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Quando doer é bom!

por oficinadepsicologia, em 21.07.10

Autora: Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

 

Recentemente foi publicado um estudo na revista Neuron com uma conclusão surpreendente: para algumas pessoas, o alívio de uma dor aguda é percebido como uma desilusão. Como assim?

 

Para si e para mim que, felizmente, não sofremos de dores crónicas, quando temos uma dor aguda (por exemplo, uma dor de dentes pontual ou uma dor de cabeça esporádica), sentimos alívio quando ela cessa – o que foi identificado pelo tipo de activação de uma pequena estrutura cerebral – o núcleo accumbens.

 

No entanto, para pessoas que sofrem de dores crónicas (como é o caso, por exemplo, de algumas dores de costas, ou da fibromialgia, ou das dores de cotovelo… de tenista, bem entendido), quando termina a dor aguda a que estiveram sujeitos, o alívio não surge – é quase como se, ao terminar esta dor pontual, as pessoas se sentissem desiludidas, já que apenas podem esperar que a dor crónica volte a sobressair, impondo-se, mobilizadora, desgastante, de novo bem à frente do seu plano de consciência.

 

 

Ao ler este estudo, não consegui deixar de pensar nalgumas situações com que me defronto em consultório – e, claro que não há nada de científico nestas minhas reflexões, mas um cérebro deixado tranquilo num Domingo solarengo gosta de devanear e encontrar pontes e associações onde talvez nada exista.

 

Quantas vezes não escuto um cliente totalmente mobilizado por um aspecto da sua vida, pouco ameaçador para o seu bem-estar, mas ao qual dedica uma larga fatia do seu tempo mental diário e investindo uma forte emocionalidade na preocupação com esse tema? Sabe, aquela surpresa de quem vê alguém muito preocupado com a cor dos azulejos da cozinha, quando a casa toda está em ruínas… E, quantas vezes não dou comigo a pensar que, com a vida que esse cliente tem e teve, resulta tão conveniente esta “dor aguda” que o mantém distraído de “dores” bem mais crónicas. O que nos leva, por sua vez, a pensar que talvez precisemos de tal forma de distracções protectoras, quase ao nível da camada biológica (até, talvez, ao nosso núcleo accumbens, enterrado nas profundezas do nosso cérebro), que servem mesmo as negativas que, de uma forma perversa, na angústia pontual que nos trazem, nos libertam, também, por uns tempos, de angústias mais profundas, essas sim, verdadeiramente ameaçadoras da nossa integridade psicológica.

 

Com clientes que me parece estarem a reagir desta forma auto-protectora, dou comigo, instintivamente, a preveni-los de que vamos manter um ritmos menos acelerado e tentar abordar e reparar, de mansinho, a dor crónica, esperando que, à medida que ela se resolve, os temas que serviam sobretudo para a ensurdecer, se afundem por si sós na inutilidade.

 

Às vezes, devagar é mais depressa, e as coisas mais importantes nem sempre estão à superfície…

 

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publicado às 09:17


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