normais, inevitáveis e aconselháveis, há algumas estratégias que os pais podem desenvolver no sentido de ensinar a lidar com o conflito de forma eficaz, respeitando sempre a individualidade de cada um dos filhos.

Paulo Oom, no programa que mencionei há pouco, apontava 3 caminhos muito eficazes:

 

  1. Não intervir
  2. Não tomar partido
  3. Preocupar-se com a forma e não com o conteúdo da discussão

 

Sempre que possível, é importante NÃO INTERVIR. A não ser que algum dos irmãos possa sair magoado “à séria”, que o conflito dure eternamente ou que o seu nível de ansiedade esteja a subir em flecha, ficando fora de controlo, não faça absolutamente nada! Verá que uma percentagem dos conflitos- variável de caso para caso, claro - resolver-se-á tão naturalmente como começou. Provavelmente, ficará surpreendido com o leque de estratégias que os seus filhos utilizam para resolver os seus próprios conflitos e quão competentes são a fazê-lo de forma natural e espontânea.

E aqui vem o mais importante: eles serão tanto mais capazes de resolver de forma eficaz os seus conflitos quanto mais autonomia tiverem para fazê-lo, ou seja, sem intervenção do adulto. Pelo contrário, se os pais estão habituados a resolver os conflitos pelos seus filhos não estão a exercitar a sua autonomia, responsabilidade, auto-controlo e sentimento de competência para lidar com problemas. O importante é sairem da situação com a sensação de que “nós é que resolvemos o problema”.

 

Apenas juntava a esta formulação de Paulo Oom, a ideia de NÃO INTERVENHA, OBSERVE! Apesar de manter uma titude distanciada relativamente ao conflito, não quer dizer que os pais tenham de manter uma postura passiva. É importante, pelo menos em algumas situações e conflitos que surjam, observar, para que possa tomar consciência da forma como os seus filhos lidam com as zangas, no sentido de poder estar preparado para ensinar, modelar e treinar estratégias diferentes ou em falta.

 

Lembro-me de um caso específico duma família com duas filhas, de 4 e 6 anos. As duas crianças pareciam resolver bem os conflitos, mas uma observação mais cuidada da forma como o faziam mostrou que a mais velha desistia sempre da sua posição em detrimento da mais nova. Com uma pequena intervenção dos pais, foi possível ensinar outras estratégias alternativas mais promotoras de uma comunicação assertiva e de competências sociais importantes.

 

É igualmente importante que, quando têem de intervir, os pais NÃO TOMEM PARTIDO de nenhuma das partes, respeitando as resoluções de cada uma das crianças. Imagine que estão a discutir sobre a brincadeira que vão iniciar e um dos filhos quer ir ver um filme e o outro quer ir jogar computador. Tente não tomar partido neste tipo de decisões, respeitando que, independentemente das suas opiniões pessoais, gostos e preferências, eles também têem as suas, que são necessariamente diferentes e, provavelmente, igualmente válidas!!! Claro que se um deles quiser transformar a sua sala num campo de futebol, precisamente onde estão os seus pratos de colecção preferidos, terá de impor os seus limites, não dando razão ao outro!

 

Por último, quando estiver a modelar e a ensinar estratégias eficazes para resolver conflitos, CONCENTRE-SE NA FORMA E NÃO NO CONTEÚDO. Não é verdadeiramente importante se vão brincar às escondidas ou à apanhada, ou se se vão comprar juntos uma bola de futebol ou de básquete, mas sim a forma e as estratégias que usam para lidar com os conflitos.

 

 

Gostaria de juntar a estes 3 caminhos apontados pelo pediatra Paulo Oom, um outro. Quando necessário, envolva-se num “COACHING” DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS com os seus filhos _ em que os pais são o “coach” ou “treinadores”  _ tendo em conta alguns componentes:

 

 

Comunicar eficazmente:

  • chamar nomes, insultar, gritar tipicamente não são produtivos e devem ser  desencentivados
  • comunicar claramente o problema
  • desenvolver uma comunicação assertiva, respeitando o outro, sem se tornar passivo ou agressivo

Focar no essencial:

  • no calor da discussão, tipicamente há uma tentativa de atribuir responsabilidades ao outro, e os pais tentam perceber quem começou a discussão ou quem tem a culpa. Na verdade, essas questões são pouco importantes para resolver o problema. Procure desenvolver a perspectiva de que cada pessoa envolvida numa discussão tem uma quota parte da responsabilidade e a sua resoluação depende mais do que se vai fazer do que de olhar para como começou.
  • Na verdade, não interessa como começou, mas sim como acaba e se resolver um problema, certo?

Desenvolver estratégias de negociação:

  • incentivar, através de uma comunicação assertiva, estratégias de negociação que permitam desenvolver competências de resolução de conflitos eficazes.
  • Use o seguinte plano:

 

stop
PARE!

quando o conflito está demasiado “aceso”, é preciso parar e “apagar o fogo” antes de avançar no trabalho de resolução do mesmo

 

 

 

digaDIGA!

ensine o seu filho a comunicar o que pensa, quer e sente

 

ouçaOIÇA!

ensine o seu filho a ouvir o outro, criando empatia (dentro do possível para a sua idade; não espere grande capacidade para se colocar na posição do outro antes dos 6-7 anos!)

 

pensePENSE!

incentive a criarem alternativas para resolver o problema, podendo ser o mais criativos possível!

Ajude-os a perceber que juntos podem avaliar e escolher uma alternativa em que ainda não tinham pensado.

publicado às 18:30



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