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Talvez psicoterapia...?

por oficinadepsicologia, em 17.07.10

Email recebido

 

Começo por vos dar os parabéns pelo v/ blogue e pelo website da Oficina da Psicologia, é um trabalho absolutamente fantástico.

 

E agora estou aqui a olhar para este e-mail e estou a pensar se devo ou não continuar para o tema que, na realidade, me levou a procurar o termo “psicoterapia” no Google e que, por sua vez, me conduziu a vocês.

 

Sabem, eu sou uma daquelas pessoas que acha que não precisa da ajuda de ninguém, que consegue fazer tudo sozinha. Pior do que isto só mesmo a sensação de que tenho de fazer tudo sozinha. Não há alternativa.  Eu só percebi que se calhar estou a precisar de ajuda profissional quando há uma semana e meia atrás reagi mal a uma mudança no meu local de trabalho (foi só de um sitio para o outro). Reagi mal ao ponto de começar a entrar num ataque de pânico e quase agredir os meus colegas.

 

Sim, eu acho que sei quais são os sintomas de um ataque de pânico porque – até hoje - creio que já tive dois, um dos quais acabei por desmaiar e como tal não me lembro de grande coisa e o outro foi num banco onde tinha ido depositar dinheiro. Apesar de no caso episódio em que acabei por desmaiar eu saber que a origem pode ter estado numa discussão, no episódio do banco não aconteceu nada. Estava apenas na fila à espera de ser atendida, só que de repente comecei a achar que o banco estava muito cheio (que não estava), estava tudo muito apertado, não me deixavam respirar, comecei a transpirar, a ficar com as mãos geladas, a tremer, a ver pontinhos a piscar (tal como se estivesse estado a olhar para sol) e a partir daí tive de sair a correr daquele lugar e ainda tive de empurrar algumas pessoas pelo caminho.  No mais recente episódio consegui sair já depois entrar na hiperventilação mas antes de começar a ver os pontinhos a piscar. Isto costuma acontecer-me em locais onde estão muitas pessoas juntas, mas não costuma acontecer-me frequentemente nem com uma intensidade elevada. Normalmente não ultrapassa o nível do desconforto.

 

O problema é que de há 12 meses para cá as sensações de estar encurralada, de não estar segura (nem em casa, nem no emprego) e de não confiar em ninguém  têm vindo a crescer e eu não consigo contê-las. Talvez estejam relacionadas com o facto de ter perdido o bebé e o meu melhor amigo na mesma altura, não sei, mas não é um assunto sobre o qual goste de conversar. Às vezes tento relacionar isto com outra situação de perda que me afectou consideravelmente (para ver se consigo encontrar pontos de ligação que me permitam racionalizar o assunto), mas é pior a emenda que o soneto dado que dessa vez além de ter entrado numa crise de ansiedade, tive uma perturbação alimentar na qual perdi bastante peso. E se agora ficaram curiosos para saber se desta primeira vez fui acompanhada em termos psicológicos, a resposta é não. Em termos médicos sim, em termos psicológicos não. Mas reconheço que se calhar devia ter sido. Há 12 meses atrás, com a perda do bebé, ainda fui a uma consulta (o Hospital de Santa Maria disponibilizou o serviço), mas depois acabei por não ir a mais nenhuma porque o espaço entre consultas é tão grande que nunca mais me lembrei. Além disso, achei que até estava a lidar bem com toda a situação e podiam haver pessoas que precisavam mais do que eu (ou talvez seja uma boa desculpa que me faz sentir mais nobre).

 

Pois é, se calhar não era má ideia marcar uma consulta pois não?

Olhem, não sei o que vos diga. Não sei. Apenas gostava de não andar stressada, preocupada e triste todos os dias.

 

Adorei a vossa iniciativa.

 

Resposta

 

Cara S,

Antes de mais, o nosso muito obrigado pela amabilidade do seu elogio. É por situações como a sua que nos mobilizamos e trabalhamos diariamente: para podermos levar a todos o conhecimento relativamente às situações que urgem intervenção psicoterapêutica e podermos apoiar quem dela necessite.

 

As situações de pânico - sejam ataques de pânico esporádicos, ou já consolidados numa perturbação do pânico - podem existir isoladamente ou em conjunto (numa relação complexa de causalidade ou agravamento múto) com outras situações. No seu caso, surgem duas situações preocupantes: o pânico e uma perda/um luto provavelmente traumático. Mais do que tentar perceber ou racionalizar o que possa ter levado ao quê, é importante intervir; infelizmente, a mera compreensão intelectual quanto às causas do mal-estar raramente nos permite resolver esse mal-estar.

 

No seu caso, existiu uma intervenção médica que, provavelmente, lhe permitiu conter a instabilidade emocional. No entanto, para uma resolução efectiva que ajude o seu organismo a integrar de uma forma adaptada o que lhe aconteceu e regular as emoções que parecem estar "ao rubro", convém recorrer a apoio psicoterapêutico. E, mesmo que não queira falar sobre alguns assuntos, com a abordagem correcta em psicoterapia, poderá ultrapassar essa situação, com um mínimo de palavras. Numa psicoterapia de qualidade, a actuação é que se adapta a cada pessoa, aos seus problemas e à sua zona de conforto, e não o contrário.

 

Deixo-lhe uma palavra de optimismo: o pânico é das situações em psicoterapia que tem maiores taxas de sucesso no tratamento e existem formas surpreendentemente rápidas de intervir em situações de luto não resolvidas. Fique bem!

 

Abraço solidário,

Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

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publicado às 15:09



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