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Trapos no passado, recordações no presente

por oficinadepsicologia, em 29.07.10

Autora: Ana Crespim

Psicóloga Clínica

(A propósito da participação hoje nas Tardes da Júlia, TVI)

 

Roupas… Ahhhhhh! Poucas são as mulheres que não vibram com este tema. De facto, aquilo que vestimos tem muito a dizer sobre nós, sobre a nossa forma de ser, de pensar… mas nem só de aparências vivem as roupas. Elas são muito mais do que isso, são memórias, recordações. Elas podem ajudar-nos a fazer a ponte entre o presente e um momento mais distante da nossa vida, podem até chegar a constituir-se como uma extensão de nós próprias.

E quem as guarda? Não, não me refiro às que usamos no quotidiano. Refiro-me sim àquelas peças que algumas senhoras guardam cuidadosamente no seu roupeiro ou arca, mas que remontam a 10, 20, 30 anos atrás. Porquê guardá-las? Porque não?

 

Não tem de ser um problema, ou sinal de que algo não está bem connosco só porque gostamos de guardar peças de vestuário que nos acompanharam durante os vários momentos da nossa vida. Tudo depende do propósito com que o fazemos e do que retiramos desse gesto. Se é algo que nos traz recordações, boas ou más, mas que fazem parte da nossa história, que guardamos porque representam para nós, algo pelo que passamos, porque não? Se, por outro lado, este acumular de peças for um mecanismo para preencher algum vazio interno, que teima em nos queimar por dentro, então sim, podemos estar perante algo que se enquadre dentro da psicopatologia, e que se constitui como uma forma desadequada e inglória de resolver um problema que não terá fim, se continuarmos a fazer mais do mesmo e não procurarmos ajuda para encontrar o que realmente nos pode preencher.

 

 

Num extremo, temos o coleccionismo, que pode estar presente na Perturbação Obsessivo-Compulsiva, que se constitui como uma compulsão, ou seja, um comportamento repetitivo e descontrolado que tem por finalidade libertar a tensão e ansiedade, associadas a um pensamento persistente de carácter negativo e/ou ameaçador, que insiste em “martelar” na mente da pessoa. Neste caso, a pessoa colecciona objectos (roupa, entre muitos outros), mas colecciona-os de forma doentia e não pelo significado afectivo daquela peça. No outro extremo, temos o total desapego por todos estes objectos, roupas, malas, sapatos, dos quais nos podemos desfazer facilmente, sem dó nem piedade, e sem sentir necessidade de repensar ou dor em abrir mão deles. Este extremo, pode espelhar um desapego e alheamento de nós próprios, uma forma de não encararmos a nossa história, o nosso percurso, talvez porque tal nos magoe e seja mais fácil fugir, afastar tudo o que se possa constituir como elemento de ligação a algo a que realmente não queremos voltar, nem sequer na imaginação através de uma viagem temporal pelos caminhos da memória.

O ideal é conseguirmos um meio-termo, uma posição equilibrada neste contínuo entre normal e patológico, dividido por linhas tão ténues.

Se alguma ou todas as peças de vestuário do nosso passado nos transmitem algo que queremos guardar, se temos espaço onde as arrumar, porque não? Se, pelo contrário, aquela peça, apesar de cara e de bem conservada, nos transmitir algo de negativo e pesado, se interferir nefastamente no nosso humor e bem-estar, e se nos apetece “livrar-nos” dela (dando, deitando fora, queimando, etc.), porque não fazê-lo, aproveitando este gesto como um método de catarse, como possível simbolismo de luto, de enterro de uma situação que já passou e que já conseguimos superar?

O que importa é que se sinta bem, guardando ou não. Não se podem tecer juízos de valor sobre os processos internos de cada um. Cada qual, como cada um, sabe o que lhe vai na alma.

Pense nisto… E seja feliz!

 

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publicado às 14:04



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